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Sam Ba . Encontro de culturas

Tive uma gripe fortíssima que me gerou uma infecção urinária com dores abdominais de crise renal. Um terror. Pedi a um amigo médico que me indicasse um profissional,
 – Nada disso vá agora para o Hospital das Clínicas da USP.

Fui atendido em 10 minutos. Da recepção à triagem, da médica - por sinal uma gata - à enfermagem fui atendido com muita gentileza e competência.
A médica, bonita, discretamente maquiada, sem perfumes, bem vestida e sorridente me passou uns exames e uma medicação de urgência que foi administrada lá mesmo. Prescreveu uma medicação de suporte e pediu que retornasse em uma semana para avaliação. A medicação poderia ser retirada no próprio hospital ou em qualquer estação do Metrô. Em menos de uma hora estava tudo resolvido.
Pode até ter sido um acaso estatístico, mas aconteceu. Um atendimento melhor que Portugal, Inglaterra ou Alemanha, onde já morei. Sampa faz muita diferença da balada ao hospital.

Já avisei a vários amigos que se eu precisar ser atropelado quero ser em São Paulo.
Estava na Av. Vergueiro em Vila Mariana quando vi um rapaz ser atropelado ao atravessar a avenida fora da faixa. Em menos de dois minutos já haviam chegado duas motocicletas da polícia.
A primeira estacionou ao lado do rapaz protegendo-o. A segunda parou bem antes dele, virou-se em posição de contramão voltada de frente para o tráfego com os faróis, piscas e sirenes ligados. Um policial protegia o rapaz, o outro desviava o fluxo do trânsito. Ambos de rádio na mão fazendo comunicações.

Cinco minutos depois chegou uma primeira ambulância de resgate. Logo depois chegou uma outra de algum serviço médico, provavelmente chamada por alguém que assistiu ao acidente. Em seguida chegaram os bombeiros. Mais uns dois minutos chegou um helicóptero da polícia que ficou sobrevoando parado bem em cima do local do acidente. Logo depois chegou um segundo helicóptero de alguma estação de televisão que ficou girando acima do local transmitindo ao vivo.
Um atropelo, duas motos, duas ambulâncias, dois helicópteros.

Voltando ao Hospital das Clínicas da USP para onde certamente o rapaz aí de cima foi levado, afinal na entrada do Pronto Socorro há uma placa de aviso: Prioridade para resgate, ambulância e helicópteros.
Uma semana depois daquela minha crise, como pediu a médica, eis-me lá de volta. Desta vez não fui atendido por ela, mas por um médico. O rapaz era igualmente paulista, tipicamente gentil, com aquela formalidade educada dos paulistanos.
– Bom dia senhor, sente-se por favor. O que se passa?
– Obrigado doutor, bom dia.
– Bom dia obrigado, fique à vontade.

Passei a contar-lhe rapidamente minha estória. Ouvindo-me com atenção ele disse,
– Por favor, continue, e não se importe se enquanto lhe ouço que eu procure seus dados no sistema. E voltou-se para a tela do PC em cima de sua mesa.
– Obrigado doutor.
Enquanto ele localizava meus dados e resultados dos exames no computador eu lhe disse que já havia passado por algo semelhante há muitos anos atrás quando morava em Salvador.
Ele se volta de repente para mim. O rosto do rapaz se iluminou. Sorriu, largou o teclado.

– Você é baiano?
– Não doutor. Sou carioca mas morei muito tempo em Salvador. O senhor é baiano?
– Também não. Sou paulista, mas morei estes últimos dez anos em Salvador.
Subitamente a postura do médico, seus modos e principalmente seu jeito de falar mudaram completamente.
– Sinto uma saudade da porra de Salvador! 'Cê morava onde?
– Na Graça e você?
– No Costa Azul. Mas conheço a Graça, é um bairro da porra, disse ele.
Já adotando um jeito meio cúmplice, meio relaxado ele perguntou,
– E aê? Essa porra tá doendo muito?
– Pra caralho.
– Deixa comigo porra. Vou mudar a porra da medicação, pedir mais umas porras duns exames e quero ver se a gente não acaba com essa sacana dessa bactéria.

Para quem não tem intimidade com o baianês, “porra” na Bahia é usada indiferentemente como sujeito, substantivo, adjetivo, predicado de várias ordens, interjeições de vários tipos. Expressões de raiva, alegria, espanto, prazer, admiração.
A palavrinha mágica é usada para substituir outras palavras, nomes, situações, conceitos e lugares que você não se lembra, ou não quer nomear, no momento em que fala.
É usada tanto para iniciar como para terminar as frases. Como indicativo de mudança de parágrafo, pausa, ponto final, dois pontos, ponto e vírgula, três pontinhos, ponto de interrogação e principalmente vírgula. Sem essas vírgulas verbais as frases ficam sem pontuação, ninguém vai entender.
Serve para tudo porra menos o sentido original. Até em Sampa.

Pôr de Sol em Lisboa

Adoro voar, sempre gostei.
Comecei a voar aos tres anos e a voar sozinho aos cinco. Meus pais me despachavam naqueles DC-3 da Panair e nem no aeroporto eles me levavam pois na época havia kombis que te buscavam em casa. A aeromoça que me cuidasse.
Claro que eu adorava o paparico das aeromoças pois naquela época só havia Mentos da Van Melle nos aviões e elas me enchiam os bolsos. E além de tudo ainda me levavam na cabine do piloto.

Além de curtir vôos comerciais quando eu era adolescente voava e pilotava planador num aeroclube. Havia um piloto da Varig, pai de um amigo de escola, e instrutor do aeroclube que lá nos levava nos fins de semana.
Gosto de voar em qualquer coisa e já quebrei braço, coluna e pescoço num acidente de asa-delta. Fico feliz quando preciso viajar mesmo que seja a trabalho por que sei que um vôo me espera.
Navego, observo, curto, e às vezes chateio a tripulação. Baseado naqueles mapas que as revistas de bordo têm, calculando a distancia pela velocidade de cruzeiro que em geral é de 800 a 850 km e me orientando pela posição do sol consigo me posicionar.

Certa vez em um vôo pedi à aeromoça para confirmar com o piloto se estavámos sobrevoando uma certa montanha, estávamos. Depois pedi para perguntar de novo ao piloto se aquele era um certo lago, era. Depois quando pedi outra informação, agora já por uma terceira vez, ela voltou com um convite do piloto para ir à cabine. Tipo assim: trás esse chato logo para cá.
Foi ótimo, conversei muito e vi tudo muito melhor.

A coisa mais bonita que já vi pela janela de um avião aconteceu num vôo de Lisboa para Amsterdã, rota norte subindo a costa.
O vôo era no exato final da tarde. Portas fechadas, cabine pressurizada, reboque terminado, o avião começou a se dirigir para a cabeceira da pista para iniciar a decolagem.
Chegando lá o avião não decolou imediatamente, ficou a esperar pela liberação da torre de controle.
Da minha janela eu estava assistindo o começo do por de sol. Como era um por de sol típico de outono eu torcia para que a autorização de decolagem demorasse. Demorou mesmo e deu para assisti-lo por inteiro. Lindo.

Logo após o sol desaparecer sinto o avião trepidar com as turbinas à plena potencia iniciando a decolagem. Trinta e dois segundos depois, decolagens em jatos médios variam sempre em torno dos trinta segundos, estávamos decolando.
Olhando pela janela o sol que acabara de se por começou a subir no horizonte, começou a nascer. Isso por causa do fato de estarmos subindo e vendo-o de uma posição relativa mais alta que a do solo. Lá estava o sol a nascer, e era um nascer lindo, como se fosse um novo dia.
Depois da subida inicial, o avião já quase em altura de cruzeiro começa a diminuir a velocidade de subida. Esta nova posição relativa fez com que o sol começasse de novo a descer em relação ao horizonte. Para mim ele estava se pondo pela segunda vez no mesmo dia!

Este segundo por de sol além de muito bonito teve uma característica deslumbrante: como continuávamos a subir, agora mais lentamente, nossa altura relativa variava devagar e por isso o por de sol levou muito mais tempo que o normal sendo assistido de um avião em subida suave.
Absolutamente maravilhoso.
Foi como se depois de um belo por de sol você pedisse a Papai-do-Céu:
- Puxa, foi tão bonito. Dá pra o Senhor repetir?
- Claro meu filho, é só pedir.

