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Globalização e o Balaio da Rosa

Esta globalização recente e que estamos vivendo - já houveram outras mais restritas no tempo e no espaço - tem aspectos interessantes na percepção e avaliação no longo prazo. 
No momento em que a maioria das economias do planeta se interligam, ou já se interligaram, começa a se formar entre elas uma situação de vasos comunicantes. O The Economist já tratava disso no começo dos 90’s.

Acontece aqui uma primeira grande ilusão: a de que os ricos continuarão com o mesmo padrão e a de que os pobres subirão o deles. O efeito de vasos comunicantes não é esse e desmente esta ilusão.
O efeito é na verdade seria o de nivelar os vasos envolvidos, onde então os ricos ficarão mais pobres e os pobres menos pobres, já que inicialmente não há bolo suficiente para dividir e para todos terem muito.
Como entre economias os movimentos são mais lentos e graduais agora é que se começa a notar essas conseqüências. Como "vasou" água para a Ásia, faltou água no vaso da América/Europa e este espaço vazio o mercado ajustou em preços ou com recessão.
Agora os preços na Ásia começam a subir. Como os dois movimentos não são exatamente simultâneos eles tendem a criar algumas ilusões.
O fato é que os custos totais - mão de obra, infra-estrutura e logística - começam a aumentar na Ásia e a diminuir na América/Europa por conta daquela outra leizinha da oferta e da procura, etc, etc.

Vasos comunicantes funcionam em duas vias é obvio.
Exportação de postos de trabalho e de infraestruturas para áreas mais baratas acabam por reduzir salários e custos de infra-estrutura do local exportador e a longo prazo tendem a trazer de volta alguns destes postos. Não todos certamente.
Os empregos voltam, mas voltam a aparecer com salários menores que serão então aceitos pela mão de obra que ficou temporariamente desempregada. O mesmo acontece com a infra-estrutura ociosa que também fica mais barata.
Além disso Estados desejosos de ter de volta empresas pagadoras de impostos e respectivos assalariados passam a oferecer incentivos fiscais. O clima econômico volta a ficar atraente nos países que exportaram seus capitais, perderam seus postos de trabalho e deixaram ociosas suas infra-estruturas.

O processo é dinâmico, funciona em ondas e é muito interessante.
O problema é que enquanto a Ásia ainda tiver zilhões de pessoas para integrar no mercado ela continuará a ter baixos salários. Isso pode atrasar tanto o processo de retorno que talvez ele chegue tarde demais para algumas economias recessivas.
Transferências ou retorno da produção requerem a construção ou a modernização de infra-estruturas que vão precisar competir com as que estão funcionado. O mercado pode ser brutal e selvagem, mas é terrivelmente “democrático” pois acaba levando a um nivelamento gradual de padrões, e no caso contemporâneo ele será global.

A ultima onda, seguinte a do refluxo é dialética. Como depois da tese vem a antítese, a terceira onda é uma síntese das duas anteriores. 
Esta síntese será um maior nivelamento econômico das nações participantes do processo de economia globalizado.
As grandes diferenças ficarão por conta da inovação tecnológica. Esta também sendo sempre rapidamente absorvida, copiada, licenciada ou obtida por engenharia reversa, este nome elegante para pirataria.

Em geral estes movimentos eram lentos, mas num mundo de extrema mobilidade física e de transferência instantânea de informação algumas ondas de mudança ficam quase em tap speed, aquele intervalo de tempo após apertar a tecla Enter.
Quase na velocidade da luz. O mercado financeiro que o diga.
Nossa época passou a acontecer na velocidade que leva "de avião o tempo de uma saudade" e nas asas da internet no “tempo que Rosa levava para equilibrar o balaio quando sentia que o balaio ia escorregar”. Não conheço melhor definição para a velocidade da luz.

Gil está falando dos reflexos de Rosa. O tempo deste reflexo é o tempo de uma sinapse cerebral, que sendo elétrica funciona na velocidade da luz. Nem Einstein que definiu a velocidade da luz explicou melhor.
Pobre Albert, o homem morreu sem nunca ter visto o balaio de Rosa balançar.

Perspectivas para a Crise

Vinte e um de Junho. Primeiro é preciso limpar os óculos, é preciso separar o que realmente está acontecendo do que chama ou desvia a atenção.
Saques e vandalismo são comuns e normais em situações de agitação social ou de exceção, independe de orientação politica. Acontecem tanto à direita quanto à esquerda, durante insatisfações em geral, situações de enchentes, terremotos, greves etc... É normal e não se relaciona com ideologia.
Evidentemente que é um dos aspectos que mais desperta os meios de comunicação. Esqueça isso para poder ver o principal.

O principal é que parte da população está cansada e revoltada com a corrupção, impunidade e desfaçatez da classe política. Não tem ninguém inocente nessa história, esqueça qualquer tipo de preferência politica e admita: a representação política está podre.
A presidente não tem experiência para lidar com isso, foi eleita pela preferência de uma única pessoa, na verdade foi indicada como herdeira, uma garantia de continuidade. Isso é fato. Tanto que na primeira crise recorreu ao padrinho e a seu marqueteiro. O padrinho sabiamente mandou recuar e determinar a volta das tarifas. Alguns Estados fizeram isso antes de SP e RJ.

Havia que recuar para aliviar o motivo, a gota d’água, a pressão da panela. Mas o motivo principal permanece, o sistema esta podre, a população não suporta mais. Principalmente por que já está sentindo no ar que uma crise econômica se aproxima e sentindo no bolso que a fantasia de crescimento mágico acabou.
É um fato que qualquer economista idôneo enxergava.
O crescimento estava a reboque de um excesso de liquidez no mercado financeiro internacional, do crescimento chinês, da exportação de commodities e dependente do consumo da nova classe media. Só que o crescimento chinês diminuiu, há uma crise econômica internacional e o consumo da nova classe média era baseado em subsídios e financiamentos que evidentemente têm um limite, uma bolha de consumo.

O governo esta tentando manter este consumo, por exemplo, com o Minha Casa Melhor para financia-lo não mais com dinheiro do mercado, mas com emissão de moeda colocando recursos em bancos estatais, o que evidentemente vai agravar a inflação piorando as coisas.
O crescimento recente não foi fruto de uma política econômica consistente nem muito menos de longo prazo. Foi mais um dos “milagres brasileiros” que periodicamente acontecem naquele espírito de “o país do futuro”. Fantasia que a realidade desmascarou.

Estas manifestações não vão durar para sempre.
O movimento é real, legítimo e tem motivos concretos. Mas o país não vai nem entrar nem permanecer no caos por que há interesses econômicos e a inércia da atividade econômica não acaba facilmente. As manifestações vão se acalmar como a Primavera Árabe.
As manifestações tendem a esquentar e depois esfriar por que mesmo sendo espontâneas não têm nem uma liderança nem um programa. O que vai acontecer é uma dessas possibilidades:

1. O governo esfria a cabeça e vai entregando e/ou fingindo entregar e atender uma por uma as reivindicações mais críticas e faz algum ato grandioso acalmando o tigre até sacia-lo. É o que o empresariado e as classes econômicas estruturadas vão aconselhar e exigir.
2. O governo convoca uma Constituinte e a coisa toda se acalma. É histórico.
3. O governo perde a visão e a iniciativa, a situação cresce e aparece um líder do nada, meio messiânico, um salvador da pátria qualquer com um discurso de limpeza ética. Poderá ser alguém da direita religiosa.
4. O governo perde a cabeça, decreta algum tipo de estado de emergência e assume poderes maiores. Um golpe de esquerda bolivariana que muitos setores radicais desejam e fomentam.
5. Golpe militar é pouco provável. Os militares estão sem força para ir em frente com um golpe e sem credibilidade para isso.
6. O ex-presidente anterior reaparece.
O mais provável é que aconteça a primeira, a segunda ou a sexta situação acompanhadas de algum gesto dramático que acalme as massas, mas confesso que temo pela terceira.

Uma pesquisa realizada pelo Data Popular, antes das manifestações, entre jovens de 18 a 30 anos mostra que eles confiam mais em si mesmos, em Deus e na família do que no governo. Setenta e cinco por cento não confiam no Governo, sessenta por cento não confia na Justiça. Eles representam mais de 42 milhões de eleitores, 33% do total.
Segundo o Datafolha 84% das pessoas que foram ao protesto em São Paulo no dia 17 não têm preferência partidária. Elas são a base e o motor inicial das manifestações.
Há uma nova classe média, uma grande maioria silenciosa que tem valores conservadores, que agora está mostrando a cara, que está se fazendo ouvir.
A direita religiosa pode perfeitamente se aproveitar deste vácuo político. Os evangélicos poderão ser uma força poderosa e mobilizadora tanto numa crise quanto numa Constituinte.

