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As Cores e a Gastronomia de Miranda do Douro

POR TAANIT CORRÊA

A Gastronomia em geral e a regional em particular abrange não apenas a culinária, mas as bebidas, os materiais usados na alimentação e todos os aspectos culturais de uma região como o vestuário, a música e a dança.
Todos estes elementos realçam suas cores, um dos mais fortes componentes da arte gastronômica.

Uma cidade e sua região.
Mirando do Douro, em mirandês Miranda de I Douro, é uma cidade portuguesa do Distrito de Bragança, na região do Alto Trás-os-Montes, que sendo muito única, tem até sua própria língua o Mirândes. Ergue-se imponente na margem direita do Douro que a separa da província espanhola de Castela e Leão e existe como povoado desde a idade do Bronze.
No século VIII, os Árabes conquistaram-na e deram-lhe o nome de Mir-Andul que depois derivou para Miranda. No início do século XII D. Afonso Henriques teria mandado fortifica-la.
Por sua importância estratégica D. Dinis concede-lhe foral em 1286 e no século XVI o Papa Paulo III concedeu-lhe o Bispado de Mirando do Douro. Finalmente a 10 de Julho de 1545 o rei D. João III atribui-lhe a categoria de cidade. 
Sua posição fronteiriça ganhou significado nos diversos conflitos com os espanhóis e franceses e já em 1640 Miranda era a localidade militarmente melhor apetrechada em todo o Nordeste Transmontano. Não obstante foi conquistada pelos espanhóis em 1762 na chamada guerra dos sete anos, ou como também é conhecida, a guerra do Mirandum.
Neste conflito o dia 8 de Maio marcou para sempre a cidade quando o paiol da Praça com cerca de 30 mil quilos de pólvora explodiu matando mais de 400 pessoas. Miranda ficou praticamente destruída e perdeu importância no séculos seguintes.

Os elementos da cultura das Terras de Miranda
Miranda do Douro, eminentemente rural, se destaca pela pecuária, vinicultura e olivicultura. Produz vinhos brancos e tintos como o Pauliteiros, Lhéngua Mirandesa e Ribeira do Corso. Lá é feito o azeite extra virgem da Terra Fria, o Casa dos Pradas.
O concelho tem várias raças autócnes como a bovina Mirandesa, a Churra Galega Mirandesa, a asinina Mirandesa e o cão de gado Transmontano.

Longos e frios invernos seguidos de verões curtos e quentes, quase sem transição, identificam a Terra Fria como de "nove meses de inverno e três de inferno" na expressão popular. O Inverno chega a extremos muito baixos com período de geadas nos meses de Outubro a Maio, deixando-a coberta de branco.
Nos Verões quentes e secos o solo xistoso absorve a água deixando a paisagem verde apesar de árida formando um contraste único e tornando possível uma grande variedade de flora. Umas alimentando os gados, outras utilizadas na mesa como as castanhas e nozes.
As paisagens ficam ainda mais coloridas pelas malhadas, as pastagens naturais de sequeiro usadas no pastoreio de ovinos.

Na Terra de Miranda, e em todo o Planalto Mirandês, ainda hoje se celebram as festas solsticiais de Inverno. São rituais de profundo significado mitológico, ritos de iniciação, mitos do eterno retorno.
A dança típica de Miranda é a dos Pauliteiros, uma dança comum à Península Ibérica que une tradições militares dos povos autóctones, dos greco-romanos, dos medievais e de outros.
Embora a Dança dos Pauliteiros possa ter existido anteriormente terá vindo para Miranda com os repovoadores do reino de Leão.

Posteriormente os povos conservaram estas danças para celebrarem a recolha dos frutos e dos cereais, assim como a passagem dos solstícios de Verão e Inverno.
Os trajos utilizados são militares e constituídos por enáguas (saias) brancas, camisas de linho brancas, coletes com lenços coloridos sobrepostos e chapéus negros com flores coloridas.

O brasão do concelho de Miranda do Douro é constituído por armas de ouro com um castelo vermelho, aberto e iluminado à prata. A torre central é encimada por um crescente de vermelho apontado ao centro do escudo. A Coroa mural é de cinco torres de prata com um listel com os dizeres “Cidade de Miranda do Douro” a negro.
O ouro indicado para o campo heráldico é o metal rico que significa felicidade, constância e poder. O castelo e o crescente são em vermelho que significa vitória, ardis e guerra. E o castelo aberto e iluminado é de prata metal que significa humildade e riqueza. 