Rio gosto de você, Pernambuco obrigado.

Não sou pernambucano, sou carioca, mas poderia ter sido. Minha mãe é de lá, um grande amor, uma graça, é de lá. Nós cariocas temos imensas dívidas com eles. Bastaria o Nelson Rodrigues, mas ainda há o Antônio Maria.

Quem melhor descreveu o subúrbio carioca, quem melhor expressou a alma dark, a lascívia do Rio? O Divino Nelson é um patrimônio carioca. Ele veio de lá para revolucionar nosso Teatro, para nos entender, para nos explicar melhor, para ser nosso cronista. Explicar nossas dúvidas, nossas angústias, nossos desejos, nosso prazer.
E quem mais senão Antônio Maria para nos louvar melhor de forma tão simples? Valsa de uma Cidade,
Rio de Janeiro, gosto de você
Gosto de quem gosta 
Deste céu, desse mar 
Dessa gente feliz 

Valsa de uma Cidade. Um hino de amor ao Rio, aos cariocas.
A esta cidade que tem esse vento do mar no meu rosto, que tem este sol a brilhar no meu rosto a queimar. A brilhar nas calçadas cheias de gente a passar e a me ver passar. Um poema de amor que está em tudo que eu quis em tudo quanto eu amei.
O Rio soube reconhecer esse amor e premiou Antônio Maria com uma divina expressão carioca, a capixaba Danuza Leão.

Fofoquinha: Antônio Maria morou no apê 1005 do Edifício Souza na Cinelândia. Vizinho dos também pernambucanos Fernando Lobo, jornalista e pai do Edú Lobo, e do Abelardo Barbosa o Chacrinha.
Alô, alô Terezinha. No mesmo prédio também moravam Dorival Caymmi e o pintor Augusto Rodrigues. É muita gente pra cantar e amar o nosso Rio.
Rio de Janeiro gosto de você. E gosto ainda mais de quem gosta de você, dessa gente feliz que sabe fazer o Rio. Pernambucanos obrigado. Aquele abraço.

Delícias Pernambucanas

Café da manhã em Recife.
Primeiro você precisa acordar num domingo de verão em Casa Forte depois de uma noite de farra no sábado com os amigos. Casa Forte é a região do engenho de açúcar da Branca Dias uma heroína do Brasil Colonial no século XVI.

Branca é um dos personagens mais ricos da dramaturgia brasileira em O Santo Inquérito do Dias Gomes. Dina Sfat dizia que ela é tão difícil e complexa de interpretar quanto Lady Macbeth ou Blanche Dubois. Branca foi uma das primeiras mulheres a ser senhora de engenho e a primeira mulher a manter uma sinagoga em suas terras. Cristã nova foi acusada de praticar o judaísmo. Antes de ser presa atirou sua baixela e objetos de prata no açude, as águas tornaram-se claras, hoje chama-se Açude do Prata. Levada a Lisboa foi condenada pela Inquisição. 

Domingo típico. Quente de sol brilhante, intenso de azul profundo. A glorious day.
Saia de casa com seu amor à procura de um restaurante típico, talvez o Parraxaxá, para se entregar a outros prazeres. Mas desfrute com moderação.
Queijo Coalho.
Na entrada fatias de queijo coalho frito. Um queijo de vaca que usa na coagulação as enzimas gástricas da própria vaca. Levemente salgado, sabor ácido e intenso. Era curado originalmente nas traves ou no forro quente das casas logo abaixo do telhado até ficar muito rijo. Branco tem muitos pequenos furos, menores que num Emmental, derrete como um Raclette, frito em manteiga forma uma crosta marrom crocante. O queijo é um precioso achado gastronômico, imperdível teria uma appellation d'origine contrôlée na Europa.

Charque.
Sirva-se de pequenos pedaços de charque (jabá, carne seca, jerked beef) bem frita acompanhados de macaxeira (aipim, mandioca) cozida e bem macia regada com manteiga de garrafa (manteiga liquefeita). Um crime contra o colesterol, uma benção para o paladar. A charque levemente salgada e crocante contrasta com a maciez da macaxeira. A manteiga de garrafa completa o sabor umedecendo a macaxeira.

Agora vamos ao Cuscuz.
Trazido pelos escravos muçulmanizados do Magreb no norte da África aqui ele se adaptou. No cuscuz a sêmola de trigo foi substituída pelo farelo de milho. O carneiro substituído pelo bode. O farelo de milho é mais forte e saboroso que a sêmola. O bode ainda mais saudável que o carneiro é uma das carnes vermelhas com menos colesterol que existe. Mas quem está preocupado com estas taxas? O bode é guisado (ensopado, cozido) em um molho forte de alhos, cebolas, tomates, coentros e pimenta. Coloque o molho por cima do cuscuz.

Chegou a hora do Sarapatel. Pule esta parte se você não estiver preparado.
Uma delícia portuguesa trazida do Alto Alentejo servida no Natal pela época da matança do porco (*). Na Ilha da Madeira tradicionalmente é a primeira refeição do dia. Feito de sangue e miúdos do porco é um prato forte, escuro, de sabor muito intenso. Primeiramente lavado com limões aqui ele é guizado com pimentões, hortelã, cebolinha verde, coentros, cebolas, tomates, pimentas-de-cheiro, alhos, cominho e louro. Em Goa na Índia acrescenta-se açafrão e canela.
Sirva-se com um pouco de farinha de mandioca, umas gotas de limão, machuque umas pimentas-de-cheiro.

Agora a sobremesa. O Bolo de Rolo.
Uma delícia que já foi tombada como patrimônio cultural e imaterial pelo Estado pernambucano. Originário do Rocambole francês e do Colchão de Noiva português aqui ele se adaptou e virou um doce fantástico.
Feito de farinha de trigo, ovos, manteiga e açúcar ele tem muitas camadas, muito finas, intercaladas de goiabada derretida, enroladas uma por cima da outra. O bolo de rolo exige muita experiência, perícia e uma enorme paciência pois cada camada tem de ser assada no forno de per si, retiradas cuidadosamente da assadeira, esfriadas, cobertas com a goiabada derretida e sucessivamente enroladas nas camadas anteriores. Um trabalho enorme que vai recompensar seu paladar. Você vai repetir com certeza.

Bem convenhamos que já está na hora de parar, respirar fundo e voltar.
Chegando em casa ligue o ar-condicionado e se deixe levar por maiores delícias pernambucanas. Desfrute sem moderação. Você está tendo uma manhã de Graça.

(*) Vide a festa alentejana d' O Porco é o Tesouro em
 www.camaracorrea.com/2012/05/o-porco-e-o-tesouro.html

As Ninfas do Campo Grande.

Muita gente conhece o Campo Grande em Salvador. Mesmo quem não mora na cidade, conhece esta praça. Ou por ter visitado a cidade, ou passado um carnaval, visto na TV ou por alguma música. Mas pouca gente presta atenção nas ninfas do Campo Grande. São muitas. Belíssimas.

Elas estão espalhadas pela praça, sensuais e displicentes. São estátuas brancas de cerca de 1,5 m de inspiração greco-romana. Umas fôfas. Todas delicadamente insinuantes, seminuas ou usando um leve véu, todas com lindos seios à mostra. Umas carregam flores, outras as oferecem, umas carregam cântaros, outras cachos de uva. Algumas mais atrevidas carregam pequenas piras de fogo.

Quem usa o Campo Grande para malhar pode apreciá-las e contá-las. Serão 32, 35 ou 37?
Ao longo dos 636 metros do anel interno, ou cerca dos 700 do anel externo, elas estão lá lindas, bacantes, provocantes, numa prévia inspiradora do que acontece lá ao vivo entre Fevereiro e Março.
Se você contá-las pode ser que chegue a números diversos provavelmente por que esqueceu cinco delas que estão juntas numa posição mais discreta da praça, meio que escondidas num arvoredo. Procure que você vai achá-las, não seja tímido.