Pessoalmente prefiro uma faxina “mãos limpas” dentro de um projeto social democrata. Mas talvez seja sonhar demais. O país é muito diverso socialmente. O povo não tem tradição nem vivência democrática. Vota pela barriga e é sempre direcionado de forma imediatista.

O Homem mais Rico do Mundo

O homem mais rico do mundo já foi um empresário brasileiro. Francisco Felix de Souza, o Xaxá.
No século XIX ele vivia como um paxá cercado de luxos, fausto, riquezas e mais de cinquenta mulheres. Seus jantares eram servidos em caríssima porcelana chinesa, talheres de ouro, pratos de prata e copos de cristal entalhados com pedras preciosas.

Quando Xaxá morreu deixou mais de oitenta filhos, um número incalculável de filhas e nada menos que algumas centenas de netos. Sua morte abalou a elite brasileira.
O Rei Ghézo do Daomé, hoje Benin, enviou para seu funeral oitenta amazonas e quis sacrificar sete nativos em sua homenagem.
Se você é brasileiro é muito provável que estatisticamente carregue em seu DNA uma marca de Francisco Felix de Souza. Numa população de pouco mais de três milhões, em 1800 segundo o IBGE, ele introduziu mais de meio milhão de pessoas no Brasil.

Francisco Felix de Souza conduziu e foi o maior empresário do ramo mais dinâmico e próspero da economia brasileira e portuguesa na época. Sua morte abalou não apenas o meio governamental e empresarial do Brasil e de Portugal, mas teve séria repercussão entre banqueiros, companhias de seguros, capitães de navio, empresas de navegação, políticos, diplomatas e senhores de engenho.

Ele não era apenas líder no comercio de mão de obra, ele também detinha privilégios na exportação de tabaco. Xaxá foi personagem de romances de Bruce Chatwin, Kangni Alem e Miguel Real, além de filmes de Werner Herzog e de Joana Cunha Ferreira.
Ele morreu em 08 de maio de 1849 exatamente dois anos antes do último navio negreiro, o Relámpago, aportar na Bahia. Francisco Felix de Souza foi o maior feitor e traficante de escravos da História da Humanidade.

A Jihad Alemã

A virtual Jihad - guerra santa - que o Islã promove hoje contra o Ocidente tem raízes profundas e históricas. Uma delas é a pouco estudada e valorizada política de Estado alemã promovida pelo Kaiser Wilhelm II um pouco antes e no começo do século XX.
O Estado alemão planejou, participou e financiou uma guerra santa muçulmana contra o Ocidente.

A Alemanha despontava como nova potência industrial européia e buscava seu lugar entre os impérios estabelecidos, Rússia, Inglaterra e França. O Kaizer apostava em substituir ingleses, franceses e russos no Oriente Médio, Norte da África, parte da Ásia e na Índia.
Wilhelm II também estava de olho na partilha do Império Otomano, o Doente da Europa, que se esfacelava. Os planos do Kaizer alemão eram grandiosos, nada menos que o poder mundial.

Wilhelm II teve a brilhante ideia de promover uma guerra santa dos muçulmanos contra os ingleses, seus maiores rivais. O governo alemão gastou na região muitos trilhões de dólares, em valores atuais, estimulando revoltas e pagando por fatvas dos imãs contra os infiéis ocidentais. A ideia era aproveitar o fato da Alemanha não ter uma presença colonial e que, portanto, tinha as mãos limpas.
O custo desta aventura oriental do Kaizer, a Drang nacht Osten,  custou inacreditavelmente mais do que os Estados Unidos já gastaram na guerra do Iraque e do Afeganistão somado ao que foi gasto nas guerras do Golfo, do Vietnã e da Coréia.

A Alemanha construiu estradas de ferro, lançou milhões de panfletos, distribuiu armas, armou e treinou exércitos. Financiou aventureiros, tribos de beduínos, líderes políticos e religiosos para promover uma revolta árabe contra os ingleses. A ação se estendeu por todo o mundo islâmico até a Índia.
A estrada de ferro Orient Express de Berlim a Bagdá projetada e construída pelos alemães foi parte desta estratégia de fundamentar a presença alemã na região.
Deu tudo errado. A Primeira Guerra Mundial aconteceu como conseqüência de sua política expansionista e o Kaizer foi um dos derrotados. Ecos do conflito e do desmoronamento do império otomano chegaram até a Guerra da Bósnia que terminou em 1995. Paralelamente a Jihad alemã atiçou ódios violentos até hoje. 

Um dos muitos argumentos do Kaiser para a guerra santa alemã era o anti-semitismo em comum com os muçulmanos. Mais tarde isso teria conseqüências devastadoras na guerra a seguir, a Segunda como continuidade e conseqüência da Primeira.
O Grão-mufti Muhammad Amin al-Husseini chamou a atenção de Hitler depois de um pogrom onde aquele havia dizimado toda a população judaica de Bagdá em Junho de 1941. Convidado a ir a Berlin, em 28 de Novembro al-Husseini se reuniu com o Chanceler logo quando começou o planejamento logístico do Holocausto. Ele foi um dos grandes conselheiros de Himmler e Hitler para assuntos judaicos.
Hitler lhe prometeu que era objetivo estratégico da Alemanha “die Vernichtung des im arabischen Raum unter der Protektion der britschen Macht lebenden Judentus”. Nem precisa traduzir para perceber que isso foi música para os ouvidos do Grão-mufti.

Al-Husseini foi fiel as suas promessas.
Em 1944 havia cerca de 100 mil muçulmanos, equivalente à metade do atual exercito brasileiro, formando três divisões das Waffen-SS nazista. Uma delas, a Handschar SS, massacrou 90% dos judeus da Bósnia.
Numa de suas ações mais bem sucedidas nos Balcãs as SS muçulmanas de al-Husseini capturaram 5 mil crianças judias. Himmler planejou trocá-las por 20 mil prisioneiros de guerra alemães. O Grão-mufti insistiu que elas deveriam ser mandadas para as câmaras de gaz na Polônia. Sua santa vontade foi satisfeita.
O Grão-mufti montou em Berlin uma escola especial para oficiais alemães da SS para ensiná-los a lidar com os recrutas muçulmanos. Himmler agradecido montou uma escola em Dresden para treinamento de mulás. Sauberzweig, um comandante de divisão SS, chegou a dizer que “os muçulmanos estão começando a enxergar em nosso Führer a aparição de um segundo profeta”.

As sementes da guerra santa que o Kaizer Wilhelm II lançou, regou e financiou não poderiam ser mais bem colhidas que no 11 de Setembro e suas consequencias.

A Maior Falsificação de Dinheiro da História

O filme austríaco Die Fälscher - Os Falsários - é uma obra-prima de Stefan Ruzowitzky, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2008. Conta a história real de Salomon Sorowitsch e da Operação Bernhard.

A operação, conduzida pelos nazistas, a maior falsificação de dinheiro da história, produziu cerca de 9 milhões de notas, na época um valor de 132 milhões de libras esterlinas. Hoje seriam cerca de 7,8 bilhões de dólares, cash em notas, uma por uma.
A ideia de Bernhard Krüger era simples e brilhante. Produzir recursos financeiros para a economia alemã e inundar o mercado com libras para arruinar, por inflação, a economia inglesa.

Friedrich Herzog, um Sturmbannführer da SS, liderou a operação Bernhard dentro do campo de concentração de Sachsenhausen. Herzog colocou Salomon, um falsário genial, à frente de uma equipe de 142 prisioneiros. A equipe de gráficos, desenhistas, fotógrafos, banqueiros e outros especialistas, utilizando a melhor tecnologia disponível, produziu no campo de concentração notas absolutamente perfeitas, do tecido à impressão.
Algumas dessas notas foram enviadas para um teste de autenticação na Inglaterra. O Banco da Inglaterra foi taxativo: as notas de Salomon eram verdadeiras.

À partir daí a derrama foi imensa. Cerca de um terço das libras esterlinas em circulação na época foram produzidas pela equipe de Salomon e Herzog em Sachsenhausen.
O volume era maior que as libras que o próprio Banco da Inglaterra tinha em seus cofres. Quatro vezes maior que todas as reservas cambiais inglesas. Posteriormente o Banco da Inglaterra levou quarenta anos para recolher completamente tanto as notas de Salomon quanto as verdadeiras, absolutamente indistinguíveis, emitindo substituições completamente diferentes.