O traje regional mais significativo é a Capa de Honra que seria usada quase exclusivamente por pessoas com alto nível econômico. A amplitude da capa de honras indica a capacidade económica do utilizador.
O capuz, com capeto, inteiramente bordado, termina numa larga faixa denominada Honra cujo tamanho é representativo da riqueza e importância do utilizador uma vez que a peça necessita de 10 metros de burel, um tecido de lã pisoado.
O nome Honra não provém unicamente do seu uso por pessoas ricas e nobres, mas por ser muito trabalhada. 
A Capa de Honra era também usada pelos boieiros, que a utilizavam não só como protecção contra o frio e a chuva, mas também para se deitarem sobre ela enquanto andavam nas suas fainas.
Nos dias de hoje ela é indispensável em qualquer tipo de cerimônias.

Na Metalurgia, a arte do Ferro e seus trabalhos foram forjados por uma pleíade de ferreiros anónimos que ao longo do tempo trabalharam os pica-portas das casas mirandesas, forjaram os apetrechos da lavoura, as facas, as relhas, as machadas, os calagoiços, as grades das varandas e muitos dos apetrechos de cozinha.
Na tecelagem a utilização de fibras de origem animal é antiga e provem dos ovinos, que existem na região. Perdem-se nos tempos os saberes de trabalhar a lã pelas mulheres a cardar, fiar, tecer e utilizar nas suas várias formas a lã.

Os sabores da região
Os sabores de Miranda, indubitavelmente agrestes como as paisagens, são fruto de uma cultura de hábitos profanos. Exemplo é a famosa Posta Mirandesa surgida de forma humilde, no instintivo e único gesto de atirar um naco de carne para cima de uma grelha quente, colocando-lhe sal grosso e servido-o em cima de um pedaço de pão caseiro.
Desta forma, e sem atentar muito bem a preciosidade do que serviam, os taberneiros das feiras de gado enchiam o estômago a quem apreciava a boa carne de Miranda.

Como a Posta Mirandesa, os outros elementos da cozinha tradicional são simples, utilizando a carne das raças autóctones da região, não muito condimentadas mas fortes para sustentar e dar força aos trabalhadores que suportam o clima agressivo.
A gastronomia tradicional é composta pela posta de vitela da raça bovina Mirandesa, o cordeiro de raça Churra Galega Mirandesa, enchidos de porco, produtos de caça como perdiz, coelho, javali e lebre e mais as castanhas. Em pratos de peixe está presente o bacalhau e o polvo.
Frequentemente assadas na brasa, estas carnes e peixes apresentam cores fortes e quentes, em tons de castanho e branco, acompanhados por grelos, batatas, castanhas, arroz, pão e cascas, feijão seco dentro das vagens, que acentuam as cores castanhas, exceptuando-se o verde dos grelos.
No fumeiro, podem-se encontrar as tradicionais alheiras, o butelo com cascas, o salpicão e a chouriça.
Na doçaria, são tradicionais as Súplicas, os Sodos, os Roscos e a Bola Doce Mirandesa.

As cores da gastronomia de Miranda
Em todos os elementos culturais e da gastronomia de Miranda estão presentes o vermelho, vários tons de castanho, o preto e branco.

O Branco.
Presente nas geadas do inverno, nas toalhas de mesa bordadas, nos trajes tradicionais dos pauliteiros, no bacalhau, na batata cozida, no arroz e no miolo do pão de trigo, complementa os pratos dando a leveza e frescura que os enchidos e as carnes não dão.
O branco forma um contraste que realça a rusticidade do prato, tradicionalmente servido em barro, a lembrar as geadas brancas em contraste com o solo árido, típicos da região.
Sendo uma região de culturas agrícolas e pastos nela vivem trabalhadores árduos que mantêm as culturas e cuidam do gado. Assim depois de um longo dia de trabalho o branco presente na refeição dá ideia de limpeza e tranqüilidade. A recompensa de um dia de trabalho produtivo e a presença do divino, dando as boas vindas ao descanso.