Outra surpresa.
Não são todas figuras femininas, há dois rapazes. Serão sátiros?
Como a praça fica fechada à noite o que será que acontece depois que os portões se fecham? Uma festa de Baco? Serão dois felizardos desfrutando sozinhos de tão bela e numerosa companhia? Parece que não.
Pelo jeitinho deles, são delicados ninfos. Pobres ninfas.

Beerdigung in Sachsen - Um funeral.

O funeral de minha mãe na Saxônia, Alemanha, foi uma das cerimônias mais belas e dignas que já vivi.
Decidi pela cremação seguida de sepultamento e contratei um agente que cuidou de todos os detalhes. Um dia ele me telefonou para me informar o local, o horário, a roupa que eu deveria usar e os procedimentos cerimoniais que eu deveria seguir.
No dia e horário fui sozinho. Antes de chegar ao crematório, que ficava no próprio cemitério, passei numa floricultura comprei uma rosa e segui.

Fazia um dia cinzento, um frio de vinte graus negativos.
Quando cheguei ao prédio do crematório encontrei o agente, do lado de fora, me esperando solenemente vestido. Nos cumprimentamos e ficamos lado a lado naquele frio enorme, sob a neve, em silencio. À espera das cinzas.
Depois que a fumaça saiu pela chaminé ele fez uma mesura com a cabeça e apertou minha mão. Continuamos parados até que dois homens desceram as escadas do crematório e vieram em nossa direção. Um deles vestia uma casaca azul escura, usava uma cartola e segurava entre as mãos uma urna cilíndrica azul. O outro homem usava um paletó preto, um chapéu mais simples e o seguia de perto.

Vieram até nós, nos olharam respeitosamente, baixaram levemente os olhos e a cabeça e tomaram a direção de uma das ruelas do cemitério. Caía uma neve de flocos delicados que desciam suavemente, o céu estava cinza claro, não havia quase ninguém por perto. Ás vezes passava uma ou outra pessoa vestida de escuro, de cabeça baixa.
A neve que cobria tudo aumentava ainda mais o silencio de um lugar em si já silencioso. O único som que se ouvia eram nossos passos pisando na neve. O agente e eu seguíamos os dois homens à cerca de três metros de distancia num passo cadenciado extremamente lento e solene.

Após uma longa meia hora chegamos ao local do sepultamento onde havia uma placa de madeira com um nome. Maria d’Assunção Lopes Câmara Corrêa. 
Um pequeno buraco já estava cavado no chão e uma pá descansava ao lado dele. Eles se postaram próximos à borda. O homem de casaca me entregou a urna. Baixei a cabeça, fiquei com a urna entre as mãos e depois de alguns momentos a devolvi. Eles respeitosamente a tomaram e começaram a desce-la suavemente. Quando a urna tocou o fundo eles se afastaram, deixando espaço para que eu me aproximasse. Para que a olhasse pela última vez. Depois me deram a pá, eu joguei um pouco da terra que estava ao lado, devolvi-lhes a pá e eles terminaram de preencher. Ao final colocaram a placa.
Quando eles terminaram coloquei a rosa próximo à placa, nos apertamos as mãos e nos despedimos silenciosamente.

Acendi um cigarro. O frio tornava a fumaça muito cinza e espessa. O agente me acompanhou devagar, em silencio, até o estacionamento. Antes de nos despedirmos perguntei porque a placa era de madeira.
- Se colocarmos agora no inverno a placa definitiva o mármore poderá se partir. Vamos deixar para coloca-la no começo do verão.
- Ok, gut. Auf Wiedersen.
Voltei para casa sentindo um tipo de solidão que nunca havia sentido antes.

Corneta Lopes. Um herói tipicamente brasileiro.

Dois de Julho, uma data histórica da maior importância. Não apenas por ser a data da Independência da Bahia mas por ser a data da última batalha pela independência do Brasil, a data onde ela realmente foi conquistada. Conquistada com competência surpreendente na Batalha de Pirajá.

O Sete de Setembro é o dia do Grito da Independência, e é exatamente isso, um grito, uma declaração de intenção. O Sete de Setembro marca o fim de um processo que se iniciou num acordo entre pai e filho quando D. João VI voltou a Portugal deixando o filho Pedro por aqui, literalmente na esbórnia, iniciando o processo de separação. Processo que teve um preço. Um alto preço em dinheiro.
D. João VI, ao voltar para Portugal em 1821, raspou os cofres do Banco do Brasil, emissor de moeda e banco central, quebrando-o e levando a seu fechamento em poucos anos. O banco só seria refundado pelo Visconde de Mauá em 1851.
O Brasil começava quebrado. 

Depois o filho assumiu uma dívida do pai. Uma enorme dívida com a Inglaterra. O Brasil pagava a conta que os ingleses cobraram por defender Portugal das tropas de Napoleão quando o rei, rainha, filhos e toda a corte abandonaram o país fugindo para o Brasil, em navios escoltados pelos ingleses.
O Brasil começava devendo. 

Mais alguns anos depois em 1828 o Brasil entregava um enorme território para a formação do Uruguai. A Inglaterra precisava de um país tampão entre o Brasil e a Argentina que garantisse a livre navegação de sua frota no Rio da Prata. Yes Mr. Canning, no problem, do you want more?

Um pouco mais adiante em 1864, aparentemente para defender os interesses industriais da Inglaterra, o Brasil fez o trabalho sujo, arrasou o mais moderno e industrializado país da America do Sul cometendo na Guerra do Paraguai um dos maiores genocídios da História. Morreram 76% da população, 96% dos homens adultos do Paraguai foram dizimados. O Holocausto foi menor. 
Ao fim do conflito o Brasil estava tremendamente endividado com a Inglaterra que financiou a guerra. Aqui começava a perene dívida externa brasileira que só recentemente foi internalizada por orientação do FMI.
O Brasil começava obediente.

Voltando à Independência.
Gritar independência ou morte não significava necessariamente obter a primeira. O Brasil tentava começar literalmente no grito. As tropas portuguesas que estavam no país não aceitaram que um simples grito resolvesse o problema e partiram para a segunda parte. Reagiram e começaram a guerra da independência, com muitas mortes. A última batalha aconteceu dez meses depois em Pirajá no Dois de Julho de 1823.

Existem poucas coisas mais baianas, mais simbólicas que o Hino do Nosso Senhor do Bonfim. No começo, logo na primeira estrofe, com ardor cívico e religioso se louva e se dá, 
Glória a ti neste dia de glória
Glória a ti Redentor que há cem anos
Nossos pais conduziste à vitória
Pelos mares e campos baianos
A imagem do Nosso Senhor do Bonfim é única, não tem clones que saem peregrinando como outras famosas como a de Nossa Senhora de Fátima. A imagem também nunca sai da igreja. Para ser exato a imagem só saiu da Colina Sagrada apenas duas vezes. Numa delas, durante as batalhas da independência, o Redentor da Bahia saiu do altar para abençoar as tropas.
As tropas portuguesas.

Corneta Lopes é o herói definitivo da Independência. Esqueçam as heroínas Maria Quitéria e Joana Angélica os dois maiores homens da Bahia. Lopes é o cara.
A ação do corneteiro foi decisiva para a vitória dos brasileiros na última batalha da independência. As tropas estavam exaustas, em desvantagem, sofrendo enormes baixas e começando a perder a batalha para os portugueses. O comandante brasileiro, por sinal um mercenário francês, Pierre Labatut, estava diante da derrota total sem chance nem mesmo de tentar uma rendição.

Na época as ordens para as tropas eram dadas por toques de corneta. Há toques para movimentos para a direita, esquerda, de recuo, de avanço, de ataque, etc.
O major José Falcão se antecipa ao comandante e resolve, num ato desesperado, salvar algumas vidas dando o toque de debandar. Ele ordena que lhe tragam o corneteiro.
Mas até o corneteiro já havia morrido. Ele ordena que lhe tragam outro, que lhe trouxessem qualquer um que soubesse tocar corneta. Trazem-lhe o Luiz Lopes. O major ordena que Lopes vá ao campo de batalha e dê o toque de Fugir e Debandar.