O filme tem uma fotografia belíssima, praticamente sem cores, em tons de cinza, acentuando o ambiente sombrio. Benedict Neuenfels usou de forma muito mais intensa o recurso de cores esmaecidas usado por Ghislain Cloquet e Geoffrey Unsworth em Tess de Polanski. Aliás outra obra-prima imperdível.
Além da excelente fotografia Die Fälscher tem uma trilha sonora que ao longo do filme, de forma emocionalmente intensa e irresistível, vai se transformando num personagem essencial da história. O filme que já tem uma trama fascinante usa recursos de fotografia, iluminação e trilha musical para criar Cinema em seu estado mais puro.

Salomon o judeu e Herzog o nazista sobreviveram à guerra.
Herzog conseguiu escapar junto com a família, levando uma pequena parte de sua obra, usando os passaportes suíços que Solly preparou para eles.
Salomon depois de uma temporada na Itália e no Uruguai terminou seus dias, aos oitenta anos, em Porto Alegre. Aqui ele criou uma fábrica de brinquedos já que não conseguia mais usar suas habilidades manuais devido a outro alemão, menos amigável, o Alzheimer.

Dinheiro não tem cheiro

Dinheiro não tem cheiro. A frase não é de Gordon Gekko, de Warren Buffett, de nenhum tubarão da Bolsa, nem de nenhum politicus brasiliensis. Provavelmente ela já foi usada e repetida ad eternum por gerações e gerações. E bota tempus nisso.

Vespasiano. Imperador romano, viveu nos primeiros 80 anos DC. Ele foi imperador após Nero, não imediatamente depois, mas após Galba, Otão e Vitélio que em pouco mais de um ano se sucederam numa prévia da Itália do século XX. Tutti bonna gente, conspiravam, mentiam, matavam e traíam numa descontração pré-berlusconiana.

Tito Flávio Vespasiano tinha um senso de administração financeira incomum e literalmente encheu os cofres de Roma com criativos mecanismos de arrecadação.
Um belo dia Vespasiano teve a sensacional ideia de tributar a urina das latrinas públicas de Roma. Na Bahia não funcionaria, nem mesmo hoje em dia, pois a população local insiste em desperdiçar seus recursos úricos pelas ruas e calçadas, espalhando alegremente por toda a cidade aquele perfume inesquecível que todos relacionam com o carnaval.

Vespasiano notou que a urina dos banheiros públicos de Roma era usada pelos peleteiros e tanoeiros para curtir o couro. Arrá! Business opportunity! E resolveu taxá-la.
Tito, o filho do imperador torceu o nariz. Claro. O rapaz, criado no requinte da corte romana, deve ter achado a ideia a maior baixaria, uma coisa tipo assim meio barraco, coisa de pobre, um horror.

Vespasiano nem aí.
Esperou chegarem os primeiros  pagamentos do Imposto do Xixi, pegou algumas moedas, se aproximou do filho Tito colocou-as bem debaixo de seu nariz e disse,
- Não cheiram.

Invasões Bárbaras

A Europa que já não consegue lidar satisfatoriamente com seus milhões de imigrantes legais e ilegais estabelecidos terá que lidar com potenciais 150 milhões de refugiados da Fome.

Um mundo sem fome é possível pois o planeta produz alimentos suficientes para seus sete bilhões de habitantes. Ainda assim existem 1 bilhão de famintos no planeta localizados inclusive nas regiões onde os alimentos são produzidos. A fome não é um problema causado pela natureza, a fome é um problema político. Um gravíssimo problema político.
Quase metade da população mundial vive direta ou indiretamente do cultivo de alimentos, mas populações que vivem da agricultura familiar não têm seus interesses representados nos acordos internacionais. Famintos não contam, eles não têm lobby.
Países industrializados fazem o discurso da solidariedade. Para serem efetivos eles teriam de cortar subsídios agrícolas, controlar a especulação e se conscientizar da ameaça potencial de milhões de imigrantes prestes a fugir da fome africana.

Subsídios.
A UE destina 40% de seu orçamento às subvenções agrícolas, o que contribui para inviabilizar a produção local de países africanos que não conseguem competir com produtos muito mais baratos dos países desenvolvidos..
Agricultores europeus produzem além da demanda sem se preocupar por que os subsídios lhes garantem uma renda que agricultores dos países pobres nem ousam sonhar. A Europa sustenta artificialmente seus produtores enquanto ajuda a arruinar a vida dos africanos.

Especulação.
Investidores do mercado financeiro fizeram da especulação com os alimentos básicos uma fonte de grandes lucros. Preços aumentaram em torno de 30% apenas na alta do segundo semestre de 2010. Populações de países pobres não conseguem pagar estes preços. Eles provocam tanta destruição quanto o comércio de armas dos mercadores da morte.

Indiferença.
A comunidade internacional lida com o escândalo da fome no século 21 com indiferença e irresponsabilidade. Em 2008 os altos preços dos alimentos provocaram revoltas de Camarões ao Egito. Um erro terrível por subestimar a força dos pobres e famintos com seu potencial político explosivo. 

Neste aspecto a FAO - Food and Agriculture Organization - o orgão da ONU baseado em Roma para a alimentação e agricultura, comandada pelo brasileiro José Graziano da Silva, até agora tem sido impotente e irrelevante apesar de seu lema inspirador Fiat Panis. Graziano trabalha há mais de 30 anos com "segurança alimentar".

Cegueira política e interesses econômicos estão transformando a fome em um fator de altíssimo risco para a estabilidade política tanto para as regiões atingidas quanto para a União Européia.
A Europa poderá ter que lidar com potenciais 150 milhões de refugiados da fome vindos da vizinha África nos próximos oito anos. A fome nos países pobres é na prática um genocídio controlado, consentido e tolerado pelos países industrializados.

A Africa está a menos de 15 km da Europa. Uma nova invasão de bárbaros está sendo perigosamente gestada contra uma região em crise que não consegue sequer resolver seus próprios problemas.

A Fome na África

A fome na África também é um problema de Mercado.
O Brasil e os EUA são os maiores produtores mundiais de milho, trigo, soja e carne. Com mais de 210 milhões de bois o rebanho bovino brasileiro é maior que a própria população, há mais bois do que pessoas. A União Européia destina 40% de seu orçamento às subvenções agrícolas para enfrentar a eficiência e o volume da produção americana e brasileira. 

Produtos baratos contribuem para acabar com a produção local nos países africanos, essencialmente agrícolas, que não conseguem competir com produtos muito mais baratos. Sem acesso a sementes, fertilizantes, defensivos e tecnologia, a produção africana de alimentos entrou em colapso. Além disso de 20% a 40% da colheita agrícola costumam se perder pelas deficiências de transporte, armazenamento e processamento.
A eficiência, o volume de produção e os subsídios nos Estados Unidos, Brasil e Europa contribuem para inviabilizar a produção de alimentos nos países pobres da África. 

A carne de frango é um bom exemplo.
Há vinte anos os frangos em geral eram vendidos inteiros. Os hábitos mudaram e os países ricos passaram a consumir principalmente peito de frango e outras partes nobres. O excedente é exportado a preços baixos. Um quilo de frango congelado importado pode ser encontrado nos países africanos por cerca de 0,70 centimos de Euro, 0,92 centavos de Dólar, 1,70 Real.
Um quilo de frango produzido localmente na África chega a custar quase seis vezes mais: 4 Euros, 5,24 Dólares, 9,70 Reais. Isso arruinou não apenas os avicultores locais, mas também os produtores de forragem, os abatedouros e o comercio associado. 

Sem ter muito o que exportar para pagar por estas importações a África passa cada vez mais fome em um mundo que produz cada vez mais alimentos. A eficiência e a escala da produção mundial de alimentos ao invés de aliviar a fome, está contribuindo para aumenta-la no continente esquecido. Um mecanismo cruel do mercado que enriquece os ricos e empobrece os pobres. Uma contradição típica do sistema. 

Um continente de imensas terras férteis passa fome. Com a produção agrícola arruinada, uma imensa população pobre e terras baratas a África está no alvo de investimentos chineses. A FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, já fala de uma corrida às terras férteis, uma forma de neocolonialismo. A China teria obtido do Congo uma concessão de 2,8 milhões de hectares para implantar o maior palmeiral do mundo.
Na visita de Hu Jintao a Camarões em 2007 os chineses assinaram acordos onde passaram a ser os únicos estrangeiros que podem permanecer no país por 18 meses sem contrato de trabalho. O país teria se comprometido a receber 700.000 chineses. A China está literalmente comprando a África em contratos celebrados em alto nível, discretamente por trás de portas, com líderes africanos que assinam acordos sem consultar seus parlamentos. 

