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Antonico, Passárgada e Getúlio

Há pistas interessantes da alma brasileira em diferentes partes da sociedade, mas curiosamente idênticas na ideologia. Vindas de Antonico de Ismael Silva, de Passárgada de Manuel Bandeira e de uma frase de Getúlio Vargas.
No samba Antonico um amigo fala ao outro:

Ô Antonico vou lhe pedir um favor
(note a intimidade do diminutivo)
Que só depende da sua boa vontade
(não há competências, a boa vontade é o fator decisivo)
É necessário uma viração para o Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
(não se fala de trabalho, mas de uma "viração")
Ele é aquele que na escola de samba toca pandeiro, toca surdo e tamborim
(este é o curriculum do Nestor)
Faça por ele como se fosse por mim
(sono tutti buona gente, mafiosamente)

O amigo pede a Antonico, baseado apenas na sua boa vontade, que se utilize de sua influencia para resolver o problema financeiro do Nestor que tem apenas o mérito participar das mesmas diversões, de freqüentar o mesmo grupo.
E se pede para ele uma viração, uma benesse, não um trabalho para que ele possa resolver seus problemas.
Uma viração não um trabalho, talvez por que trabalhar ainda carregue pelo menos no imaginário popular, a vergonha da escravidão. Dinheiro se deve conseguir da forma mais fácil, através de uma benesse, de amigos no poder, de uma viração.

Em Passárgada, Bandeira sonha com o melhor dos mundos pois "lá sou amigo do rei, lá terei a mulher que quero na cama que escolherei", aqui a ideologia se revela por trás do sonho.
Além das benesses materiais trazidas pela proximidade do poder, a la Getúlio, lá ele terá a suprema felicidade. Além e acima do amor, em Passárgada ele terá o privilégio de escolher quem, quando e onde.

Mas a pérola definitiva vem de Getúlio:
- Para os amigos tudo, para os inimigos o pesado braço da lei.
A Lei aqui não esta a serviço da Justiça, mas para punir inimigos. Já os amigos merecem tudo e estão acima dela. Uma sociedade talhada para os amigos, sem Justiça e portanto sem crimes.

Um país feito de impunidades, benesses e privilégios onde tudo se arranja desde que haja boa vontade. Boa vontade reservada aos amigos do rei, seja lá qual for o rei em vigor.
Mais interessante é que esta ideologia está presente tanto no povo quanto na elite.
Por isso não é de estranhar que o sentido do Direito Natural tenha aflorado e sido tomado nas próprias mãos pelos deserdados da sociedade. Literalmente à margem do sistema, estes "marginais" utilizam o paradoxo da Justiça fora da Lei para fazer sua própria justiça.

Através de seus crimes estes marginais acabam devolvendo à sociedade sua própria desagregação.
Para desatar esse nó seria preciso esquecer dos antonicos, dos reis e dos sonhos de passárgadas, nesta nação que desde a Descoberta foi tragicamente colonizada, repartida e concedida aos amigos do rei de Portugal.
Estruturando esta relação entre Ismael, Bandeira, Vargas e D. Manuel se percebe uma marca atroz.
A marca da Terrae Brasilis.

Shakespeare: Igualdade Racial, Clemência e Piedade

O Bardo é definitivo na delicadeza dos versos, na sofisticação do raciocínio, na precisão da palavra. No discurso de Antônio ao lado do cadáver de César, no de Lady Macbeth antes do assassinato de Duncan, na descrição da sexualidade de Cleópatra. No poema em que canta o sorriso da mulher amada. No incendiário discurso de Henry V antes da batalha de Agincourt.
E em “O Mercador de Veneza” quando Shylock, se referindo a Antonio, fala de igualdade racial:

 Ele me humilhou. E tudo, por quê? Por eu ser judeu.
Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos?
Se nos espetardes, não sangramos?
Se nos fizerdes cócegas, não rimos?
Se nos derdes veneno, não morremos?
E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?
Se em tudo isso somos iguais a vós, então somos iguais em tudo o mais.

Esta fala foi usada por Lázaro Ramos, num contexto bem diferente de Veneza, no filme Ó Paí Ó, em pleno Pelourinho em Salvador, quando "Você é negro, negro, negro!" foi usado de forma ofensiva pelo personagem de Wagner Moura.
 Sim eu sou negro sim, mas por acaso negro não tem olhos? Negro não tem mão, não tem pau, não tem sentido? Não come da mesma comida, não sofre das mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente sua não sua o corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra igual? Quando você fazem graça a gente não ri? Quando vocês dão tiro na gente, a gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo também nisso vamos ser.