Lopes obedece. Lopes vai ao campo de batalha. Lopes toca a corneta. Lopes toca o único toque que conhecia. Lopes toca Cavalaria avançar e Degolar.
Madeira, o comandante português, ao ouvir o toque terrível conclui que as tropas brasileiras receberam reforços e desesperado ordena a seu próprio corneteiro que dê o toque de Fugir e Debandar. Os portugueses ouvem, obedecem e fogem desabalados. Vitória brasileira. 

Assim chegava ao fim a última e decisiva batalha pela Independência do Brasil. Thanks Lopes, como é bom saber tocar um instrumento.
O Brasil começava assim, De Gaulle tinha razão.

Recife. Cidade de muro baixo.

Recife é uma cidade interessante, de muitos segredos.
Não é nem de longe uma cidade bonita como o Rio ou Paris. Não tem as belezas naturais de uma nem as belezas urbanas da outra. O litoral do Estado, este sim é belíssimo com algumas das praias mais lindas do planeta.

O encanto da cidade está nas pessoas. Recife é uma cidade de amigos, de bons amigos. De grandes e fortes abraços.
Apesar dos quase dois milhões de habitantes é uma cidade pequena, todo mundo se conhece. Uma cidade claramente dividida em núcleos. Boa Viagem, Olinda e Casa Forte quase não se misturam, têm caráteres diferentes, são virtualmente autônomas.
Todo mundo se conhece mesmo. Amizade é o tempero fundamental da cidade.

Por ser uma cidade de núcleos voltados pra si mesmos, por ser uma cidade sempre em festa, por ser uma cidade de amigos, Recife acabou se auto denominando “cidade de muro baixo”. Regada a muito uísque, o maior consumo per capita do país, o maior consumo mundial de Johnnie Walker, servido no terceiro polo gastronômico do país.
É verdade todos se conhecem, se conhecem bem, se conhecem em detalhes. As pessoas ainda se conhecem por nome e sobrenome. Sendo uma cidade de amigos, cidade de muro baixo, os amigos são naturalmente o assunto principal.
Não há nenhuma maldade nisso, é pura diversão. Uma intimidade carinhosa.

Ariano Suassuna, apesar de paraibano, é um recifense convicto.
É dele a melhor definição desse “muro baixo”. Diz ele, cobertíssimo de razão, que não vale a pena falar de desconhecidos, não faz sentido falar de quem não se conhece, não tem a menor graça.
Deve-se falar mal dos amigos. E mais: deve-se sempre falar pelas costas, falar pela frente seria deselegante, é desagradável.
Um sábio.

A Night In Tunisia

Túnis fica à beira do Mediterrâneo em frente da Itália e da França no norte da África. Tem o mesmo clima da Cote D’Azur, a mesma cor turquesa no mar e uma fascinante mistura de culturas árabe e francesa. Tem as duas línguas, as duas culturas.

Além disso Túnis tem algo muito, muito especial.
A cidade é cercada por um cinturão de cultivo das mais diversas flores para produção das essências que abastecem as industrias locais e francesas de perfumes.
De dia sopra um maral, do mar para a terra, e nos fins de tarde o vento se inverte para um terral vindo da terra para o mar. Como o Sahara ocupa quase metade do país o vento da tarde vem diretamente do deserto em direção à cidade. Um vento quente e seco que antes de chegar a Túnis passa pelas plantações de flores trazendo seus perfumes.

No fim de tarde a cidade é tomada por essa brisa inebriante que sopra durante toda a noite até ao amanhecer, perfumando toda a cidade. A sensação é quase sufocante, entontecedora. Este começo da noite em Túnis além de perfumado é muito festivo pelo ruído ensurdecedor dos milhares de pássaros que trinam ao mesmo tempo, logo após o por do sol, na avenida central Habib Bourguiba. Sorri, lembrei de Shakespeare, de Gonzalo comentando o casamento de Claribel com o Príncipe de Túnis.
Estas noites de calor, sons e perfumes inspiraram a música A Nigth In Tunísia do Dizzy Gillespie. 

Eu estava saindo de uma palestra no Hotel Abou Nawas e voltando para o Afrique Méridien na avenida Bourguiba, onde estava por uma semana. Noite muito clara, límpida, cheia do perfume de Túnis. Minha primeira noite no Magreb, minha primeira noite na África. Fiquei imaginando como o Dizzie devia te-la sentido ao fazer o jazz que gosto tanto.

Como os dois hotéis são próximos, resolvi aproveitar a noite morna e enluarada para caminhar de volta ao meu. Caminhando pela calçada alcancei um velhinho. Um fedayin. Ele não usava a kafia branca dos sauditas nem a branca e vermelha dos outros árabes. Usava a branca de riscas pretas dos palestinos. Quando o alcancei acertei meu passo ao dele. Nos olhamos, nos cumprimentamos,  puxei conversa. Ele não falava francês como quase todo tunisino, só árabe. Sendo assim decidi  falar em português.

E assim fomos conversando por muito tempo cada um falando sua própria língua. Ele na dele, eu na minha, ele em árabe eu em português. Olhávamos as estrelas, a lua, falávamos de muitas outras coisas. Fomos caminhando como dois conhecidos.
Subitamente surge do outro lado da avenida um rapaz fazendo gestos para nós, falando em francês. Impaciente ele atravessa a avenida se aproxima de nós, me pergunta se o palestino estava me incomodando, me pedindo alguma coisa.
- Non monsieur.

Expliquei que estávamos passeando e conversando. O rapaz se volta para o velhinho em francês, o velhinho responde em árabe, os dois conversam em árabe.
O rapaz se volta para mim,
- Mas ele não fala francês, você fala árabe?
- Não, infelizmente não.
- Se nem você fala árabe nem ele fala francês como é que vocês estavam conversando?
- Com o coração. Pergunte a ele se não estávamos falando sobre o perfume da noite de Túnis, destas estrelas, de nossos filhos, de onde eu sou, de onde ele é.
O rapaz faz algumas perguntas ao velhinho, se volta para mim espantado,
- Incrível ele confirmou tudo. Precisamos comemorar este milagre.

Paramos em algum lugar e o rapaz, que era estudante de Medicina, disse que só voltaria para casa naquela noite depois de me ensinar meia dúzia de palavras em árabe e de aprender outras tantas em português. Nos divertimos muito e depois de muitas comilanças e de beber muita água voltei para o hotel e dormi minha primeira A Night In Tunísia.

O Calor do Sahara

Túnis é um desses lugares únicos e fascinantes.
A capital da Tunísia fica no Mediterrâneo em frente da França e da Itália no norte da África. Tem o mesmo clima da Cote D’Azur, o mesmo azul-turquesa no mar. A la mer opposé no Lacus Romanus. Nas noites claras se vêm ao longe luzes da Sicília.
Túnis tem o fascínio da mistura das culturas francesa e árabe. Ex-colônia francesa tem as duas línguas, as duas culinárias, hábitos e costumes, além das heranças dos fundadores cartagineses e dos conquistadores romanos.

Túnis tem algo ainda mais singular, ainda mais fascinante.
A cidade é cercada por um cinturão de cultivo das mais diversas flores para produção das essências que abastecem as indústrias de perfumes locais e francesas.
Em Túnis o vento sopra de dia como maral, do mar para a terra e nos fins de tarde se inverte para terral soprando da terra para o mar. Como o Sahara ocupa quase 40% do país o vento que chega no fim da tarde vem diretamente do deserto em direção à cidade. Um vento muito quente e seco que antes de chegar a Túnis passa pelas plantações de flores trazendo com ele todos aqueles perfumes.

No fim das tardes, durante o pôr de sol, a cidade é tomada por uma brisa muito quente, seca, inebriante, que sopra durante toda a noite até ao amanhecer perfumando tudo. A sensação é quase sufocante, entontecedora, sensual.
Além do vento morno e perfumado do deserto o começo da noite em Túnis é muito festivo por causa do ruído ensurdecedor dos milhares de pássaros que trinam ao mesmo tempo, logo após o por sol, na avenida central Habib Bourguiba.
O sol se vai escurecendo lentamente os azuis claros do mar e do céu do Mediterrâneo deixando rosas, amarelos e vermelhos intensos. Chegando suavemente a noite trás uma brisa morna, aconchegante, feminina, de muitos perfumes acompanhada do canto estridente dos pássaros. A noite chega para acordar seus sentidos.