Para o continente esquecido e para os eternos parias da humanidade resta a fome ou a submissão.
Castro Alves que viu o Navio Negreiro voltaria novamente a se perguntar. Quem são estes desgraçados que não encontram na comunidade mundial mais do que um rir calmo ou a indiferença do mercado, que excita a fúria do algoz? 
São os filhos do deserto, onde a terra esposa a luz, onde viveram em campo aberto em tribo de homens nus, guerreiros ousados. Ontem simples, fortes, bravos, hoje míseros escravos, sem luz, sem ar, sem razão. Mulheres desgraçadas que sedentas, alquebradas, trazem com tíbios passos, filhos e algemas nos braços, na alma lágrimas e fel. Antes era o areal extenso, depois o oceano de pó no horizonte imenso, ambos desertos de fome, o cansaço e sede.
Depois era cair p'ra não mais s'erguer, numa vaga do mar ou num lugar na cadeia. 

Para preservar sua produção, investir no desenvolvimento agrícola e garantir o trabalho no campo os países africanos precisariam se proteger da concorrência dos produtos baratos vindos dos países ricos. Eles não têm força política para isso. Quando Gana falou em aumentar suas tarifas de importação o Banco Mundial e o FMI ameaçaram com congelamento de crédito. O governo de Gana recuou.
Ontem o tronco, hoje o lugar que lhes coube na Globalização.

Fred Flintstone e Karl Marx

O livro Sex at Dawn, Sexo na Alvorada, do americano Christopher Ryan e da moçambicana Cacilda Jethá trata da promiscuidade generalizada na Pré-História. Para eles isso afetaria o comportamento sexual humano até hoje. Escrito em linguagem popular, o livro virou best-seller. Na verdade essa pretensa "promiscuidade" há muito foi estudada por Friedrich Engels e Karl Marx em A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado, um livro de antropologia básico, fascinante e simples de entender.

Os autores do best-seller simplificam e explicam a Monogamia pelo fato do bebê humano depender dos pais por muito tempo. Isso explicaria a formação de pares monogâmicos. Tipo assim, a Wilma precisava do Fred para cuidar da Pedrita. Na verdade a monogamia faz parte do processo histórico que levou o Homem a sair da barbárie em direção à formação do Estado.
Atenção meninas, tecnicamente, sociologicamente falando um homem fiel é um homem civilizado, enquanto aquele sujeito que te fez chorar não passa de um bárbaro. Esquece esse troglodita, desliga essa música horrorosa.
A dupla de alemães, que nem eram marxistas, se baseou nos estudos do antropólogo americano Lewis Henry Morgan. Eles dividiram o processo que nos trouxe até a Civilização, do Fred Flintstone até o Brad Pitt em três etapas. Estado Selvagem, Barbárie e Civilização.

Estado Selvagem
Na fase básica o homem vivia em árvores, comendo frutos e raízes disponíveis e já estava começando a falar. Na fase média ele começa a pescar, cozinhar e acrescentar carne vermelha na dieta. Já tem até uns instrumentos toscos de pedra sem polimento, ocupa novas áreas, produz as primeiras armas como clava e lança e é antropófago. Na fase superior ele já tem arco e flecha, residência fixa em aldeias, domina o fogo e já está polindo seus instrumentos. 
Na fase de transição do estado Selvagem para a Barbárie formam-se as Gens, núcleos baseados em vínculos de parentesco e Clãs, com descendência comum de um antepassado, formando as primeiras comunidades. Aqui a predominância é absolutamente feminina, a mulher é a dona da casa, a família é matriarcal. A economia é apenas doméstica e o uso da propriedade é comum a todos.

Barbárie.
Na fase inferior da Barbárie aparece a cerâmica, a domesticação e criação de animais e o primeiro cultivo de plantas. Nascia a agropecuária. A coisa se organiza mesmo em torno das necessidades da cozinha e a Wilma mandava mesmo. Pela primeira vez a fome estava afastada com o aperfeiçoamento de técnicas agrícolas e do arado puxado por animais. Fred já começa a pegar no pesado.

Na fase média da Barbárie acontece a primeira grande divisão do trabalho. Fred vira pastor, Wilma fica em casa e Fred passa a dianteira nela. Ele agora tem gado, a primeira propriedade da História, e gado é “dinheiro”. O cara tá ficando poderoso.
Agora começa a haver o uso de prisioneiros de guerra para aumentar a produção, em conseqüência a sociedade se divide entre senhores e escravos. A Família Individual se torna um poder e prevalece sobre a Gens. Também começa o uso da irrigação, do tijolo cru e da pedra nas construções. A galera também para de comer gente, larga meu braço pô!

Na fase superior da Barbárie começa-se a fundir o ferro, usar moinhos movidos à mão, usar carroça, carros de guerra, espada, arado e machado de ferro. Aqui começa a preparação do azeite e do vinho. Da culinária básica passou-se à gastronomia regada a vinho. A farra estava começando. Fred começou a chegar tarde, Wilma começou a implicar com o Barney.

Com tantos novos instrumentos e atividades aconteceu a segunda grande divisão do trabalho. Alguns ficavam na Agricultura e outros nas Artes e Ofícios. Aqui começa a nascer uma nova divisão de classes na sociedade: ricos e pobres. Começam os problemas com a vizinhança, entre os bem de vida e os não tão bem assim.
Inicia-se a transição para a propriedade privada e para a família individual como unidade econômica. Aqui aparece a invenção do alfabeto e da escrita. Infelizmente começam as fofocas, as cartas anônimas, uma barbaridade só. Esta fase toda também é conhecida pelos historiadores como fase Heróica, só deus sabe por que.

Mais ou menos por aqui começa a transição da Barbárie para a Civilização com a criação de órgãos específicos da sociedade gentílica, escolha de um chefe militar, formação de um conselho e assembléia do povo. Havia uma espécie de democracia militar, com eleições internas dentro das famílias gentílicas. A guerra aqui vira um ramo de negócios, um business de conquistas territoriais e saques.

Civilização
Ufa, finalmente chegamos à Civilização, como diria o Indiana Jones. Agora surge a terceira divisão do trabalho com o aparecimento dos comerciantes. Aquele pessoal que nem produz nem consome, fica ali no meio rindo à toa. Neste momento surgem as grandes riquezas, a influência e o predomínio dos não-produtores sobre os produtores. Surgem o dinheiro, o empréstimo, os juros e a transferência de terras.
Se foi a guerra que nos levou ao processo civilizatório, a Civilização se consolidou com a concentração da riqueza, dos empréstimos e da transformação daquela democracia espontânea em uma Aristocracia.
Mas isso qualquer celebridade, qualquer socialite sabe, não existe civilização sem gente fina. Não era preciso um antropólogo americano e dois filósofos alemães famosos queimarem tanto as pestanas. Marx e Engels definitivamente não liam a Caras.
Bem a essa altura Fred e Wilma já saíram há muito tempo da História e estavam procurando trabalho na Hanna-Barbera.

A Familia.
A família, ah sim a familia. Foi mais ou menos assim, existiram quatro tipos, da farra total e absoluta até o unidos para sempre.
Primeiro houve a familia Consangüínea, no estado Selvagem. Havia união entre irmãos, irmãs e primos, mesmo por que era difícil e irrelevante determinar quem era quem, mas com proibição de relações sexuais entre pais e filhas e entre mães e filhos.
A segunda foi a família Punaluana, ainda no estado Selvagem, que se originou na proibição de relações sexuais entre irmãos.
A terceira foi a família Sindiásmica, no estado de Barbárie, onde se estendeu a noção de incesto para irmãos e irmãs colaterais. Nada de priminhos rondando a casa.

Bem agora já dá pra chamar as crianças de volta pra sala. Finalmente aconteceu a quarta formação familiar, a Monogâmica, a família patriarcal da era da Civilização. Já era quase um Father Knows Best.
Agora pasme: é nesse momento que surge o Ciúme, por motivos absolutamente socioeconômicos.
Pasme mais ainda: o Amor Romântico só vai aparecer uns quatro mil anos depois. Banda brega nem pensar.

O casamento monogâmico transformou a Família Nuclear na unidade econômica básica da sociedade. Nela a mulher e seus filhos se tornaram dependentes de um único homem. A descendência mudou então da linha materna para a paterna. A separação da família do clã e a instituição do casamento monogâmico foram conseqüências sociais da propriedade privada em desenvolvimento. A monogamia fornecia os meios para a propriedade ser herdada individualmente, incontestavelmente.

Como os homens eram donos dos instrumentos de trabalho, o conflito entre a nova noção de família e a da Gens virou um conflito entre o direito materno e o direito paterno. Segundo Engels “dessa forma as riquezas, à medida que iam aumentando, davam ao homem uma posição mais importante que a da mulher...e faziam com que nascesse nele a idéia de valer-se dessa vantagem para modificar, em proveito de seus filhos, a ordem da herança estabelecida”, mudando o reconhecimento da descendência da linha materna para a paterna. Simples assim.