A vingança de Shylock está próxima de se realizar quando Antonio fica sem condições de lhe pagar uma dívida de três mil ducados. Antonio tinha dado uma libra da carne do próprio corpo como garantia contratual.
Shylock vai ao tribunal de Veneza exigir a execução do contrato que lhe dá direito a retirar, à sua escolha, uma libra da carne de qualquer parte do corpo de Antônio.
O fim de Antonio se aproxima já que não seria possível lhe retirar uma libra de carne, de onde Shylock escolhesse, e ele escolheu o coração, sem mata-lo. 

Frente a frente com Antonio no tribunal, Shylock com o contrato numa mão e uma faca na outra exige a execução da dívida.
Apesar dos amigos de Antônio se oferecerem para pagar em dobro ou mesmo triplicar o pagamento, Shylock continua irredutível. Exige a libra de carne do inimigo e brada:
 Eu exijo a Lei, eu exijo o cumprimento da Lei!
Todos lhe pedem clemência, os juízes, os advogados, os amigos, até o povo que assiste ao julgamento. Todos clamam por piedade. Mas Shylock insiste no cumprimento do contrato, ele exige a Lei.
Neste momento de alta tensão o Bardo coloca um jovem advogado no tribunal que começa a falar sobre Lei, Perdão e Compaixão. Ele termina o discurso com essas palavras definitivas:
– Quando oras ao teu Deus tu Lhe pedes Justiça ou Clemência?

A Lei organiza os homens em sociedade mas é a Compaixão quem os une e humaniza.

Árvores de Cristal

Inverno.
Algo deslumbrante acontece com as árvores em algumas condições: inverno muito frio, neve, céu azul e dias de sol.
As árvores estão completamente desfolhadas, à tarde ou à noite a neve cai se depositando em cada galho. Ao amanhecer, o calor do sol começa a derreter a neve lentamente, mas como o frio é intenso a neve não chega a se transformar em água, mas em gelo que adere a todos os galhos.
Totalmente envolvidas em gelo as árvores assumem uma visão de esculturas de cristal. O sol ilumina os galhos gerando reflexos brilhantes e coloridos.
As ruas ficam decoradas com imensas esculturas de cristal debaixo do céu azul brilhante, flutuando no chão branco e macio.
Você acorda, vai até a janela e se vê cercado de árvores de cristal, brilhantes, cheias de luz, distribuindo raios coloridos.

A Fonte da Donzela

A Fonte da Donzela do Bergman é daquelas obras primas que quando termina te deixa quieto, pensativo, sedado pela beleza das imagens, pela direção cirúrgica, pela reflexão que te instiga.

O filme é baseado numa lenda medieval de fé, inveja, felicidade, pureza, crueldade, vingança, redenção e arrependimento. Difícil imaginar conteúdo mais humano, mais arrebatador. A Fonte da Donzela é uma tragédia, uma tragédia de uma brutalidade contida e finalmente explícita de deixar o Tarantino sem folego. Bergman consegue imprimir um desespero latente, conter tua respiração, te fazer ansiar pelo fim. O mestre das pausas e dos silêncios chega a torturar nos momentos de tensão.

Além de tudo há a fotografia do Sven Nykvist com mesma importância dos diálogos, das interpretações, da direção. O uso que ele faz de luz e sombras é magistral. Cinema no mais puro e estrito senso. Sem exagero, é uma aula magna de fotografia.
Há pelo menos dois momentos magistrais da interpretação do Max von Sydow. O primeiro quando ele prepara sua vingança. O segundo quando ele fala com Deus sobre justiça, crueldade, vingança e arrependimento. Neste segundo momento Bergman explora ao extremo a ansiedade do espectador deixando Von Sidow quase de costas para a câmera. Aqui a experiência do Ingmar em teatro faz uma enorme diferença.

Na verdade na história há duas tragédias, aparentemente opostas, seguindo rumos paralelos que no final se interligam, se mostrando muito semelhantes em sua essência.
Vale muito, mas muito mesmo, a pena revê-lo. Seja pela direção, pela fotografia, pelas interpretações ou pela simplicidade e grandeza da história.
É um dos dez filmes que eu levaria para uma ilha deserta. Se desse para assistir filmes em ilhas desertas.

Shakespeare. Soneto no.17

O Soneto no.17 de Shakespeare é uma das mais belas composições de amor já escritas.
Para degusta-lo melhor me exercitei sobre eles. Aí está o texto no inglês original, em inglês moderno, numa tradução mais literal e em outra mais livre, para serem lidas, comparadas, relidas, retocadas. Like a gourmet.