Mais tarde a esse calor, sons e perfumes começam a se misturar os da noite urbana.
Perfumes das comidas muito temperadas dos restaurantes, do café forte dos bares, dos muitos chás, dos crepes de muitos sabores assando nas esquinas, do tabaco dos nagliês que amigos dividem nas praças.
Sons dos bares e cafés. Sons amorosos de canções muito longas, dolentes. Sons de línguas e dialetos misturados. Sons das dançarinas do ventre. Uma sensualidade preguiçosa no calor, nos sons, nos perfumes, nas musicas, nos sabores, nas danças. Dos andares, dos gestos, dos olhares, do viver. A noite chega para provocar seus sentidos.

Conheci a Ingrid numa festa libanesa em São Paulo.
Rafael um amigo comum nos apresentou. Austríaca, ela se destacava muito de toda a festa. Muito alta, muito magra, muito branca, os olhos muito azuis, os cabelos longos, ruivos, encaracolados. E linda, escandalosamente linda.
Ingrid era uma mulher especial. Tinha viajando pelo mundo, tripulante de um grande veleiro. Não morava em São Paulo vivia em um sítio em Itatiaia a meio caminho entre Rio e São Paulo.
- Fico mais perto da natureza, de meus cães. Posso saltar de para-quedas no campo das Agulhas Negras. 
- Você trabalha em que?
- Sou especialista em pastores alemães para forças militares. Agora mesmo cheguei de Paris onde treinei cães para patrulhar aeroportos. Paga bem e me permite viajar muito.
Ingrid me mantinha fascinado. Apesar deste perfil era muito feminina, sexy apesar da aparência simples e despojada. Ou por isso mesmo.

Falando de viagens e países descobrimos que os dois conhecíamos e gostávamos muito da Tunísia. Ela tinha morado em Túnis, era louca pela cidade. Conversamos sobre a música, os queijos, a culinária regional de Cartage, os cafés, os restaurantes da cidade, o mercado Souk, as janelas, o artesanato, as gaiolas azuis, até dos amores do Abou Nawas. Finalmente fiz a pergunta inevitável.
- Lembra do vento quente nos fins de tarde?
Ela riu, seus azuis brilharam. Deslizou uma mão lentamente numa carícia subindo pela cintura em direção aos seios. Parou a mão neles, me olhou com um olhar firme, direto,
- Claro que lembro. Um calor que queima mas não sufoca.
- Você tem alguma coisa para fazer hoje à noite?
- Não. Se você quiser te pego logo mais para darmos uma volta.
- Combinado.

Como eu não sabia para onde iríamos me vesti da forma mais comum possível. Camisa pólo, calça de tecido e sapato esporte daria para ficar na média em qualquer lugar.
Na hora combinada fiquei à espera da Ingrid em frente de casa me distraindo com o movimento intenso do Morumbi. Muitos carros e motos para lá e para cá, mas nada da Ingrid parecer, já começava a ficar preocupado com o atraso dela.
Nisso um ruído forte de motocicleta me chama atenção. Som alto e inconfundível de Harley-Davidson. Era das grandes, era negra. Passou rápida e barulhenta pela rua, pilotada por alguém inteiramente de couro negro com umas botas enormes. O som alto da Harley, a figura de negro me distraíram completamente da espera por Ingrid.

Subitamente a moto faz a volta, retorna e para ao meu lado. A figura de negro salta, se põe de pé com a roupa de couro brilhante coladíssima ao corpo, as botas até o joelho, tira o capacete, solta os cabelos ruivos. Era ela.
- Vamos lá? Sobe aí atrás.




(*) Colônia francesa a Tunísia se tornou independente da França em 23 de Março de 1956.
Três semanas antes Norma Jean Morteson trocara legalmente de nome tornando-se Marilyn Monroe. O que uma coisa tem a ver com a outra? Absolutamente nada. 

Cerveja

Tive um amigo alemão, Jochen Nevries, meu vizinho em Görlitz, Sachsen.
Ao contrário do estereótipo, furadíssimo por sinal, Nevries é um alemão alegre, simpático, muito aberto. Casado com Brigita, também muito educada, ela falava alemão tão suavemente que lhe perguntei por que ela preferia falar francês ao invés da própria língua.

Com eles conheci melhor os alemães, terminei de me desfazer de dois estereótipos.
O primeiro, fruto da Segunda Guerra, alimentado mundo afora, associa todos os alemães ao comportamento dos nazistas. Natural que a versão da história seja contada pelos vencedores. Vae Victis.
O segundo criado pelos próprios alemães que imigraram para o Brasil. A maior parte deles chegou aqui empobrecida, algumas levas deles vieram para substituir o trabalho escravo após a Abolição. Procurando se distinguir dos negros e depois, ao longo do tempo, de outros imigrantes eles criaram esta imagem de duros, secos, formais. Exageraram e criaram uma caricatura.

No enorme porão da casa do Jochen, sim eu já o chamava pelo primeiro nome, havia um bar. Construído exatamente como um pub alemão tradicional ele o batizou de “Kanzlei”. Na “Chancelaria” ele recebia os amigos todos os dias para uma happy-hour antes de irmos todos para casa. Cáustico ele brincava, 
- Só não incendeiem.
Lá aprendi a tomar cerveja. Em canecas de um litro Jochen levava alguns minutos para enchê-las. Em pé, de avental, atrás do balcão de onde nos servia ele injetava a cerveja sob pressão, esperava a espuma baixar e continuava injetando mais algumas vezes até completar. O ritual que levava exatos sete minutos criava uma situação interessante. Ao entregar uma caneca ele já perguntava se o amigo iria querer outra.

Jochen me ensinou que cerveja não é bom apenas para matar a sede, para alegrar o espírito, para reunir os amigos. Na banheira, além das torneiras de água, é sempre bom instalar uma torneira de pressão de cerveja. Desintoxica o corpo, faz bem à pele e ainda se pode tomar umas canecas durante o banho.

As Cavernas do Sahara

Habib Bourguiba proclamou a Tunísia independente da França em 1956. Fundou uma república secular muito liberal para os padrões de uma nação árabe de maioria islâmica. O país se modernizou, ocidentalizou-se. Bourguiba impôs liberdade religiosa, igualdade para as mulheres, incentivou o turismo, acelerou economia. Investiu em educação para tirar o país do atraso colonial.

Mustapha Grissi nasceu uns dez anos depois de Bourguiba chegar ao poder.
Nasceu e morava com a família nas cavernas de Matmata, escavadas abaixo do solo do deserto do Sahara. Matmata é uma rede subterrânea como túneis de cupins que se interligam num labirinto onde vivem famílias inteiras há séculos. A estrutura social das tribos é rígida, patriarcal.
Não se ensina as mulheres a falar, elas raramente saem dos túneis, não dirigem o olhar a nenhum homem, só ao pai. Depois de casadas passam a olhar apenas ao marido.

Grissi é um grande amigo meu.
Vivendo nos túneis de Matmata ele cursou o ensino básico até que representantes do Estado vieram lhe buscar. Excelente aluno ele foi separado da família para estudar na capital. Destacou-se desde os primeiros anos até chegar o momento do curso universitário. Pelo excelente desempenho o Estado mandou-o para a École Polytechnique, em Paris, que desde 1794 forma a elite francesa. De lá saíram alguns prêmio Nobel.
Grissi passou nas provas de admissão, cursou a escola, formou-se em Engenharia, foi laureado como melhor aluno. O menino árabe tirado das cavernas do Sahara foi o aluno mais brilhante em Paris.
Choveram ofertas de trabalho. Casado com Martine, uma francesa, Grissi respondia que só aceitaria trabalhar na Tunísia,
- Vou voltar para dar o retorno por tudo que meu país investiu em mim.
Grissi voltou para a Tunísia com sua Martine. Trabalhou em funções muito aquém de sua formação e capacidade até que uma indústria francesa instalou uma fábrica de eletrônicos em Túnis e lhe entregou a direção.