Estado
Ele surge da necessidade das sociedades nascentes conterem as oposições e conflitos internos para se organizarem de forma perene e estável. O Estado é um produto e uma necessidade da sociedade quando ela chega a um determinado grau de desenvolvimento. Um poder situado acima dela própria para amortecer conflitos e mantê-los dentro dos limites da ordem estabelecida, qualquer que seja ela.
O Estado nasce da dissolução da sociedade gentílica fundada sobre o vínculo familiar e marca a passagem da Barbárie à Civilização. O Estado foi a nova e revolucionária instituição que assegurou que as riquezas individuais e as novas formas de aquisição da propriedade pudessem ser mantidas e acumuladas. Ele é fruto e conseqüência da propriedade privada. Junto com o Estado nasciam, de forma organizada e institucionalizada, o Direito e a Lei para mantê-lo e preservá-lo.

Voltando ao ponto. A farra inicial, a tal promiscuidade, não terminou nem o casamento monogâmico começou porque a Wilma precisava muito do Fred para cuidar da Pedrita. Como disse o Bill Clinton no slogan da campanha de 1992 contra George Bush, 
- It's the economy, stupid!

Adolescência

A Adolescência nem sempre existiu como um período de desenvolvimento.
O conceito de adolescência só aparece na virada para o século XIX e não se consolida antes do XX. Antes disso, entre a criança e o adulto, reconhecia-se apenas a puberdade onde ocorrem as maiores mudanças físicas, o crescimento do corpo e dos pêlos, o aumento do peso, a mudança de voz e o amadurecimento sexual.

A complexidade das sociedades industrializadas criou este período intermediário entre criança e adulto. Em culturas menos complexas a transição do menino para o adulto ocorria de forma suave e depois da puberdade o jovem obtinha o status e os privilégios dos adultos. As crianças começavam a trabalhar a partir dos sete anos, poucas estudavam ou permaneciam pouco tempo estudando e não eram separadas por idade. A longa permanência do jovem na necessária formação escolar das sociedades modernas retardou sua incorporação no universo adulto.

A adolescência surge como uma nova fase de desenvolvimento com a característica do adiamento em assumir responsabilidades adultas, representado como um período de imaturidade.
Até a famosa crise de identidade é experiência recente e decorre da necessidade do estabelecimento de uma identidade relacionada com a independência através do trabalho. Por conta da complexidade social e das dificuldades em decidir sua identidade profissional o jovem vive um sentimento de incapacidade de assumir o papel que lhe é imposto e cobrado pela sociedade.

Este fenômeno contemporâneo cria um período de vida onde apesar do jovem se encontrar pronto para o amor, para o sexo e para o esforço físico do trabalho ainda precisa ficar sob a tutela dos adultos. Por conta deste papel pouco definido se instala a insegurança. Por causa deste período de indeterminação os conflitos existenciais no jovem surgem como problemas entre o sujeito e a sociedade. Buscando reconhecimento o adolescente utiliza a transgressão e a rebeldia como forma de se contrapor às expectativas da sociedade.

A adolescência é mais uma construção do que um período natural do desenvolvimento biológico. Não é uma fase fisiológica, mas uma criação social tanto maior quanto mais técnica for a sociedade. Quanto mais técnica e mais complexa for a sociedade tanto maior será esta fase. A adolescência, de forma simplificada, foi o período criado para capacitação para o mercado de trabalho nos primeiros tempos da industrialização.

A adolescência é mais um dos frutos da Revolução Industrial que criou o operariado urbano, colocou a mulher no mercado de trabalho, o posterior e conseqüente feminismo e forjou as ideologias e revoluções que estabeleceram novos arranjos econômicos, sociais e políticos.
Quem imaginaria que uma máquina a vapor e um tear mecânico mudariam tanto a Humanidade?

Projeto Novo Recife

Eu comentava com o Léo Falcão o absurdo do Projeto Novo Recife que pretende fazer uma intervenção urbana no Cais José Estelita.
O projeto prevê a construção de cerca de 12 torres habitacionais, de quase 40 andares cada, numa área enorme de mais de 100 mil metros quadrados à beira do rio Capibaribe.
O PNR é por qualquer ótica irracional, ideologias à parte.

Fazendo um raciocínio absolutamente amoral, sem ética alguma, apenas econômico: todo dinheiro gerado, seja da droga, da corrupção, de qualquer crime movimenta a Economia, cria riqueza, emprego e renda, pois idealmente continua circulando dentro de um sistema fechado.
Há variações mínimas do dinheiro do crime aplicado no mercado interno devido a remessas para o exterior. Elas são muito menores que as remetidas pelas transnacionais e mesmo a parcela que é remetida ilegalmente para o exterior acaba retornando devidamente washed.
Em termos estritamente econômicos o crime não apenas compensa como também é saudável para a economia por sua agilidade e informalidade financeira. O livre mercado se exerce magnificamente no crime organizado, mas isso já é outra história.

No caso do PNR analisando o único argumento razoável que justificaria o empreendimento - por gerar riqueza, emprego e renda - ele se sustenta apenas no modelo acima.
Mas mesmo e ainda assim o PNR não se justifica.
Os custos ambientais no longo prazo, os custos distribuídos de aumento de consumo de combustível per capita, as horas produtivas dispendidas em engarrafamentos, o aumento do consumo de eletricidade na cidade para manter a refrigeração necessária pelo aumento da temperatura criada pela barreira de concreto, todos estes custos ultrapassam em muito a riqueza, a renda e o emprego gerados pelo empreendimento.
Não deve ser difícil fazer esta conta.

Detalhe: esta conta será rateada democraticamente pelos contribuintes.
Pior: a situação leva, a longo prazo, a um aumento das despesas do município sem uma receita comparável o que significará uma piora nos serviços prestados a todos os contribuintes.
Resumo: é ele o contribuinte quem vai pagar a conta no longo prazo. Tanto financeiramente quanto em qualidade de vida.
Novamente: a riqueza gerada no curto prazo pelo empreendimento não justifica os prejuízos no médio e longo prazo. Nem mesmo para os empreendedores que se tornarão passíveis de processos legais.

OK, o terreno tem dono. Foi comprado legalmente. O dono faz o que quiser.
Será?
Nem tudo que é legal é legítimo. O leilão levou em consideração o futuro uso de um bem destas proporções?
O dono faz o que quiser com o que é seu.
Você faz o que quer com o controle remoto de sua televisão?

Às vezes as soluções mais simples e óbvias estão tão perto do nariz que não as vemos.
O Tube por exemplo. O Underground, o metrô de Londres.
Ele tem mais de um século, quando começou era movido por trens à vapor queimando lenha!
A grande importância histórica do tube é que ele foi usado como elemento fundamental na expansão de Londres. Quando se detectava uma necessidade habitacional as linhas do tube eram estendidas numa determinada direção.
Isso é hoje divulgado com orgulho pela London Underground que se sente parte do planejamento sustentado de Londres. Há mais de cem anos.
Os estate developers e building contractors naturalmente participavam do planejamento e novos bairros eram planejados, construídos e ocupados.
Todo mundo ganhava dinheiro, muito dinheiro, sem criar um caos urbano.

Recife tem uma saída óbvia e fácil que é a rodovia 232.
Ela poderia ser ocupada nas duas margens por condomínios horizontais com ótima qualidade de vida, e servidos por um trem metropolitano rápido de superfície. As construtoras ganhariam muito mais do que com apenas uma dezena de prédios. Há soluções capitalistas, sustentáveis e racionais.

Recife está perigosamente atingindo um ponto de não retorno urbanístico que não pode nem deve ser tolerado por quem ama (*) a cidade e por quem quer continuar gerando riqueza nela.
Dentro do livre mercado, mas com um mínimo de racionalidade e visão de longo prazo.
Hello Adam, cadê a mão invisível para dar umas palmadas nestes aprendizes?

(*) ou gosta, ou curte, ou convive, ou suporta, ou tem tesão, sei lá, relacionamentos são complicados.

A Classe Média Vai À Farra

Que o Brasil é um país de festas não é novidade para ninguém, mas há um fenômeno social relativamente recente, que se intensificou na última década. A indústria de festas é hoje um dos setores mais dinâmicos da economia nacional. Festas de todos os tipos. Batizados, festas infantis, de quinze anos, de formatura, todas cada vez maiores e mais caras. Não faz muito tempo que festas de formatura eram só as universitárias. Agora há festas monumentais do segundo e até do primeiro grau.