Tradução Livre.
Posso te comparar a um dia de verão?
És mais bela e mais suave
O vento espalha as flores pelo chão
E o Verão passa depressa
Às vezes o sol brilha demais
Outras vezes escurece e esfria
O que é belo não dura para sempre
Na eterna mudança da natureza
Mas em ti o verão será eterno
A beleza que tens não a perderás
Nem mesmo a morte te esconderá
Viverás nestas linhas eternas
Por que enquanto houver vida nesta terra
Meus versos viverão e te farão viver
  
Tradução.
Poderia te comparar a um dia de Verão?
És mais linda e mais serena
Os ventos ásperos espalham os botões floridos de Maio
E o Verão dura por pouco tempo
Às vezes o sol brilha quente demais
Às vezes as nuvens escurecem seu rosto dourado
E tudo que é belo perde sua beleza
Ou por acidente ou pelo passar do tempo
Mas o teu eterno verão nunca vai passar
Nem vais perder a beleza que é tão tua
Nem mesmo a morte irá te encobrir em suas sombras
Por que estarás viva em meus versos eternos
Tanto tempo quanto os homens possam respirar e os olhos possam ver
Tanto tempo viverão meus versos e neles permanecerás viva

Inglês moderno. 
Shall I compare you to a summer day?
You’re lovelier and milder.
Rough winds shake the pretty buds of May,
And summer doesn’t last nearly long enough.
Sometimes the sun shines too hot,
And often its golden face is darkened by clouds.
And everything beautiful stops being beautiful,
Either by accident or simply in the course of nature.
But your eternal summer will never fade,
Nor will you lose possession of your beauty,
Nor shall death brag that you are wandering in the underworld,
Once you’re captured in my eternal verses.
As long as men are alive and have eyes with which to see,
This poem will live and keep you alive.

Original.
Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date.
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature’s changing course untrimmed.
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wand’rest in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st.
So long as men can breathe or eyes can see,  
So long lives this, and this gives life to thee.

O General Dançou

‎O bailarino americano David Hallberg ocupa desde 2011 o papel principal e a direção do corpo de baile do tradicionalíssimo teatro russo Bolshoi. Alguém ousaria pensar nisso há alguns anos atrás?

David entrou para o Bolshoi exatamente quando se completaram 50 anos da gravíssima crise do Checkpoint Charlie em Berlin. Em 27 de outubro de 1961 tanques soviéticos e americanos apontaram seus canhões uns para os outros. O Muro de Berlim havia sido construído semanas antes dividindo a cidade em um lado oriental e um lado ocidental. A crise começou quando forças do bloco soviético impediram a entrada no setor oriental de um oficial americano. Ele queria entrar para ir ao teatro.

O general Lucius Clay assessor pessoal de Kennedy ordenou que os tanques americanos se posicionassem na fronteira e apontassem os canhões. O bloco soviético reagiu e posicionou os seus. Trinta tanques em Berlin ficaram frente à frente no meio da cidade. Soldados dos dois lados da fronteira apontaram suas metralhadoras. União Soviética e Estados Unidos ficaram com armas apontadas diretamente um para o outro, com o dedo no gatilho.

Krushov o premier soviético e o presidente Kennedy usaram pela primeira vez o telefone vermelho direto entre o Kremlin e a Casa Branca. Num balé orquestrado pelos dois os tanques foram recuando. Recuaram dez metros. A crise se dissolveu. 
Alguns anos depois, exatamente no aniversário da crise, os russos convidam um americano para entrar e assumir o primeiro lugar no Bolshoi. A Arte é e será sempre a redenção humana definitiva.

O Fado, brasileiro.

O Fado assim como o Samba têem uma história interessante. O Samba que é tão brasileiro nasceu do Chorinho que teve origens em Portugal. E por uma curiosidade histórica, o Fado nasceu no Brasil. Como? Já estás aos copos pá?
O chorinho nasceu do Lundu uma música portuguesa que ao chegar ao Brasil virou Chorinho que ao se misturar com o Samba Duro dos negros da Bahia virou samba. Depois pela mão de um grupo de bahianos que se mudou para o Rio nasceu o samba carioca que é o que hoje conhecemos por Samba. Ok, mas e o Fado?

Quando D. João VI e a corte vieram para o Brasil em 1808 trouxeram suas características culturais e naturalmente sua música. Aqui esta música se misturou à música local e nasceu uma outra com a característica do lamento e da tristeza de quem estava fora da terra natal. Uma musica carregada de saudade e de reflexão sobre o Destino, daí o nome. Fado é destino. 
Quando finalmente a corte voltou para Portugal levou esta música. Chegando em Portugal o Fado se misturou ao que estava sendo feito no país em termos de renovação musical com influências árabes e francesas e então se consolidou como o Fado tal como o conhecemos hoje.