O Vermelho
Ele é encontrado na carne e nos enchidos, como a chouriça, o butelo e o salpicão, no polvo, no sangue dos animais sacrificados, no fogo que aquece as casas das aldeias e que prepara as refeições, presente nos lenços dos Pauliteiros e no brasão da região.
Esta cor nos pratos dá a ideia de calor e de conforto lembrando as festas tradicionais, como a fogueira comunitária no Natal, ou as bancas de fumeiros presentes nas festas. Todos estes elementos unidos fazem com que este vermelho dê a ideia de comunidade, de união e de tradição. Além da ideia de sustentação que a carne dá em contraste com o peixe que se pensou ser menos nutricional que a carne.

O Castanho
Esta cor está presente nas castanhas, nas nozes, na Bola Doce Mirandesa e na canela da mesma, na alheira, na carne assada, no barro dos utensílios de cozinha, na madeira dos talheres e nas facas de Palaçoulo, nos coletes e sapatos dos Pauliteiros na Capa de Honra. Na batata assada, no pão cozido, no solo árido da região, no azeite. Na madeira das próprias casas, da mesa e dos objectos.
Sendo uma cor natural traz uma sensação de comodidade e conforto, de tradicional e antigo. É a cor dos materiais rústicos e é muito experienciada em Miranda do Douro onde a tradição é respeitada e conservada com cuidado. O castanho à mesa realça os sabores intensos das comidas, mesmo que pouco condimentadas.

Na cultura Mirandesa, o castanho está presente em elementos de honra e orgulho como na Capa de Honra. Esta presente na madeira e nas peles para o fabrico das gaitas de foles e bombos da sua música tradicional e na cor das suas raças autóctones.
Todos estes elementos fazem do castanho uma cor importante na cultura Mirandesa e sua presença nos pratos remete a emoções positivas e acolhedoras.

Cores fortes e escuras, como o Castanho e o Vermelho dão a ideia de que o alimento é mais substancial, que alimenta mais, que é mais pesado.
Uma imagem positiva para os trabalhadores que esperam encontrar um bom prato quente quando chegam a casa depois de um dia árduo nos campos e pastos, e que encontram no branco das toalhas a ideia de limpeza, tranqüilidade e a recompensa de um dia de trabalho produtivo.

TAANIT CORRÊA é formada pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, Portugal.

Delícias Pernambucanas

Café da manhã em Recife.
Primeiro você precisa acordar num domingo de verão em Casa Forte depois de uma noite de farra no sábado com os amigos. Casa Forte é a região do engenho de açúcar da Branca Dias uma heroína do Brasil Colonial no século XVI.

Branca é um dos personagens mais ricos da dramaturgia brasileira em O Santo Inquérito do Dias Gomes. Dina Sfat dizia que ela é tão difícil e complexa de interpretar quanto Lady Macbeth ou Blanche Dubois. Branca foi uma das primeiras mulheres a ser senhora de engenho e a primeira mulher a manter uma sinagoga em suas terras. Cristã nova foi acusada de praticar o judaísmo. Antes de ser presa atirou sua baixela e objetos de prata no açude, as águas tornaram-se claras, hoje chama-se Açude do Prata. Levada a Lisboa foi condenada pela Inquisição. 

Domingo típico. Quente de sol brilhante, intenso de azul profundo. A glorious day.
Saia de casa com seu amor à procura de um restaurante típico, talvez o Parraxaxá, para se entregar a outros prazeres. Mas desfrute com moderação.
Queijo Coalho.
Na entrada fatias de queijo coalho frito. Um queijo de vaca que usa na coagulação as enzimas gástricas da própria vaca. Levemente salgado, sabor ácido e intenso. Era curado originalmente nas traves ou no forro quente das casas logo abaixo do telhado até ficar muito rijo. Branco tem muitos pequenos furos, menores que num Emmental, derrete como um Raclette, frito em manteiga forma uma crosta marrom crocante. O queijo é um precioso achado gastronômico, imperdível teria uma appellation d'origine contrôlée na Europa.

Charque.
Sirva-se de pequenos pedaços de charque (jabá, carne seca, jerked beef) bem frita acompanhados de macaxeira (aipim, mandioca) cozida e bem macia regada com manteiga de garrafa (manteiga liquefeita). Um crime contra o colesterol, uma benção para o paladar. A charque levemente salgada e crocante contrasta com a maciez da macaxeira. A manteiga de garrafa completa o sabor umedecendo a macaxeira.