Grissi tentava tirar o restante da família dos túneis de Matmata, mas enfrentava forte resistência do pai. Só havia conseguido há alguns anos trazer o irmão Ámor para estudar e morar com ele em Túnis.
Certa noite estávamos Grissi, Ámor e eu na casa deles, próxima de Cartago, bebendo e conversando enquanto Martine nos preparava mais um de seus excelentes jantares. Grissi me conta,
- Tenho uma grande novidade. Consegui trazer minha irmã Bouchra para morar conosco.
Fiquei surpreso, alegre muito alegre. Era uma vitória para ele que o pai tivesse permitido a filha sair do ambiente patriarcal.
- Bouchra tem 15 anos e só agora está aprendendo a falar.
O choque cultural era enorme. Do deserto para uma cidade grande, das cavernas para uma casa de hábitos franceses. Grissi conta as dificuldades de adaptação de Bouchra. O máximo que ela tinha aceitado fôra frequentar uma escola de costura numa pequena turma de mulheres,
- Pelo menos assim ela vai aprendendo a falar francês.

Grissi tinha de leva-la e trazê-la todos os dias.
Bouchra só saia de casa com ele, agora o substituto do pai. Em casa ela não saía do quarto nem para se sentar à mesa nas refeições. Da casa não saía nunca a não ser para a escola.
Fiquei curioso de conhecê-la. Ela estava no quarto no andar de cima, mas certamente não iria descer, principalmente havendo outro homem na sala.
Martine chega da cozinha,
- J'ai une surprise pour vous.
- Para mim? Martine o que estás tramando? Ela ri um sorriso enorme,
- Une cassete de musique. Gravei uma fita só com música brasileira para esta noite.
- A gentileza de vocês não tem limites!

Fiquei imaginando que tipo de música Martine teria escolhido. Que tipo de música brasileira eu ia ouvir ali na Tunísia. Preparei-me para ouvir qualquer coisa e para gostar, por pior que fosse. Martine colocou o volume muito alto, a música encheu a sala. Levei um choque de alta voltagem. Som de tambores, a marcação inconfundível.
Longe de casa, num país árabe, há tantos anos sem ver minha querida Salvador, subitamente os tambores do Olodum estrondaram alto na sala. Engoli em seco, tomei um gole de vinho, segurei o soluço.
- Vous connaissez? Vous aimez?
- Se conheço, se gosto? Eu adoro! Martine, você não poderia ter escolhido melhor. És uma bruxa! Esse grupo o Olodum - deus dos deuses - é da cidade onde eu morava.
Martine, Grissi e Ámor riram espantados de tamanha coincidência.

Em seguida ao Olodum, vieram muitas músicas, todas da Bahia, sabe-se lá por que. De repente se ouve a voz de Gal Costa,
- São Salvador, Bahia de São Salvador...
Foi demais, eles notaram. Levantaram, me deram um abraço enorme. Um tunisino, uma francesa e um brasileiro unidos por Caymmi num abraço. A voz doce de Gal,
- São Salvador, Bahia de São Salvador, a terra do Nosso Senhor, pedaço de terra que é meu...
Traduzi, até eles choraram.

Vieram outras, todas de carnaval. Eles pedem para lhes ensinar a dançar. Daí a pouco estávamos todos pulando, dançando, cantando de mãos dadas, fazendo roda. Segurando na cintura uns dos outros, fazendo trenzinho. Um carnaval.
Subitamente Grissi para. Olha para o alto da escada. Todos paramos, seguimos seu olhar. Tivemos o mesmo choque. Lá estava Bouchra. Parada no alto da escada, meio escondida, observando.

Uma menina morena da cor árabe, alta, cabelos longos levemente ondulados, rosto muito bonito, olhos expressivos, um brilho de curiosidade no olhar.
Grissi desliga a música, sobe a escada, conversa, pede para ela descer. Ela nega, Grissi insiste, ela reluta. Ele toma sua mão, ele começa a descer. Ela acompanha. Bouchra começa a descer bem devagar.
Fico observando sem olha-la para não constrangê-la. Ámor e Martine também esperam parados, surpresos, no meio da sala.

Algo extraordinário estava acontecendo.
As músicas, nossa alegria, tinham tirado a menina do quarto. Enquanto Bouchra e Grissi descem a escada Martine recoloca a fita no princípio. Os tambores do Olodum voltam a tocar. Ela toma minhas mãos e as de Ámor, recomeçamos a dançar. Bouchra fica olhando. Grissi a traz pelas mãos, se junta a nós, começa a dançar.
De cabeça baixa, a menina começa a se mexer lentamente. Movimenta-se devagar, depois acelera os movimentos, tenta nos acompanhar.
Em pouco tempo a menina vinda das cavernas do deserto, que vivia trancada num quarto, sem olhar nos olhos de ninguém já estava dançando, mexendo os quadris. Sorria discretamente, depois ria alegremente, iluminada, feliz.

Bouchra descontraía. Bouchra nos acompanhava. Bouchra fazia trenzinho. Segurava nossa cintura, segurávamos na cintura dela. Ela ria, dançava.
Bouchra renascia, ressuscitava ao som do Olodum.

Taanit

Entre nossa casa em Tylers Green e a escola das crianças havia um bosque.
Há duas maneiras de se chegar à Tylers Green First School, ou pela rua e pelas calçadas ou atravessando um bosque.

Pela rua e de carro é muito rápido, não leva mais que dois minutos. Nem vale a pena tirar o carro da garagem. Pelas calçadas é muito seguro, agradável, as crianças da vizinhança são sempre vistas de mãos dadas fazendo o percurso. Atravessando as ruas pelas passadeiras.
Os motoristas estão sempre atentos afinal são os próprios filhos ou filhos de amigos e vizinhos.
É quase um passeio, de tão agradável, ir caminhando por essas calçadas, olhando as casas, vendo os jardins, observando aquele verde único, respirando o ar puro do campo inglês.
Apesar de estarmos a apenas 18 milhas do Hyde Park de Londres, o Buckinghamshire e as colinas Chilterns são puro countryside.

Ir para a escola pelas trilhas do bosque é mais é muito mais agradável. As árvores são altas e espaçadas deixando passar muita luz, mas ainda assim protegendo da chuva fina se houver. É pelo bosque, onde sempre há mais movimento, que todos preferem caminhar para ir à escola, ao pub, à loja de bebidas, ao mercadinho.
Tylers Green é muito especial.
Nesta parte do bairro só há calçadas de um lado da rua, para deixar mais espaço para os jardins abertos das casas que não têm cercas entre elas. Praticamente não há iluminação pública, exigência dos residentes, para deixar as noites mais bonitas. As placas de sinalização e trafego têm um tamanho mínimo para não interferir na paisagem.
Em alguns pontos da estrada, que vem de Londres passando por Beaconsfield serpenteando as Chilterns, à partir de Penn, há passagens não apenas para pedestres mas também para patos. Os patos se acostumaram e os motoristas ficam atentos. É comum ver o trânsito parado para a passagem de uma pata e seus patinhos cruzando o campo, atravessando a estrada.

Minha filhota Taanit, sempre muito doce e meiga, tem cinco anos. Todas as manhãs põe seu uniforme, pega a mochila, o lanche, o guarda-chuva colorido e vai para a escola. Ora pela calçada com os amiguinhos, ora sozinha, atravessando o bosque.
Às vezes a acompanho na ida, às vezes vou busca-la na volta.
Numa dessas vezes em que fui busca-la vínhamos caminhando pelo bosque. Desfrutando as árvores, as folhas no chão, os esquilos, os pássaros, os galhos balançando suavemente. Cumprimentando e brincando com outras crianças, com os pais, que também voltavam para casa.

Subitamente sinto que ela se distanciou, olho para trás. Ela está caminhando à uns seis metros de mim. Quando a olho ela abre um sorriso imenso. Então lhe pergunto,
- Que sorriso lindo, algo especial, o que houve? Você parece estar muito feliz.
Ela responde com um brilho no olhar,
- Eu sou feliz papai!

Baguettes, Pizzas, Fogazzas.

Adoro pão. Principalmente com manteiga ou azeite. Parece simplório, mas há centenas deles para experimentar. Mais de 250 na França, mais de 400 na Alemanha. O que mais gosto é justamente o mais comum, a baguette francesa.