Historicamente o Samba tem origens em Portugal e o Fado no Brasil. Mais um dos aspectos em que os dois países estão tão intimamente ligados. Falar de Fado sem falar em Amália não dá. “Ó Gente Da Minha Terra” um dos mais lindos que ela compôs, tem uma poesia cristalina com um conhecimento psicológico surpreendente. Note este trecho:
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Amália diz que a tristeza pareceria ternura se nela se deixasse embalar. Realmente você pode deixar que uma tristeza te embale ao se entregar a ela. Neste caso, este embalar da tristeza cria um sentimento confortável de ternura. E esta ternura, este conforto, tornaria menos triste o teu falar, o teu cantar. 
Aqui que ela mostra a armadilha. Se você deixa a tristeza te embalar há uma sensação de ternura, há uma substituição. A tristeza diminui mas a amargura aumenta. Amália mostra a inter-relação destes sentimentos e a diferença sutil que só um poeta ou um psicólogo percebem .
Amália vai fundo nesta análise e mostra que a escolha correta é não se embalar pela tristeza. Ela mostra que é melhor deixar o canto ficar triste, como no Fado, e impedir que a amargura se instale na alma.

O Sol Nas Bancas De Revista

A imprensa alternativa no Brasil nasceu no Caderno Escolar do Jornal dos Sports da família do Nelson Rodrigues.
Deste caderno escolar surgiu, muito antes do Pasquim um jornal chamado O SOL. O jornal idealizado pelo poeta Reynaldo Jardim teve como editora-chefe a jornalista Ana Arruda Callado. Nasceu em 1967 antes do AI-5.

Adolescente, dezesseis anos, eu tinha uma prima que além de manequim e muito bonita estudava jornalismo na PUC. Metade das meninas bonitas do Rio estudavam jornalismo na PUC, sendo que a outra metade estava se preparando para entrar. As más línguas chamavam a escola de espera-marido.
Dezembro de 1966, um dia a prima aparece lá em casa.
- Vais fazer o que nessas férias?
- O de sempre, praia, cinema, praia, teatro, praia, festinhas e praia.
- Quer trabalhar num jornal e ganhar um dinheirinho?
- Claro!

Era para ser repórter “foca” do Jornal dos Sports no caderno escolar. Era ótimo trabalhar com aquele pessoal mais velho, brilhante, importante, como se dizia época engajado. Como era tempo dos vestibulares me deram estas tarefas mais fáceis de cobrir. Eu nem imaginava o que me esperava, o que estava por acontecer.
Eis que um dia surge uma grande novidade na redação. Estava sendo criado um novo novo jornal.
Nascia O SOL.
O SOL foi ideia do Reynaldo que trabalhava no Jornal dos Sports. Dona Célia Rodrigues, viúva do irmão do Nelson, topou a ideia de criar uma espécie de jornal-escola para formar uma nova geração de jornalistas e comunicadores.
N'O SOL havia gente como Ziraldo, Zuenir Ventura, Arnaldo Jabor, Henfil, Antonio Calado, Carlos Heitor Cony, Fernando Duarte, Adolfo Martins, Ricardo Gontijo, Otto Maria Carpeaux, Martha Alencar e Sérgio Lemos. Nelson Rodrigues desenvolveu suas primeiras histórias infantis nas páginas do diário. Chico Buarque chegou a publicar um cartum.

E eu ali assistindo tudo. Babando.
O SOL era revolucionário em vários aspectos tanto gráficos quanto editoriais. Ele criou a corrente de onde surgiriam mais tarde O Pasquim, Opinião e Movimento. Era um lugar de pessoas engraçadas, malvadas, inteligentes e com um ego muito grande, diz a Martha Alencar hoje produtora de cinema.
A diagramação do jornal era linda, inovadora. Para poder ser lido e dobrado no ônibus, cada matéria ocupava apenas um quarto da página. As diagramadoras, entre elas minha prima, eram conhecidas como as "meninas do Reynaldo" e literalmente mandavam na redação.
Depois que cada editoria fazia sua pauta com os assuntos do dia as meninas desenhavam as folhas do jornal. Antes de escrever os redatores já sabiam o espaço que teriam para cada reportagem, o tamanho possível para o título, tudo de acordo com o espaço que as "meninas" determinavam.

CHE GUEVARA PODE ESTAR VIVO.
Enquanto todos os jornais noticiavam a morte de Guevara esta foi a manchete d'O SOL. Ela mostra bem o espírito do primeiro jornal alternativo no Brasil pós-golpe militar de 64.
Na equipe todos se interessavam por tudo um pouco, inclusive em divulga-lo e vende-lo nas ruas e nos points frequentados pela intelligentzia (pela burritzia também) e pela boêmia carioca.
Numa desta vezes eu estava divulgando-o à noite na porta do Cinema Paissandú, a meca do cinema de arte no Rio, onde acontecia de tudo.
Fui então clicado por um repórter fotográfico: fazendo pose, com um sorriso enorme, mostrando o jornal todo aberto. A foto acabou sendo usada pela revista Fatos&Fotos. Em pagina inteira, a foto ilustrava uma reportagem sobre a Esquerda Festiva, como era chamada a ala da esquerda que fazia seriamente a Revolução a partir de bares e festas.