Agora vamos ao Cuscuz.
Trazido pelos escravos muçulmanizados do Magreb no norte da África aqui ele se adaptou. No cuscuz a sêmola de trigo foi substituída pelo farelo de milho. O carneiro substituído pelo bode. O farelo de milho é mais forte e saboroso que a sêmola. O bode ainda mais saudável que o carneiro é uma das carnes vermelhas com menos colesterol que existe. Mas quem está preocupado com estas taxas? O bode é guisado (ensopado, cozido) em um molho forte de alhos, cebolas, tomates, coentros e pimenta. Coloque o molho por cima do cuscuz.

Chegou a hora do Sarapatel. Pule esta parte se você não estiver preparado.
Uma delícia portuguesa trazida do Alto Alentejo servida no Natal pela época da matança do porco (*). Na Ilha da Madeira tradicionalmente é a primeira refeição do dia. Feito de sangue e miúdos do porco é um prato forte, escuro, de sabor muito intenso. Primeiramente lavado com limões aqui ele é guizado com pimentões, hortelã, cebolinha verde, coentros, cebolas, tomates, pimentas-de-cheiro, alhos, cominho e louro. Em Goa na Índia acrescenta-se açafrão e canela.
Sirva-se com um pouco de farinha de mandioca, umas gotas de limão, machuque umas pimentas-de-cheiro.

Agora a sobremesa. O Bolo de Rolo.
Uma delícia que já foi tombada como patrimônio cultural e imaterial pelo Estado pernambucano. Originário do Rocambole francês e do Colchão de Noiva português aqui ele se adaptou e virou um doce fantástico.
Feito de farinha de trigo, ovos, manteiga e açúcar ele tem muitas camadas, muito finas, intercaladas de goiabada derretida, enroladas uma por cima da outra. O bolo de rolo exige muita experiência, perícia e uma enorme paciência pois cada camada tem de ser assada no forno de per si, retiradas cuidadosamente da assadeira, esfriadas, cobertas com a goiabada derretida e sucessivamente enroladas nas camadas anteriores. Um trabalho enorme que vai recompensar seu paladar. Você vai repetir com certeza.

Bem convenhamos que já está na hora de parar, respirar fundo e voltar.
Chegando em casa ligue o ar-condicionado e se deixe levar por maiores delícias pernambucanas. Desfrute sem moderação. Você está tendo uma manhã de Graça.

(*) Vide a festa alentejana d' O Porco é o Tesouro em
 www.camaracorrea.com/2012/05/o-porco-e-o-tesouro.html

Comidinhas Para Depois Do Amor

Vinícius de Moraes diz que é preciso além de se sagrar cavalheiro e de ser de sua dama por inteiro, deve-se também saber fazer umas coisinhas. Umas comidinhas pra depois do amor.
Lá vai uma sugestão.

Mousse de Gorgonzola.
Ingredientes:
150g de Gorgonzola ou Dancheese, 1/2 xícara de manteiga sem sal, duas colheres de sopa de creme de leite, 1/3 de xícara de castanhas de caju torradas sem sal.
Preparo:
Faça no processador um purê com a manteiga e metade do queijo, coloque este purê numa terrina e por cima o resto do queijo, a pimenta e metade das castanhas.
Misture tudo e deixe na geladeira por duas horas. Para servir tire da forma e jogue o restante das castanhas por cima.
Mantenha na geladeira por que mais tarde você vai precisar ter à mão. Acompanhe com pão.

Depois dessa entrada, impressione-a com camarões flambados. Chamas são sempre belas e vão combinar com os momentos depois do amor.
Camarão à Taanit.
Ingredientes:
500 g de camarões médios descascados, 2 doses de Cognac, 1 colher de sopa de manteiga sem sal, 1 xícara de creme de leite, 1 dente de alho picado muito fino, sal e pimenta a gosto.
Preparo:
Limpe, lave e deixe os camarões por 5 minutos em suco de limão.
Lave-os novamente e seque-os bem.
Derreta a manteiga em fogo baixo e frite o alho ligeiramente. Aumente o fogo e quando a manteiga estiver bem quente deite os camarões. Vire-os apenas uma vez.
Quando estiverem no ponto - nunca passe de cinco minutos - acrescente o Cognac e flambe.
Após as chamas se apagarem coloque o creme de leite, mexa e sirva imediatamente. Acompanhe com arroz branco, feito só em água e sal.

Sem sobremesas.
Faça a doçura ficar por conta de novos beijos e depois, e assim revigorados, é só se entregar a mais um pouco de amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada. Para viver um grande amor. (V.M.)