Próximo da Côte D’Azur a poucos minutos de Cannes há uma pequena vila medieval, Mougins. Pronuncia-se mujã. A vila não tem mais que vinte mil habitantes. Jean Cocteau, o cineasta, Winston Churchill e Christian Dior eram assíduos. Picasso passou lá seus últimos 15 anos de vida. O Mediterrâneo à frente, os Alpes de um lado, a Provence do outro. Mougins é idílica, colorida, perfumada, cercada de campos de flores e florestas.

A vila tem muitas galerias de arte, restaurantes fantásticos, a melhor culinária provençal no Moulin de Mougins. Mas para mim Mougins tem algo a mais. O Hotel de Mougins na Avenue de Golf. O hotel é charmosíssimo, todo ele térreo, as suítes com varandas voltadas para os jardins interiores. O hotel guarda um segredo, uma delícia, um pecado. O melhor pão que já provei em toda a Europa.

Durante dias, no café da manhã, eu quase acabava com as baguettes do hotel.
Minha mulher não entendia como eu podia deixar de degustar uma mesa fartíssima de bolos, crepes, presuntos, salames, queijos, patês, tartes, quiches e mais uma montanha de iguarias francesas. Só tinha olhos, digo paladar, paras as baguettes. Sabia que tudo o mais poderia encontrar em outros lugares mas aquelas baguettes eram únicas. O garçom estranhava. Minha mulher se horrorizava.

Pior aconteceu muito tempo depois em outra viagem, em Gênova com umas fogazzas.
Estávamos de passagem vindo de Saint Moritz em direção a Nice. Ficamos em Gênova apenas um dia para jantar numa pizzaria famosa numa escarpa na Via Quarto ou Quinto, debruçada no Mediterrâneo. Também havia o Pesto, o original, o liguri. A região de Gênova Pra a Gênova Pegli tem a terra e as condições ideais para o manjericão atingir o perfeito equilíbrio de perfume e sabor.

Ainda não chegamos nas fogazzas, ainda estamos nas pizzas.
Estamos todos, mulher e crianças na pizzaria. Enquanto discutíamos o cardápio um senhor se aproximou curioso. Calado nos ouviu por um momento, sorriu e foi embora.
Logo o som ambiente que estava baixo ficou mais alto. Começou a tocar um samba, um enredo de escola de samba. Mais precisamente da Portela.

O tal senhor retorna sorridente e se apresenta como o dono da pizzaria.
Um italiano que tinha vivido o suficiente no Rio para ali mesmo na nossa frente, na frente das crianças, sem a menor cerimônia se emocionar. Sem nenhum recato se confessou Portelense fanático. Sem nenhum constrangimento, ao saber que sou carioca, sentou-se à nossa mesa. Ao saber que também torço pela azul e branco me levantou da cadeira. Sem o menor pudor me abraçou, pediu para jantar conosco.

O homem estragou nosso jantar. Destruiu nossa noite.
Pedia pizzas e mais pizzas, calzones, cornicciones, cobellettis, especialidades, azeites raros da Ligúria. Dava gritos e mais gritos para o pizzaiolo que estava comandando o forno aberto. O que era para ter sido uma noite tipicamente italiana, à beira do Mediterrâneo, comendo pizzas e pastas al pesto se transformou num desfile de sambas da Portela.
Mas afinal talvez tenha sido uma noite tipicamente italiana. Emotivamente italiana.

Mas vamos às fogazzas.
Na manhã seguinte fomos bem cedo tomar café da manhã no restaurante do hotel. Tínhamos pressa para pegar a estrada para Nice. É perto, uns duzentos quilômetros, mas queríamos parar um pouco em Mônaco antes de chegarmos na hora do almoço num daqueles restaurantes populares, de pescadores, lá em Nice.
Fomos nos servir. Vi uma bandeja com massa assada de fogazza. Experimentei em pé mesmo. Uma perdição. Repeti tantas vezes que a fogazza acabou.

O Chef, visitando o salão, ao notar a bandeja vazia fez uma cara estranha. Como só havíamos nós acho que ele duvidou que tivesse servido a fogazza. Trouxe mais. Elas acabaram novamente. O pobre homem estava desorientado. As fogazzas desapareciam misteriosamente.
Acabei sendo pego em flagrante. Ele riu satisfeito.

Iansã e o papa João Paulo II.

A Bahia é terra de muitos santos, divindades, de muitos mistérios.
Assim como a maioria das pessoas sabe seu signo de horóscopo todo baiano sabe qual é seu santo no Candomblé. Pode não seguir todos os preceitos mas sabe qual é seu santo, qual o dono de sua cabeça.

Na visita ao Brasil o papa João Paulo II esteve em Salvador.
Na terça-feira 7 de Julho de 1980 ele rezou uma missa campal para meio milhão de pessoas. Mas não tomou os devidos cuidados. Foi temerário. O papa não se apresentou, não pediu licença aos santos da terra.
A cidade se preparou para a grande cerimônia. Palanques foram armados numa grande área ao ar livre no Centro Administrativo. Se preparou a logística, a segurança, os sistemas de eletricidade e sonorização. Mas esqueceu-se do principal. Um estranho não chega, não entra numa casa sem pedir licença. O papa esqueceu que estava na Bahia. Cometeu um insanidade. Foi castigado.

Centenas de ônibus com gente vida de todo o Estado e estados vizinhos tinham chegado. Milhares esperavam pelo sumo-pontífice, por sua missa, por sua benção. Uma loucura estava para ser cometida. Aproxima-se o momento da missa. O helicóptero do papa estava pronto para decolar da Base Aérea de Salvador em direção ao local.
Iansã, Rainha do Raios e dos Trovões, sempre muito emotiva, estava furiosa com o desacato.

Inesperadamente ouvem-se trovões, o povo se assusta. O céu escurece. Raios cortam os céus. Desaba um temporal. A tempestade se espalha. Relâmpagos iluminam o rosto apavorado das pessoas.
O papa ainda está na base Aérea. Ele entra no helicóptero. O helicóptero tem dificuldades para decolar. Na área da missa a fúria da tempestade castiga milhares de pessoas. Instalações elétricas entram em curto circuito. A Rainha dos Raios mostra sua fúria. As pessoas temem por suas vidas. Pânico na multidão.
Iansã é mãe bondosa, mas não perdoa insultos, não tolera afrontas. A multidão assustada entende sua ira. Palanques desabam, as pessoas correm, gritam, rezam. Olham para os céus. Pedem perdão.

Iansã se acalma, a chuva diminui, já não se ouvem seus trovões, já não se vêm seus raios e relâmpagos. O helicóptero do papa finalmente consegue pousar com muita dificuldade. Iansã se compadece, cessa a tempestade, o céu se abre. Permite a cerimônia, mas deixa o aviso. 
Irmã Dulce, hoje beatificada, estava no local. Adoeceu, contraiu uma pneumonia. O cirurgião Taciano Campos, diretor do Hospital Santo Antônio acompanhou a internação que durou vinte dias.
O recado estava dado. Na terra de todos os santos com eles não se brinca.

Interlaken

No começo da primavera estávamos passeando, meio que em lua-de-mel, pelos Alpes. Havíamos saído de Axams na Áustria, uma vila linda sede de alguns jogos olímpicos de inverno, que fica logo acima de Innsbruck. Estávamos indo em direção a Lausanne na Suíça.

Aproveitando o tempo excelente baixei a capota do Jaguar.
Passear com o rosto ao vento por aquelas estradas na primavera alpina é uma experiência difícil de repetir em outro lugar. Mais difícil ainda de descrever. Tudo lhe envolve.
O perfume dos bosques, o verde das encostas, a majestade das montanhas, os picos altos ainda com neve, o azul limpo e magnífico, o ar puríssimo, as estradinhas cheias de curvas.
A paisagem é indecentemente linda. Depois de cada curva há sempre uma nova surpresa.

A certa altura da estrada, distante de Innsbruck e já mais próximo de Lausanne se vê Interlaken de cima. Interlaken – "entre lagos" – fica entre os lagos Thuner See e Brienzer See. Bem no centro da Suíça no Cantão de Bernese Oberland. A vila está no meio de um vale, cercada de montanhas e pelos picos Eiger, Mönch e Jungfrau. Difícil encontrar maior beleza numa região que já é idílica. Chegando num ponto ideal de observar encostei o carro em um recuo florido da estrada para desfrutar da paisagem.