Esta foto me rendeu uma tremenda descompostura no PCdoB onde eu militava.
Tive que fazer uma séria autocrítica reconhecendo meu comportamento pequeno-burguês e anti-revolucionário, etc, etc.
O SOL chegou a ter uma tiragem de 70 mil exemplares mas apesar do sucesso, sem muitos anunciantes o jornal não durou muito. Depois de encerrado o sol do Reynaldo, nossa equipe assumiu a programação da TV Continental. Com dezessete anos fui locutor no jornal da noite. Infelizmente O SOL não teve fôlego para participar do íconográfico ano de 68. Fico a imaginar tudo o que ele poderia ter feito num ano como aquele.

Como diz o Zuenir “O SOL experimentou expressões do cotidiano. Um pouco, guardada as devidas proporções, o que a Semana de 1922 fez com a linguagem poética, de mostrar um universo vocabular mais popular, a fala do dia-a-dia".
E do ponto de vista do conteúdo "era um jornal mais libertário e sem comprometimentos políticos, ideológicos. Era, evidentemente, contra a censura, contra a ditadura, sobretudo, mas não pertencia a nenhum partido. Era um jornal muito livre. O compromisso era o de resistir à ditadura. Neste sentido O SOL foi precursor".

Caetano Veloso estava recém chegado ao Rio tomando conta da irmã Maria Bethânia que aos dezoito anos substituíra a Nara Leão no show Opinião. Ele namorava a Dedé Gadelha da equipe d' O SOL e frequentava a redação. Na época ele compôs Alegria Alegria:
O Sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta noticia?
Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores, eu vou.

Jazz

Estava agora fazendo o que mais gosto de fazer na vida. Não, não é sexo.
Sexo vem em terceiro lugar depois de surfar uma onda perfeita e ouvir um grande solo de jazz.
Era o que eu estava fazendo. Ouvindo um solo de jazz, inspirado, divino. Divino por ser perfeito, por ser absoluto, por ser fruto da prerrogativa divina de Criar.

Ao mesmo tempo em que fico extasiado lamento não ter semelhante talento. E por ter apenas a capacidade de apreciar, mas não a de criar me vem à cabeça quatro frases que definem minha alegria e minha frustração.
Uma de Castro Alves em Navio Negreiro, uma de Salieri em Amadeus, outra de Judas em Jesus Cristo Super Star e mais um conceito de Lutero. As quatro se superpõe e exprimem exatamente o que sinto,
- Ó Senhor Deus dos desgraçados, por que não me deste este talento? Se sabias por quer o permitistes?
Esta será a primeira pergunta que eu farei a Ele.

Tragédia na Cultura Brasileira

A tragédia de ontem, segunda-feira 13.08.12, no apartamento de Jean Boghici chama a atenção para o descaso com a Arte no Brasil. O incêndio na cobertura do colecionador pode ter destruido obras de Di Cavalcanti, Alberto Burri, Milton Dacosta, Cícero Dias, Carlos Vergara, Guignard, Antonio Dias, Vicente do Rêgo Monteiro, Tarsila do Amaral e Victor Brecheret, além de mobiliários de Joaquim Tenrreiro e Sergio Rodrigues. Dos estrangeiros há Lucio Fontana, Modigliani, móbiles de Calder e obras de Rodin. O prejuízo para a arte brasileira é incalculável.

Jean, um dos maiores marchands do Brasil, movimenta a arte brasileira há muitas décadas. O acervo, um dos maiores do país, vinha sendo construído há mais de 60 anos. Leonel Kaz diz que a arte brasileira poderá sofrer um golpe tão grande ou maior do que o incêndio do MAM nos anos 70.
Coleções particulares são propriedade privada e têm de ser respeitadas como tal. Mas coleções deste porte não podem ser esquecidas pelo Estado pelo patrimônio cultural que representam. É do interesse público que elas sejam protegidas. Ou se dando incentivos para que elas sejam doadas ou protegendo-as em um museu ou oferecendo os recursos para sua segurança física e patrimonial. Não é impossível para os órgãos de cultura dos estados identificá-las e protegê-las.

O mesmo acontece com grandes bibliotecas privadas que muitas vezes ficam à mercê da falta de recursos de seus proprietários para cuidar delas. É do interesse comum que elas sejam catalogadas, preservadas e protegidas da deterioração, de acidentes ou de situações absurdas.
Conheço um caso criminoso.
Um dos maiores nomes da literatura brasileira, membro da Academia Brasileira de Letras teve sua biblioteca jogada no lixo por sua viúva que após a morte do marido decidiu se livrar do que para ela não passava de um transtorno na casa.