Paul Bocuse na Bahia

Paul Bocuse é uma das maiores lendas da história da Gastronomia, criador da Nouvelle Cuisine, condecorado com a Legião de Honra por serviços prestados à França.

A Air France criou na década de 70 a cadeia de hotéis Le Méridien. No Brasil ela inaugurou dois, um no Rio outro em Salvador. Eles faziam parte da estratégia de criar uma infra-estrutura à altura de hospedar os passageiros do caríssimo supersônico Concorde. 
Para criar as boates dos dois hotéis foi escolhida Regine Choukron. A Bocuse foi dada a missão de criar os restaurantes.

Regine Choukron, dona da noite parisiense, que tinha boates em Paris, Nova York e Monte Carlo aqui criou duas Regine´s. Numa das inaugurações Charles Aznavour foi a atração. Ninguém menos que Danuza Leão comandava as boates, o que lhe valeu uma capa na Veja como A Grande Dama da Noite. Regine eventualmente dava os ares de sua graça.
As boites eram excelentes, caras e o público, sócios com carteirinha, rigorosamente selecionado. Perguntaram a Jorginho Guinle, ícone dos playboys brasileiros, se não achava um absurdo que uma simples coca-cola custasse dez vezes mais no Regine’s do que o preço normal.
- De jeito nenhum, acho ótimo. Assim os chatos ficam do lado de fora.
Os Le Méridien definitivamente não eram lugar para chatos.

Bocuse criou os restaurantes Saint Honoré dos hotéis. Ele havia criado a Nouvelle Cuisine que valoriza os sabores naturais, servidos em pequenas quantidades, em arranjos que davam aos pratos a aparência de jóias. Muitas vezes com preço de jóias.
No primeiro vôo do Concorde da Air France o menu foi assinado por Bocuse. Foi ele quem criou a Soupe Aux Truffes para um jantar presidencial no Champs Élysées, uma revelação divina de trufas negras que depois ficou conhecida como Soupe VGE, em homenagem ao presidente Valéry Giscard d’Éstaing. Bocuse na época já era uma estrela badaladíssima do jet set. 

Em 1975 ele foi condecorado como Commandeur de la Légion D’Honneur, honra que a França reserva a seus heróis. Considerado o cozinheiro do século XX a biografia de Bocuse muito apropriadamente se chama O Fogo Sagrado. Um fogo tão intenso que ao ser acusado de poligamia Bocuse se defendeu,
- Sou fiel a três mulheres. Filósofo extremo de la joie de vivre ele diz que,
- Trabalho para viver 100 anos e festejo como se a morte estivesse a minha espera amanhã.
Uma senhora deleitada com sua arte derramou-se em elogios, ao se despedir pediu-lhe o cartão de visita. Bocuse modestamente respondeu,
- Não tenho cartão. Meu nome está nos guias de culinária.

Bocuse completou mais de quarenta anos ininterruptos com três estrelas Michelin em seu restaurante L’Aubergue du Pont de Collonges, em Collonges-au-Mont-d'Or, uma façanha jamais conseguida por nenhum cozinheiro vivo. Ou morto. Nem mesmo pelo vaidoso Bernard Loiseau que se matou ao saber do boato que seu restaurante iria perdeu uma delas.
Este herói, este artista, esta força da natureza inaugurou os dois restaurantes Saint Honoré dos Le Méridien do Rio e de Salvador. Ele vinha ao Brasil periodicamente para fiscaliza-los, corrigi-los e trocar seus cardápios. Nestas visitas ele comandava jantares de degustação, com menus confidence, que inevitavelmente terminavam com os clientes emocionados aplaudindo de pé.

Numa dessas vindas a Salvador durante um jantar, em meio à degustação daquelas obras-primas um cliente baiamente pediu pimenta. Isso mesmo pimenta. Molho de pimenta daqueles de colocar em moqueca. Não havia claro.
O garçom se desculpa, diz que não há. O homem insiste. O garçom se desculpa. O maître aparece. O homem insiste. O maître delicadamente explica a natureza da degustação. O homem se enerva. Alvoroço. O homem insiste. Ele quer pi-men-ta. O maître tenta contornar  a situação. O homem está irredutível, ele quer pimenta, ele está pagando. Pa-gan-do.

Bocuse aparece, surge da cozinha, se espanta com a confusão. Providenciam um tradutor, ele conversa com o homem. Mas o homem está pa-gan-do, ele quer pi-men-ta.
Enfurecido o monstro sagrado retirou-se ofendido do salão decidido a jamais voltar a pisar nas terras do Senhor do Bonfim.