Não podia estar mais deslumbrante.
Parado no meio daquele pequeno jardim colorido se via de muito alto a vila pequena no meio dos dois lagos. Nas margens dos lagos varias pequenas vilas ou pequenos conjuntos de chalés com chaminés. Nas encostas das montanhas mais chalés compunham a paisagem, de alguns deles subia fumaça das chaminés das cozinhas.
Aqui e ali a fumaça subia uniforme em formas onduladas. Acabavam se dissipando bem abaixo dos picos brancos das montanhas. Sendo primavera, nas montanhas ainda  havia neve descendo dos picos se espalhando muito brancas sobre o verde das encostas.

Nos dois lagos há barcos de vários tamanhos. Barcos à vela cruzando lentamente em várias direções, alguns com velas coloridas. Lanchas rápidas deixando rastros prateados na água. Havia um pequeno navio de turismo, pintado de branco, as chaminés pintadas de vermelho com a cruz branca suíça. Das chaminés do navio uma fumaça branca subia ainda mais alto e mais grossa que a dos chalés.

Montanhas verdes, muito altas, repletas de pinheiros. Mais ao alto picos brancos de neve. Uma exuberante combinação de cores e texturas. Superfícies sólidas, superfícies liquidas, superfícies em movimento. Há horizontes azuis, verdes e brancos se superpondo, uns mais definidos, outros mais opacos, há cores, há detalhes.  A paisagem hipnotiza, entontece. O olhar descansa, a alma sorri, o coração se enternece.
Enquanto estou me deixando inebriar na paisagem ouço a voz de minha mulher:
- Você não está excitado com esta paisagem está?
Estava. Estava mesmo, e nem havia notado.

Tempos depois contei esta estória a um psicanalista amigo meu. Ele riu muito e placidamente me explicou:
- As experiências estéticas e eróticas são ambas da mesma ordem.
Ufa! Que alívio.

Efeitos Especiais em Sampa

Que tudo em São Paulo é grande e às vezes exagerado já se sabe. Maior cidade japonesa depois de Tókio, mais descendentes de italianos do que Roma, maior cidade industrial alemã, maior cidade nordestina do Brasil, maior frota mundial de helicópteros, maior frota de jatos executivos e por aí vai.
Sampa também é a cidade com maior incidência de raios do planeta.

Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2013. Assisti a um impressionante espetáculo de efeitos especiais.
Relâmpagos belíssimos, trovões impressionantes, raios e mais raios cruzando o céu de fim de tarde. Um espetáculo de rara beleza noite a dentro. Relâmpagos e trovões explodiam tão baixo, tão perto, que luz e som aconteciam ao mesmo tempo. Normalmente trovões explodem um de cada vez ou se sucedem aos poucos. No período mais intenso do espetáculo os trovões explodiam em ritmo de metralhadora, vários por segundo. Seguiam-se fachos imensos de luzes magníficas.

Enquanto durou postei no Facebook, comentei no Skype. Amigos de Salvador e Barcelona levaram na brincadeira. Raios incessantes riscando o céu, muitos ao mesmo tempo em todas as direções. Pequenos, grandes, cruzando o céu na vertical, na horizontal, de uma nuvem para outra. Trovões explodindo, ecoando em milhares de prédios. Relâmpagos acendendo a cidade com uma luz azulada. Luzes elétricas das casas piscando. Seguiu-se uma chuva fortíssima de gotas imensas, o vento forte formando um spray cinzento de água em varias direções, o granizo forrando tudo de branco.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registrou o recorde: 2.264 raios. Um pouco mais do que isso de relâmpagos e trovões. Sessenta e cinco por cento ocorreram no período mais intenso de três horas, raios, trovões e relâmpagos se sucederam a uma média de um a cada dois segundos, durante horas. Um espetáculo de beleza apocalíptica. Inesquecível.
Na platéia extasiada uma pessoa, eletrizada de emoção, subiu aos céus.

Projeto Novo Recife

Eu comentava com o Léo Falcão o absurdo do Projeto Novo Recife que pretende fazer uma intervenção urbana no Cais José Estelita.
O projeto prevê a construção de cerca de 12 torres habitacionais, de quase 40 andares cada, numa área enorme de mais de 100 mil metros quadrados à beira do rio Capibaribe.
O PNR é por qualquer ótica irracional, ideologias à parte.

Fazendo um raciocínio absolutamente amoral, sem ética alguma, apenas econômico: todo dinheiro gerado, seja da droga, da corrupção, de qualquer crime movimenta a Economia, cria riqueza, emprego e renda, pois idealmente continua circulando dentro de um sistema fechado.
Há variações mínimas do dinheiro do crime aplicado no mercado interno devido a remessas para o exterior. Elas são muito menores que as remetidas pelas transnacionais e mesmo a parcela que é remetida ilegalmente para o exterior acaba retornando devidamente washed.
Em termos estritamente econômicos o crime não apenas compensa como também é saudável para a economia por sua agilidade e informalidade financeira. O livre mercado se exerce magnificamente no crime organizado, mas isso já é outra história.

No caso do PNR analisando o único argumento razoável que justificaria o empreendimento - por gerar riqueza, emprego e renda - ele se sustenta apenas no modelo acima.
Mas mesmo e ainda assim o PNR não se justifica.
Os custos ambientais no longo prazo, os custos distribuídos de aumento de consumo de combustível per capita, as horas produtivas dispendidas em engarrafamentos, o aumento do consumo de eletricidade na cidade para manter a refrigeração necessária pelo aumento da temperatura criada pela barreira de concreto, todos estes custos ultrapassam em muito a riqueza, a renda e o emprego gerados pelo empreendimento.
Não deve ser difícil fazer esta conta.

Detalhe: esta conta será rateada democraticamente pelos contribuintes.
Pior: a situação leva, a longo prazo, a um aumento das despesas do município sem uma receita comparável o que significará uma piora nos serviços prestados a todos os contribuintes.
Resumo: é ele o contribuinte quem vai pagar a conta no longo prazo. Tanto financeiramente quanto em qualidade de vida.
Novamente: a riqueza gerada no curto prazo pelo empreendimento não justifica os prejuízos no médio e longo prazo. Nem mesmo para os empreendedores que se tornarão passíveis de processos legais.

OK, o terreno tem dono. Foi comprado legalmente. O dono faz o que quiser.
Será?
Nem tudo que é legal é legítimo. O leilão levou em consideração o futuro uso de um bem destas proporções?
O dono faz o que quiser com o que é seu.
Você faz o que quer com o controle remoto de sua televisão?

Às vezes as soluções mais simples e óbvias estão tão perto do nariz que não as vemos.
O Tube por exemplo. O Underground, o metrô de Londres.
Ele tem mais de um século, quando começou era movido por trens à vapor queimando lenha!
A grande importância histórica do tube é que ele foi usado como elemento fundamental na expansão de Londres. Quando se detectava uma necessidade habitacional as linhas do tube eram estendidas numa determinada direção.
Isso é hoje divulgado com orgulho pela London Underground que se sente parte do planejamento sustentado de Londres. Há mais de cem anos.
Os estate developers e building contractors naturalmente participavam do planejamento e novos bairros eram planejados, construídos e ocupados.
Todo mundo ganhava dinheiro, muito dinheiro, sem criar um caos urbano.

Recife tem uma saída óbvia e fácil que é a rodovia 232.
Ela poderia ser ocupada nas duas margens por condomínios horizontais com ótima qualidade de vida, e servidos por um trem metropolitano rápido de superfície. As construtoras ganhariam muito mais do que com apenas uma dezena de prédios. Há soluções capitalistas, sustentáveis e racionais.

Recife está perigosamente atingindo um ponto de não retorno urbanístico que não pode nem deve ser tolerado por quem ama (*) a cidade e por quem quer continuar gerando riqueza nela.
Dentro do livre mercado, mas com um mínimo de racionalidade e visão de longo prazo.
Hello Adam, cadê a mão invisível para dar umas palmadas nestes aprendizes?

(*) ou gosta, ou curte, ou convive, ou suporta, ou tem tesão, sei lá, relacionamentos são complicados.