Formaturas do segundo grau se transformaram em verdadeiros ritos de passagem. Eventos em centros de convenções com centenas de convidados, shows caros com apresentações artísticas comandadas por celebridades. Prêmios, presentes e viagens ao exterior geralmente fazem parte do pacote. Os pais levam anos pagando. Antes e depois.
Mas é nas festas de casamento que a classe média está competindo, gastando como nunca, desvairadamente, muitas vezes sem poder. Não há limites para a imaginação na disputa de quem faz mais, melhor, maior ou simplesmente diferente. Um noivo chegou no pátio em frente à igreja caindo dos céus de pára-quedas.
Muitas festas custam o preço de um ou mais imóveis, e imóveis caros. Recentemente uma família, neste caso realmente rica, construiu uma réplica em todos os detalhes internos e externos do Palácio de Versalhes para uma única noite de festa suntuosa de casamento. A construção foi demolida imediatamente depois.

Voltando à classe média.
Um casal de jovens universitários recém formados planejou pacientemente seu casamento em todos os detalhes. Ele não queria se casar antes de ter o apartamento novo de cobertura completamente adaptado e decorado. Ela não abria mão de antes da cerimônia passar pelo cirurgião plástico. O casamento incluía portanto uma construtora e um hospital. Antes da igreja.
A escolhida, no alto de uma colina à beira de um lago, foi ricamente decorada para receber os convidados e os mais de quarenta padrinhos e madrinhas. Um luxo.

Além dos detalhes óbvios, caros e já corriqueiros havia na igreja três conjuntos musicais que se revezaram cada um em seu momento da cerimônia. Uma orquestra de câmara para os momentos tradicionais, um conjunto de musica popular para os momentos menos litúrgicos e uma cantora de ópera para os momentos solenes.
O próprio casal cantou suas músicas preferidas. Uma cantada por ele durante a entrada da noiva na igreja. E uma outra no momento dos dois dizerem, cantando, o Sim. A orquestra de câmara preencheu os outros momentos e a cantora de ópera deu o toque apoteótico ao final. Ao fim da cerimônia na saída dos noivos pipocaram fogos de artifício. Um deslumbre.

Depois veio a festa numa das melhores casas de cerimonial da cidade. Há muitas casas especializadas em fazer festas e as mais caras se rivalizam no luxo e na ostentação. São festas que pela alta complexidade de produtos e serviços envolvidos exigem uma organização operacional e uma base logística que a maioria das pequenas empresas comerciais não dispõe.
A decoração de muito bom gosto foi assinada por um famoso arquiteto. O serviço de garçons, maîtres e auxiares, impecável. A variedade de bebidas tornava virtualmente impossível não atender qualquer desejo. Discretamente distribuídos havia paramédicos para os excessos. Nos toaletes femininos profissionais ajudavam em possíveis retoques no cabelo e na maquiagem. O buffet imenso, com incontáveis opções,  variaram permanentemente do começo da noite ao jantar, da ceia ao café da manhã no dia seguinte.
Tudo isso pago por duas famílias de classe média em valores equivalentes ao dos imóveis que elas habitavam.

A festa começou com uma orquestra big-band completa no palco tocando standards românticos e de época. Os casais rodopiavam no salão. A festa repleta de muita gente bonita, bem vestida e feliz. Depois a big-band foi substituída por uma banda de rock. Ao meio da apresentação de rock o próprio casal, ambos já vestidos com outro figurino, subiu ao palco, cantaram e apresentaram seu próprio show. Um sucesso.
Em meio aos aplausos eles agradeceram a todos, nominalmente a muitos e fizeram homenagens a alguns presentes. Numa delas o noivo se dirigiu a uma pessoa especial.
- Eu queria agradecer do fundo de meu coração a Maria Luiza que além de ter sido minha babá é uma pessoa querida de nossa família há muitos anos. Todos aplaudem e se voltam para uma mulher bonita de cerca de quarenta anos, acompanhada do marido e filhos. O noivo continua:
- Minha homenagem é ainda mais especial por que agora vou lhes contar um segredo. Foi com ela que aos 13 anos eu perdi minha virgindade!
Aplausos demorados, hurras e assovios. Gritam para ela elogios indecentes. Um frenesi.

Depois do show de rock o palco foi ocupado por um DJ que manteve, com música eletrônica, o ritmo frenético da festa até ao amanhecer quando o café da manhã começou a ser servido junto com as primeiras luzes do dia. O ritmo da festa não desanimava. Ao fim do café da manhã, já com uma música ambiente mais suave os convidados fomos todos surpreendidos com um som inconfundível que invadiu o local. Surgindo de todos os lados o ambiente foi tomado por uma bateria de escola de samba carioca. Completamente fantasiados eles encheram o lugar e fizeram todos se levantar para um carnaval.
Que Gran Finale!

Depois de muita música e animação e com o sol já alto a bateria da escola de samba foi saindo do local levando atrás de si os convidados em direção à rua. Formou-se um bloco de carnaval. A bateria ia na frente tocando alto. Os convidados iam atrás desfilando pelas ruas para surpresa da população. Um delírio. Um casamento inesquecível.
Que não durou seis meses. Nas colunas sociais da cidade apareceram fotos da noiva de biquíni na lancha de um senhor quarenta anos mais velho que ela. Ele estivera no casamento e se apaixonara pela estrela do show.

ATTAC. Uma solução global para a crise.

ATTAC. Association pour la Taxation des Transactions financières et pour l'Action Citoyenne é uma organização internacional, nascida em 1998 na França, inspirada na taxa Tobin.
James Tobin é um economista americano, Prêmio Nobel de 1981, que propôs uma idéia simples: taxar mundialmente as movimentações do capital financeiro em 0,5% e usar a arrecadação em ações contra a pobreza no mundo. Adicionalmente coibir a especulação financeira e desmontar o complexo de paraísos fiscais. Tobin foi membro do board de governors do Federal Reserve System americano e lecionou nas universidades de Harvard e Yale. Um capitalista portanto acima de qualquer suspeita.

O capital financeiro é um animal selvagem, improdutivo e praticamente impossível de controlar na economia globalizada como ela esta configurada atualmente. Ele viaja literalmente na velocidade da luz e especula 24 horas por dia nas principais bolsas de valores do mundo, já que há uma sempre aberta a qualquer momento. Ele pode manter posições de investimento por dias, horas ou minutos. O tempo suficiente para comprar na baixa, vender na alta e deixar o lucro em um paraíso fiscal.

Atualmente entre 1,3 e 1,5 bilhões de dólares se movimentam financeiramente todos os dias ao redor do planeta. Esta movimentação produz praticamente nada. Considere que todo o comércio mundial de bens e serviços entre todas as nações existentes chega a 4,3 bilhões de dólares anuais. Faça a conta: as transações financeiras atingem este volume em apenas três dias. O lucro fica protegido em um dos 55 paraísos fiscais que abrigam 15% do produto bruto mundial.
O capital financeiro desenvolveu produtos sofisticados e complexos difíceis de serem explicados aqui, mas cuja especulação tem efeitos facilmente percebidos como na crise das sub-primes que produziu a maior catástrofe financeira do mundo atual.

Quando não esta especulando em ações na bolsa o capital financeiro está atacando as moedas dos países e pondo em perigo a economia das nações atacadas e a vida de milhões de pessoas.
É fácil atacar uma moeda.
Por exemplo, o Euro: o especulador faz um imenso empréstimo em euros que converte rapidamente em dólares. A venda maciça de euros, o tal empréstimo, provoca uma baixa da taxa de câmbio do euro em relação ao dólar que se valoriza na mesma proporção relativamente ao euro. Considere que durante este processo o euro perdeu 10% do seu valor. O especulador que agora têm dólares revende-os e compra euros cujo valor caiu aqueles 10%. Devolve o empréstimo, paga o juro de alguns dias ou horas e fica com a diferença.

Parece simples demais para ser permitido?
Em 16 de Setembro de 1992, na Black Wednesday, George Soros promoveu um ataque de 10 bilhões de dólares contra a libra colocando o Banco Central britânico de joelhos e quase quebrando a moeda. O próprio Soros conta em seu livro que a operação forçou o banco central a subir a taxa de juros de 10 a 15 por cento e a utilizar quase metade das suas reservas em moeda estrangeira para segurar a libra, mas sem sucesso.O mundo tremeu, a libra quase sumiu, a Grã Bretanha foi ao fundo, teve de se retirar do Sistema Monetário Europeu e Soros ganhou perto de 2 bilhões de dólares no maior ataque especulativo contra uma moeda.