Um Canibal Gourmet.

Eindhoven é uma cidade no sul da Holanda fundada em 1891 por Anton e Gerard Philips, criadores da multinacional de eletrônicos Philips. Eles fundaram a cidade para ser o centro da empresa e  um pólo de desenvolvimento tecnológico e econômico.

E foi o que realmente aconteceu, a cidade hoje é um importante centro industrial, de serviços e de pesquisa. Anton era um visionário capitalista, primo distante e amigo imagine de quem: Karl Marx.
No museu de Eindhoven existe um exemplar raro do Das Kapital, a obra fundamental do marxismo, autografada e oferecida a Anton, um grande capitalista, por Marx, um grande marxista.
Gente fina é outra coisa.

Tenho um grande amigo holandês, o Gary Bergman que nasceu e mora em Eindhoven.
Até aqui tudo bem, mas agora entra em cena o João Ubaldo Ribeiro e seu romance histórico Viva o Povo Brasileiro de 1981. Entre outras coisas João Ubaldo conta que na Ilha de Itaparica, na Baía de Todos os Santos, havia uma tribo de canibais. O detalhe delicioso é que o chefe desta tribo além de canibal também era um gourmet. Ele não gostava de qualquer carne.
A dos espanhóis achava azeda. Também não gostava da carne dos portugueses que achava gordurosa. Seu delicado paladar preferia carne de holandeses. Um canibal refinado, um gourmet.

Por conta desta sofisticação gastronômica ele guardava seus prisioneiros holandeses para ocasiões especiais. Mantinha-os presos e os engordava. Além disso ele tinha preferências especiais: o que ele gostava mesmo era das pernas. Fazia com elas uns presuntos defumados muito especiais, deliciosos. Uma espécie de Parma tupiniquim.
Mas como tudo no Brasil termina em samba, aconteceu que um desses holandeses que estava sendo engordado para uma ocasião especial acabou sendo alvo da paixão da filha do chefe. A indiazinha de tanto alimentar o holandês em seu cativeiro, de tanto conviver com ele se apaixonou pelo alimento, digo pelo pobre rapaz.
Um dia ela acabou implorando ao pai que não o comesse,
- Papai por favor não coma este. Deixe-o para mim.

Gary e eu estávamos em um restaurante charmosíssimo numa pequena vila próximo de Eindhoven. Uma casa pequena e antiga onde havia morado uma namorada do pintor impressionista Vincent van Gogh. Tomávamos uns uísques antes de jantar, conversávamos sobre a obra de Van Gogh, do namoro conturbado dele com a antiga dona da casa.
Gary muda de assunto:
- Houve um período curto de colonização holandesa no Brasil?
- Sim, é verdade Gary, curtíssimo. Foram menos de vinte e cinco anos. De maior importância foram apenas sete anos, durante o período de Nassau.
- Esta presença ainda é lembrada?
- Em algumas regiões do nordeste do Brasil ela chega a ser admirada.
- Então os brasileiros gostam dos holandeses?
- Sim, muito. Muito mais do que você possa imaginar.

Com nossos cardápios nas mãos, enquanto escolhíamos os pedidos, contei-lhe a história dos presuntos holandeses de Itaparica,
- Como você pode ver nós brasileiros gostamos muito de holandeses.
Gary engoliu em seco:
- Perdi a fome.

Baguettes, Pizzas, Fogazzas.

Adoro pão. Principalmente com manteiga ou azeite. Parece simplório, mas há centenas deles para experimentar. Mais de 250 na França, mais de 400 na Alemanha. O que mais gosto é justamente o mais comum, a baguette francesa.

Próximo da Côte D’Azur a poucos minutos de Cannes há uma pequena vila medieval, Mougins. Pronuncia-se mujã. A vila não tem mais que vinte mil habitantes. Jean Cocteau, o cineasta, Winston Churchill e Christian Dior eram assíduos. Picasso passou lá seus últimos 15 anos de vida. O Mediterrâneo à frente, os Alpes de um lado, a Provence do outro. Mougins é idílica, colorida, perfumada, cercada de campos de flores e florestas.