Resumo das maiores obras da literatura mundial

Meu amigo Paulo Welzel me mandou estes textos muito bem humorados para quem não tem tempo a perder, mas também não quer ficar por fora das maiores obras da literatura mundial. Atenção para o resumo das 1.200 páginas de Guerra e Paz.
Thanks Paulo. 

Romeu e Julieta. William Shakespeare.
Dois adolescentes doidinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro, as duas turmas saem na porrada, uma briga fodida, muita gente se machuca. Então um padre filho da puta tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero.

Madame Bovary. Gustave Flaubert.
Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre.

Guerra e Paz. Leon Tolstoi.
Um rapaz não quer ir à guerra por estar  apaixonado e por isso Napoleão invade Moscou. A mocinha casa-se com outro.

À La recherche du temps perdu, Em Busca do Tempo Perdido. Marcel Proust.
Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite.  No dia seguinte come um bolo e escreve um livro. Nessa noite tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile onde estão todos muito velhinhos, e pronto.

Os Lusíadas. Luís de Camões.
Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que depois de alguns problemas, logo resolvidos por uma deusa super gente fina, ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas.

Hamlet. William Shakespeare.
Essa é foda. Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com a mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada que, entretanto, se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha matado o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma  que era doida e que tinha se suicidado.

Othelo. William Shakespeare.
Um rei otário, tremendo Zé Roela, tem um amigo muito filho da puta que só pensa em fazê-lo de bobo. O malandro não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O Zé Mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho.

Édipo-Rei. Sófocles.
Maluco tira uma onda, não ouve o que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, comendo a mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, surge a Psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta.
Parada muito doida.

Gardel Ataca Novamente

A ADTV - Allgemeiner Deutscher Tanzlehrer Verband - a maior organização de escolas e professores de dança da Alemanha elegeu o Tango argentino como a dança do ano de 2010.

Milhares de alemães caem na nova moda e enchem as escolas para aprender a dançar.
A Alemanha se rende ao Tango. 
Curiosamente não é a primeira vez.

Durante o Batalha de Stalingrado em 1943 o exército soviético que havia cercado e sitiado os alemães, bombardeava impiedosamente a cidade para desalojar os invasores.
O Exército Vermelho fazia guerra psicológica jogando folhetos e transmitindo mensagens em alemão em altíssimo volume pelos alto-falantes apontados para a cidade.

Além das mensagens o exército russo usou uma técnica terrível para abater o moral do inimigo.
Os auto-falantes tocavam tangos sem parar. Os russos consideravam a música sinistra.

Salomé

Em 09 de Dezembro de 1905 estreou em Dresden, Salomé a ópera de Johann Strauss baseada na obra de Oscar Wilde.
Com a marca libertina de seus textos e de sua própria vida, Wilde levou para as platéias do fin de siècle seus temas preferidos: escândalo, decadência, perversão.
Gustav Klimt com o mesmo tema também criou uma obra prima em 1909. Salomé, uma pintura à oleo, que mais tarde foi reproduzida como cartaz para os espetáculos da ópera, hoje se encontra na Galleria d'Arte Moderna em Veneza.
Ao compor a ópera Strauss fugiu da harmonia e usou tonalidades musicais contrastantes para ressaltar as emoções da tragédia.
A montagem de estréia, extremamente erótica, escandalizou a crítica. Atrizes recusaram papeis, teatros se recusaram a apresentá-la.

A historia é bíblica e muito conhecida.
Durante a vida de Cristo, Salomé a belíssima filha adotiva de Herodes se apaixonou pelo apóstolo João Batista. Ela se declarou, se ofereceu a ele, mas foi rejeitada.

Nesta montagem de estréia o cenário era um horrendo calabouço subterrâneo onde João Batista estava preso.
Herodes, padrasto de Salomé, tinha uma enorme atração por ela e um dia ordena que ela dance para ele a dança dos sete véus. Apaixonado ele diz,
- Prometo lhe fazer qualquer vontade.
Ela aceita e dança lascivamente para ele.
Ao retirar o sétimo e último véu ela incendeia o desejo de Herodes.
- Peça. O que você quer Salomé?
- A cabeça de João Batista.
Chocado com o pedido de matar um homem santo, Herodes recua mas Salomé insiste,
- Eu quero a cabeça de João Batista.
Herodes cede,  manda decapitar o apóstolo e entrega para Salomé a cabeça de João Batista numa bandeja.

Neste momento a ópera atinge o clímax. 
Salomé dança no palco com a cabeça do amado. 
Salomé passa a dialogar loucamente com a cabeça de João Batista nas mãos. 
A fala é longa, desesperada, dilacerante.
Primeiro ela ri de sua morte, debocha dele.
Depois suplica que lhe olhe, que lhe ame, implora que lhe ouça.
Enlouquecida ela termina por beijá-lo freneticamente na boca, se sujando no sangue do amado.
Herodes manda matá-la.
Duas paixões, duas mortes.