O propósito fundamental da ATTAC é inibir estas movimentações financeiras, coibir os paraísos fiscais e instituir a taxa Tobin. A taxa poderia arrecadar de 50 a 300 bilhões de dólares por ano para serem logo distribuídos nos países menos desenvolvidos.
De acordo com o Banco Mundial existem 1,2 bilhões de pessoas que vivem em condições de extrema pobreza. O PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – calcula que seriam necessários cerca de 40 bilhões de dólares anuais para resolver os problemas de desnutrição, saúde e educação do terceiro mundo. Isso representa de uma a sete vezes menos que a provável arrecadação da taxa Tobin.

1. A Taxa Tobin pode promover um mundo mais justo, produtivo e democrático acelerando o desenvolvimento econômico mundial e trazendo para uma vida digna um quarto da população que habita o planeta.
2. Coibir os paraísos fiscais é essencial para uma economia mundial saudável sem fugas fiscais e sem abrigos seguros para a lavagem de dinheiro do crime organizado. A existência dos paraísos fiscais tem um traço de perversidade ao obrigar empresas decentes a utilizá-los para não perder competitividade e para potencializar seus dividendos. Empresas estatais brasileiras e seus fundos de pensão inacreditavelmente utilizam estes mecanismos de evasão fiscal.
3. É urgente domar o capital não produtivo que transformou o mundo num cassino digital onde a riqueza das nações, empresas e cidadãos se evaporam com um simples ato de compra e venda especulativo. É preciso encarar seu comportamento como actus bellum, pois não é de outra ordem a devastação que ele provoca nas economias nacionais.

A globalização está trazendo grandes benefícios ao aproximar as nações para uma solução conjunta de seus problemas econômicos que de per si é impossível realizar numa economia global absolutamente interconectada. Mas é preciso agir, e rápido. A fera está à solta.

O Mais Poderoso Vírus Já Fabricado

Como você se sentiria se soubesse que duas nações desenvolvidas, proprietárias de alta tecnologia tivessem desenvolvido um vírus terrível para atacar um nação inimiga e que este vírus se espalhou pelo mundo descontroladamente?
Se você respondeu que queria acordar desse pesadelo desista. Você já está acordado e não é um pesadelo.

SCADA (supervisory control and data acquisition) ou Controle de Supervisão e Aquisição de Dados são controladores computadorizados que assumem tarefas pouco complexas, em geral em sistemas de controle industrial, para abrir e fechar válvulas, portas, controlar a velocidade de motores, ligar e desligar semáforos. Não são softwares complexos e em geral são desenvolvidos pelo pessoal de engenharia de produto e não por equipes de informática sendo portanto bastante vulneráveis a vírus de computador.

A maioria da infra-estrutura pesada de um país, como usinas geradoras de eletricidade e suas redes de distribuição, aeroportos, controle dos trilhos de ferrovias, válvulas de oleodutos e gasodutos são controladas, em pontos cruciais, por sistemas do tipo Scada.
A maioria está infectada e não pode simplesmente ser desligada para manutenção e limpeza dos vírus. Dificilmente o governo dos EUA, do Brasil ou mais recentemente o da Índia admitiriam que os grandes black-outs, no colapso de fornecimento de energia, ocorreram por infecção de vírus ou por ataque de hackers. Mas esse ainda não é o pesadelo.

Há dois anos uma empresa de segurança alemã descobriu um vírus superpotente, o Stuxnet. Analisaram e começaram a decifrar seu código em busca de uma vacina. Descobriram que o vírus era extremamente sofisticado e atacava de forma discreta e discriminada executando tarefas muito específicas apenas nos sistemas Scada de controle industrial de sistemas da Siemens, passando despercebido em outras áreas. Estes equipamentos da Siemens estavam sob embargo internacional, mas tinham sido comprados secretamente.

Decifraram parte do código, rastrearam a pista do vírus, identificaram seu objetivo, seu alvo e sua provável origem.
Objetivo Primário: Irã.
Alvo: Usina atômica de Natanz.
Objetivo Específico: Sabotar a usina.
Foco do objetivo: os sistemas que controlam as centrífugas de enriquecimento do urânio usado no programa nuclear.
Origem provável: agencias do governo dos EUA e de Israel.

Gary Samore, coordenador da Casa Branca para Controle de Armas e de Armas de Destruição em Massa disse na época que "nós estamos muito felizes que eles (os iranianos) tenham tido problemas com suas maquinas centrifugadoras e nós, os EUA e nossos aliados, estamos fazendo tudo que podemos para ter certeza que estamos complicando as coisas para eles”.
Em 1 de Junho de 2012 o The New York Times afirmou que o Stuxnet é parte de uma operação de inteligência dos EUA e de Israel chamada Operação Jogos Olímpicos que começou no governo de George W. Bush e foi expandida no de Barack Obama.
A Universidade de Stanford postou um vídeo de 18 minutos no YouTube dissecando e explicando o código do vírus que ela considera como a mais complexa e mais devastadora ameaça circulando na web. O Stuxnet é autoadaptativo e gera mutações.

A criação do vírus e o ataque do Stuxnet tiveram duas conseqüências:
Primeira: o ataque destruiu cerca de mil centrifugadoras, causou um acidente nuclear, a renúncia de Gholam Reza Aghazadeh chefe da organização nuclear iraniana e atrasou o programa nuclear do Irã em pelo menos dois anos. Um sucesso portanto.
Segunda: em conseqüência do ataque à usina de Natanz, muitos computadores no mundo 60% deles no Irã, foram também infectados. Agora o código do vírus está disponível para qualquer um na internet. Os vetores do Stuxnet podem ser copiados, modificados e usados novamente contra alvos completamente diferentes. O código completo do vírus está disponível para download em centenas de sites na internet.

Em termos orgânicos é como se os EUA e Israel tivessem desenvolvido uma arma biológica, usado contra o Irã, causado a doença planejada e agora por conta da infecção a doença se espalhasse pelo mundo.
Até há um ano atrás ninguém conhecia uma ameaça tão agressiva e sofisticada. Ela agora está disponível na internet para qualquer um que queira sabotar ou explodir uma usina, uma ferrovia, um oleoduto, um gasoduto ou um sistema de distribuição de energia. Praticamente de graça, com algum desenvolvimento na adaptação dos códigos do Stuxnet.
Se você está de olho nas 72 Houris ou quer apenas se divertir um pouco tome nota: Stuxnet. 

O Estado do Bem Estar Social Europeu.

Lamentavelmente uma das vítimas mais graves da atual crise européia será e esta sendo o Estado do Bem Estar Social que levou décadas para ser conquistado e instalado na Europa. As medidas de austeridade que precisam ser adotadas vão diretamente de encontro a ele.
Infelizmente uma grande conquista social poderá estar sendo perdida por falta de administração responsável dos Estados, covardia dos políticos que deixaram a situação chegar ao ponto que chegou e oportunismo de parte da população.

É caro manter os benefícios sociais da social democracia? Sim é, e cada vez mais.
Principalmente por que cada vez há menos contribuintes e mais pessoas dependentes do sistema. Isso em conseqüência do aumento da expectativa de vida e da diminuição da natalidade. É um problema aritmético simples. Enquanto havia muitos pagando e poucos recebendo a coisa funcionava bem, agora que a situação se inverteu está complicado manter os benefícios do Welfare State.

Há disparidades que precisam ser revistas. Os ricos alemães trabalham até aos 67 anos enquanto os gregos se aposentam aos 50 com quatro horas de sesta durante o dia de trabalho. Outras situações se tornaram absurdas com o passar do tempo como a dos maquinistas de trem na França que se aposentam aos 50 e poucos anos com uma pensão muito generosa e protegida da inflação.

Acontece que quando os sindicatos dos ferroviários franceses negociaram o pacote de aposentadoria a situação era bem diferente da atual. Os trabalhadores eram tipicamente recrutados nos colégios aos 13 anos para um serviço manual perigoso de conduzir trens a vapor e alimentar com carvão suas caldeiras durante décadas. Ao se aposentar aos 50 anos eles estavam exaustos, doentes e com uma expectativa de vida que raramente passava de mais dez anos.
Hoje os maquinistas trabalham numa cabine confortável e climatizada. O maior esforço manual que fazem é apertar os botões do painel eletrônico e têm uma expectativa de vida ao redor dos 80 anos. Se aposentar aos 50 nestas condições é um absurdo.

Até pouco tempo atrás o Algarve tinha mais alemães que ingleses passando “férias” por lá.
Os casais alemães alugavam suas casas na Alemanha e por muito menos alugavam outra no Algarve. Demitiam-se dos empregos, faziam as malas, pegavam seus Mercedes e iam viver as delícias da costa portuguesa. Lá viviam financiados pelo seguro desemprego, pela diferença entre o que recebiam e pagavam de aluguel e pelo baixo custo de vida em Portugal.

Tenho um amigo que brigou com a filha na Suécia por discordar de seu comportamento.
A menina tem um filho e nunca casou. Ela recebe do Estado um auxílio por ser mãe solteira e mais outro para dedicar algumas horas a cuidar do próprio filho. Por estar desempregada ela recebe seguro desemprego, subsídio de aluguel, subsídio de eletricidade, de gás e de lazer. Não paga transporte público e tem enormes descontos em uma série de serviços. De shows a viagens de turismo.
De vez em quando para preencher o tempo ela faz uns cursos públicos de artesanato, dança ou música, todos naturalmente remunerados. Não tem nenhuma despesa médica, não procura emprego e está louca para se aposentar.
Não há Welfare State que se sustente num cenário como esse.

Em tempo: tenho um amigo holandês que junto com seus vizinhos notou que um deles estava vivendo de todos os benefícios acima e ganhando um dinheiro extra trabalhando informalmente no blackmarket. Reuniram-se todos, foram na casa do sujeito e avisaram: - Ou você volta a trabalhar ou nós vamos lhe denunciar.

Socorro Picasso! A crise na Catalunha.

A Espanha não existe.
Não como um país homogêneo tal como a noção que temos de país-nacionalidade, nem cultural nem politicamente. A Espanha é um Estado de Autonomias formalmente unitário que funciona como uma federação descentralizada, muito mais que o sistema federativo americano ou o pseudo-federativo brasileiro.
  
As regiões autônomas espanholas são autônomas mesmo, e muito. Algumas são brutalmente separatistas e com forte sentimento nacionalista.
Muitas regiões têm suas próprias línguas como o espanhol, catalão, basco e galego, além de dialetos como aragonês e asturiano. Em algumas regiões fala-se até português. A Galícia inclusive faz parte como observadora da comissão de países de língua oficial portuguesa.

As rivalidades internas são tão grandes que há multinacionais que precisam ter duas sedes nacionais, uma em Madri e outra em Barcelona. Um amigo que foi diretor de marketing da FIAT me contava que as reuniões da diretoria eram alternadamente numa cidade e na outra para evitar ressentimentos. E pior: quando a reunião era em Madrid os carros dos colegas de Barcelona apareciam riscados, e vice-versa.  

A autonomia é tanta que há regiões como a Catalunha que têm seu próprio Ministério das Finanças e pasme seu próprio Ministério da Guerra.
E é de lá da terra Gaudí e Picasso que chegam péssimas notícias para o cenário já conturbado da economia européia. A região mais rica e a força motriz da economia da Espanha está quebrada.
Parece até maldição grega.

A Catalunha tem dívidas bem acima de 42 bilhões de euros e se ela apelar ao governo central a margem de manobra financeira do governo espanhol vai pro espaço. Depois de Valência e Múrcia a Catalunha deverá em breve pedir resgate.
Madri não tem de onde tirar dinheiro. O governo central precisa reduzir um buraco de 65 bilhões de euros no orçamento e atingir um déficit de no máximo 2,8% do PIB até 2014. 

Apesar das reformas no serviço público, redução do seguro-desemprego e aumento do IVA de 18% para 21% o país não conseguirá sair sozinho da crise da dívida nem arrecadar recursos suficientes.
O primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy deverá anunciar reajustes e novos pacotes de maldades, numa situação nacional de greves constantes onde até os bombeiros protestaram tirando a roupa numa situação bizarra se comparada com as deliciosas ucranianas.

Até parece maldição grega.
A crise bem entendido, não as bundas dos bombeiros, que como dizem as más línguas lusitanas "ó pá, estes gajos parecem ter fogo é no rabo".

Presente de Grego

A Troika se reúne esta semana.
Será nos próximos dias a reunião da comissão formada pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI  que está inspecionando o cumprimento das reformas econômicas pela Grécia.

Atenas espera por algo em torno de 12,5 bilhões de euros em agosto e setembro mas seus principais credores, a Alemanha e o FMI não estão mais dispostos a colocar dinheiro bom em negócio ruim.
Philipp Rösler, ministro alemão da Economia diz que "se a Grécia não cumprir as condições que negociou, não poderá receber mais pagamentos" e que a falência da Grécia e sua saída da zona do euro "deixou de ser assustador há muito tempo". Os gregos se transformam em seu próprio presente anunciado.

O problema é que os gregos mentem, maquiam os dados, deixaram parados os planos das reformas durante a campanha eleitoral no início do ano e agora eles pedem mais tempo para a executá-las.
Além disso até as pedras da Acrópole sabem que os 130 bilhões de euros do segundo pacote já não bastam para sanar a economia.
Neste cenário Angie não irá novamente ao Parlamento alemão pedir a aprovação de um terceiro pacote grego quando nas últimas decisões parlamentares ela já teve dificuldades para chegar a um consenso dentro da própria coalizão de governo. A população então não quer nem saber dos problemas dos gastadores gregos, nem acha graça alguma trabalhar até aos 67 quando os gregos se aposentam aos 50 anos, com quatro horas de sesta.

O buraco é uma verdadeira tragédia de Sófocles, a dívida do país é 165% maior que o próprio PIB.
A Grécia precisa e espera receber 380 bilhões de euros até 2014. Isso é quase o tripo do que se gastou na reconstrução da Europa e da Turquia após a Segunda Guerra Mundial.
É mais do que o triplo que os 120 bilhões gastos na Reunificação da Alemanha, um gasto que desacelerou a economia européia e quase provocou uma recessão grave. Na verdade para alguns economistas boa parte dos problemas econômicos europeus atuais começou aí.

Na reunificação alemã foi preciso reconstruir integralmente um país inteiro, refazer todas as estradas, fazer autoestradas, refazer toda a infraestrutura inclusive a telefônica, de geração e fornecimento de energia, criar modernos centros industriais e reconstruir praticamente todos os domicílios. Isso para não falar de reformar toda a estrutura administrativa, legal, jurídica, econômica e financeira.
Isso num país que tinha uma população de 17,5 milhões contra os 11 milhões da Grécia. A grande São Paulo tem mais habitantes que a Grécia inteira.

No caso da Grécia a dívida é praticamente da farra financeira, refinanciamentos e gastos com a maquina do governo.
Até 2014 será preciso emprestar a cada grego o equivalente a 87 milhões de reais. É como premiar todos os gregos com uma mega sena de seis em seis meses. A todos, a cada um.
Não há Demóstenes que convença alguém em sã consciência a gastar tanto para salvar um pequeno país cuja população e classe política são percebidos na UE como inconsequentes.

A falência da Grécia e sua saída da zona do Euro mesmo que não desencadeie um efeito dominó dentro da UE terá conseqüências imprevisíveis, nenhuma delas boa, para a economia mundial que já não anda muito bem. A China já não está mais puxando a economia global como fez na última década.
Um ovo da serpente pode estar chocando debaixo das oliveiras. A Grande Recessão teve um gatilho bem menor.

O Prazer Feminino

A emancipação da mulher largamente associada a sua inserção no mercado de trabalho tem pouco ou precisamente nada a ver com uma conquista revolucionária. Aconteceu por uma necessidade puramente capitalista quando a Revolução Industrial precisou de mais mão de obra, e de mão de obra barata, para suas fabricas.

A verdadeira emancipação feminina vem de sua conquista ao prazer, também associada de certa forma a uma inovação tecnológica.
Esta conquista do direito ao prazer, que alterou profundamente as relações sociais, tem no Brasil dois marcos culturais importantes. A exibição do filme Les Amants de Louis Malle e um trecho de Engraçadinha de Nelson Rodrigues.

O filme de Malle causou escândalo principalmente por uma cena de insinuação de sexo oral. O filme criou protestos mundo afora e chegou a ser censurado tanto nos Estados Unidos quanto na então União Soviética.
Aqui no Brasil ele passou surpreendentemente sem cortes, mas gerou protestos indignados. A Igreja chegou a classificá-lo como tendo por único objetivo mostrar “publicamente cena de requintada libertinagem”.

O fato é que o prazer feminino foi para as manchetes dos jornais, para as conversas em familia, enfim tomou as ruas. Nelson, como sempre brilhante, traduziu o espanto masculino numa cena de Engraçadinha onde o juiz Odorico, depois que sua mulher exigiu que ele reproduzisse nela a tal cena, lamenta indignado,
- Essa fita miserável envenenou a imaginação de todo mundo... a família brasileira acabou...os casais viviam tranqüilos e consolidados no seu estável tédio sexual. Fui humilhado, ou melhor: violentado. Eu me violentei!

Estava aberta uma caixa de pandora que desestabilizou completamente a psique masculina que até hoje ainda não se refez completamente. Ao que parece esta nova mulher até agora ainda não encontrou o novo homem que merece.