No final do espetáculo o público aplaudiu apoteoticamente. Ovacionado, o elenco voltou 36 vezes ao palco para receber os aplausos.
Strauss e Wilde reuniram brilhantemente Tánatos e Eros na mesma cena, freudianamente juntos no mesmo impulso, dominando um ao outro. Destruindo o sujeito, destruindo o objeto.

Será sempre assim? 
Será que precisamos segurar na cabeça decepada de nossos sonhos, beijando o sangue morto de nossos amores?

Memorial do Retirante

Recife tem o privilégio que poucas cidades têm no mundo de ter uma grande obra de Oscar Niemeyer. Cidades se transformaram em cartões postais por conta disso. 
O grande mestre da arquitetura moderna, que levou adiante os conceitos de Le Corbusier, é indiscutivelmente o gênio das curvas impossíveis e sensuais. Pela idade avançada de Niemeyer ter hoje um projeto dele mais que um privilégio é uma oportunidade imperdível, é ter um patrimônio inestimável.

Sendo o centro geográfico e quase sempre cultural e intelectual do Nordeste, Recife sofreu ao longo de décadas as conseqüências desta localização e de suas misérias, principalmente as da Seca.
Para a cidade convergiram os miseráveis e desamparados de toda a região ao seu redor à procura de refúgio. Famílias de retirantes dos estados vizinhos chegaram aos milhares, expulsas pela seca. 
Recife foi quem pagou, sem poder, o alto preço de recebe-las.

Famílias inteiras aqui chegaram e aqui se desagregaram.
Os homens que estavam em condições de trabalhar terminavam por emigrar para o sul do país. Eles quase nunca retornavam deixando definitivamente para trás suas mulheres, velhos e crianças que estressaram a infraestrutura da cidade. 
Recife se enchia de crianças abandonadas, miseráveis, mendigos e prostitutas. A cidade acabou inevitavelmente por herdar todas as conseqüências sociais, políticas e urbanas desta situação indesejada. A cidade até hoje guarda em seu caráter e em sua estrutura a marca forte e a lembrança de tudo isso. Nenhum lugar portanto seria mais merecedor de sediar um Memorial do Retirante.

E assim foi feito.
Um grande centro de exposições começou a ser construído pela prefeitura da cidade no bairro de Boa Viagem. O Parque D. Lindú tem o nome da mãe do presidente do país, ele próprio um retirante, o mais famoso deles, projetado por ninguém menos que Niemeyer.
Para quem o vê pela primeira vez o conjunto arquitetônico além de belíssimo é avassalador pois o mestre criou uma obra-prima que instantaneamente transmite pela formas limpas e simples toda a solidão, o desamparo e o vazio da condição de um Retirante. 
De quem é obrigado pela miséria a abandonar sua terra em direção ao desconhecido.
É muito difícil não se emocionar e sentir imediatamente todo o contexto humano dos retirantes da seca que aquelas formas transmitem. A arquitetura trás um sentimento, uma história. O conjunto tem a expressão de um poema.

Mas a cidade envergonhada de seu passado rejeitou a obra.
Chegou a pensar em transformar o parque em uma área verde. Um contrasenso brutal querer povoar de verde um memorial ao retirante da seca. Hoje o parque se transformou num grande imbróglio. Esta semi-abandonado há anos e não se sabe se será um dia concluído e como será. 
A situação é ainda mais absurda por uma obra-prima desta importância estar semi-abandonada. Um parque que a população não desfruta com equipamentos que não funcionam. 
Além de um desrespeito ao bolso de contribuinte é mais um esqueleto inacabado numa cidade que já convive com tantas feiúras e mazelas.

Conviver com o passado, resolver suas questões e suas pendências é essencial para a saúde mental de qualquer indivíduo, quanto mais para a história de uma cidade. Negar suas heranças, mascarar sua história, fugir dessa realidade é doentio e impede que se resolvam os traumas do passado, para que se possa olhar com dignidade para o presente e construir o futuro.

PS.: Este post foi escrito em 2010. Hoje felizmente a obra foi terminada e se integrou na vida cultural da cidade.

Zeitgeist

Estive comentando o filme Zeitgeist com minha filha Vahine. Zeitgeist é uma daquelas palavras alemães geniais, fruto daquela maneira alemã de criar um conceito inteiro, um Das Koncept, em uma única palavra. É como Weltzchmert que é a dor do mundo aquela dor total de todos os seres humanos. Ou como Zukunfsfreud que é o otimismo, a esperança em relação ao futuro ou Schadenfreude, que é a alegria pela desgraça alheia, o inverso da compaixão.

Nesta forma de criar palavras conceituais Zeitgeist é um conceito dependente do tempo e do espaço. Representa o ambiente cultural, científico e intelectual do mundo em um determinado momento, época e lugar. Cada época, cada lugar portanto tem seu Zeitgeist específico. Mas antes de voltar a “Zeitgeist” o filme, vamos ver outra palavra alemã: Angst.

Angst não é apenas uma angústia pessoal e passageira, é algo maior que faz parte intrínseca do ser, do viver humano. É a dúvida, a dor, a alegria de viver cada novo dia. A dor de existir, de não saber como começa nem quando termina, não saber o sentido da vida, de onde viemos para onde vamos. Se viemos e se vamos para algum lugar. Este Angst é condição essencial do ser humano.

E é esta incerteza, este tormento às vezes leve, às vezes insuportável que é o Leitmotif (mais uma em alemão) na origem de todas as religiões e filosofias. 
Diante da Existência ficamos perplexos, sem explicações e nos falta principalmente um significado para o existir. Falta-nos também uma ideia que una todos os fatos e os torne compreensíveis, que os torne parte de um todo racional. Precisamos de algo ou de um script que explique os movimentos históricos, que dê uma sequência lógica e aceitável à jornada do Homem.
Algo que torne fácil visualizar que a História do Homem não é um caos de fatos sem propósito. Enfim algo que dê sentido e relevância a tudo que nos cerca, que vemos, que participamos.

Surgem então ao longo da História, as mais diversas religiões, crenças, filosofias, sistemas políticos. 
Sistemas que procuram explicações e principalmente enxergar uma ordem no que parece ser um caos de acontecimentos e de total falta de propósito. Toda esta procura por explicações, esta luta contra o caótico e em busca do previsível, do planeável, do controlável é em resumo a história do Homem.

É a luta contra o maior dos medos, o medo da Morte, o medo do Desconhecido. O Desconhecido e o Caos são a Morte e o Controle e o Conhecimento seriam a Vida. Note que todo progresso científico se resume em melhorar e prolongar as condições de vida, e que toda religião promete a vida eterna.
Mesmo assim Ciência e Religião não têm sido suficientes para aplacar ou anular o Angst. Ainda falta algo mais. Algo que junte as pontas da História. Que dê um começo, um meio e um fim, que estabeleça um sequência e um propósito. Que enfim explique todos os fatos dentro de um mesmo raciocínio.

Agora junte esta necessidade de explicações simples para a História com o Weltratlosigkeit (a perplexidade diante do mundo) e o Angst e você acaba chegando então nas Teorias Conspiratórias.
As TC’s surgem de tempos em tempos para dar uma explicação aceitável a fatos que não temos capacidade de processar, de entender ou de reuni-los todos juntos e chegar a uma conclusão satisfatória.

Mais ainda: o medo do desconhecido, a dificuldade de elaborar um raciocínio sintético global leva o Homem a desconfiar de que há algo por trás de tudo servindo a interesses que não são seus. 
Daria para chamar isso de paranóia colectiva latente. Outro ingrediente neste caldeirão cultural que constrói o Zeitgeist de cada época é a necessidade de identificar um culpado para o que de mal nos acontece e para tudo que não encontramos explicação razoável.
Grandes líderes carismáticos têm se aproveitado destes medos, inseguranças e angústias para conduzir povos e nações inteiras nas mais insanas aventuras sociais e políticas. 
São os Ditadores, os Profetas, os Messias, os Iluminados.

A História está cheia deles, a Alemã inclusive.
Por tudo isso me reservo algumas cautelas em relação a Zeiltgeist, o filme. Note que ele tenta ligar as pontas de séculos de História dentro de uma mesma linha de propósito, naturalmente ameaçadora.
Por isso minha filha querida tenha muita precaução com qualquer teoria conspiratória. Seja de que tipo for, pois quase sempre elas são a procura de uma explicação fácil para problemas de dimensão grandiosa que assustam nossa condição humana.
Prefira sempre o caminho do Ceticismo pois mesmo que você erre, sempre errará muito menos e não ficará a mercê de falsos profetas.

Se o filme trás denúncias concretas, ótimo. Vamos nos informar e combater com seriedade, mas sem nos deixar enganar pelos moinhos de Dom Quixote. E para concluir tudo isso, em relação ao Angst te deixo com Gilberto Gil que sabiamente nos diz que ela só termina quando depois de viver,
Correr, perder peso, curar, ficar são
Solta
Com a alma no espaço
Vagarás, vagarás, te tornarás bagaço
Pedaço de tábua no mar
Dia, após dia boiando
Acabarás perdendo a ansiedade, a saudade
A vontade de ser e de estar
Livre
Das dentadas do mundo
Já não terás, no fundo, desejo profundo
Por nada que não seja Bom
Não mais
Que um pedaço de tábua
A boiar sobre as águas
Sem destino nenhum