A vila tem muitas galerias de arte, restaurantes fantásticos, a melhor culinária provençal no Moulin de Mougins. Mas para mim Mougins tem algo a mais. O Hotel de Mougins na Avenue de Golf. O hotel é charmosíssimo, todo ele térreo, as suítes com varandas voltadas para os jardins interiores. O hotel guarda um segredo, uma delícia, um pecado. O melhor pão que já provei em toda a Europa.

Durante dias, no café da manhã, eu quase acabava com as baguettes do hotel.
Minha mulher não entendia como eu podia deixar de degustar uma mesa fartíssima de bolos, crepes, presuntos, salames, queijos, patês, tartes, quiches e mais uma montanha de iguarias francesas. Só tinha olhos, digo paladar, paras as baguettes. Sabia que tudo o mais poderia encontrar em outros lugares mas aquelas baguettes eram únicas. O garçom estranhava. Minha mulher se horrorizava.

Pior aconteceu muito tempo depois em outra viagem, em Gênova com umas fogazzas.
Estávamos de passagem vindo de Saint Moritz em direção a Nice. Ficamos em Gênova apenas um dia para jantar numa pizzaria famosa numa escarpa na Via Quarto ou Quinto, debruçada no Mediterrâneo. Também havia o Pesto, o original, o liguri. A região de Gênova Pra a Gênova Pegli tem a terra e as condições ideais para o manjericão atingir o perfeito equilíbrio de perfume e sabor.

Ainda não chegamos nas fogazzas, ainda estamos nas pizzas.
Estamos todos, mulher e crianças na pizzaria. Enquanto discutíamos o cardápio um senhor se aproximou curioso. Calado nos ouviu por um momento, sorriu e foi embora.
Logo o som ambiente que estava baixo ficou mais alto. Começou a tocar um samba, um enredo de escola de samba. Mais precisamente da Portela.

O tal senhor retorna sorridente e se apresenta como o dono da pizzaria.
Um italiano que tinha vivido o suficiente no Rio para ali mesmo na nossa frente, na frente das crianças, sem a menor cerimônia se emocionar. Sem nenhum recato se confessou Portelense fanático. Sem nenhum constrangimento, ao saber que sou carioca, sentou-se à nossa mesa. Ao saber que também torço pela azul e branco me levantou da cadeira. Sem o menor pudor me abraçou, pediu para jantar conosco.

O homem estragou nosso jantar. Destruiu nossa noite.
Pedia pizzas e mais pizzas, calzones, cornicciones, cobellettis, especialidades, azeites raros da Ligúria. Dava gritos e mais gritos para o pizzaiolo que estava comandando o forno aberto. O que era para ter sido uma noite tipicamente italiana, à beira do Mediterrâneo, comendo pizzas e pastas al pesto se transformou num desfile de sambas da Portela.
Mas afinal talvez tenha sido uma noite tipicamente italiana. Emotivamente italiana.

Mas vamos às fogazzas.
Na manhã seguinte fomos bem cedo tomar café da manhã no restaurante do hotel. Tínhamos pressa para pegar a estrada para Nice. É perto, uns duzentos quilômetros, mas queríamos parar um pouco em Mônaco antes de chegarmos na hora do almoço num daqueles restaurantes populares, de pescadores, lá em Nice.
Fomos nos servir. Vi uma bandeja com massa assada de fogazza. Experimentei em pé mesmo. Uma perdição. Repeti tantas vezes que a fogazza acabou.

O Chef, visitando o salão, ao notar a bandeja vazia fez uma cara estranha. Como só havíamos nós acho que ele duvidou que tivesse servido a fogazza. Trouxe mais. Elas acabaram novamente. O pobre homem estava desorientado. As fogazzas desapareciam misteriosamente.
Acabei sendo pego em flagrante. Ele riu satisfeito.

Queijos

Nenhuma casa pode ser considerada minimamente civilizada se não abrigar pelo menos nove tipos de queijos, sendo o Camembert, o Emmental, o Gouda, o Parmesan, o Boursin e o Roquefort essenciais. Os outros dependem de preferências pessoais, regionais, sentimentais, patrióticas, amorosas, religiosas. O mínimo ideal são onze.

Não confie em ninguém que não saiba explicar com sinceridade pelo menos doze deles. 
Estas escolhas refletem, mais e melhor que as escolhas políticas ou religiosas, o carácter dos indivíduos. Antes de se enamorar, fazer negócios ou votar em alguém investigue quais os queijos que orientam sua vida. 

Se um dia, abençoado com certeza, você encontrar alguém que compartilhe pelo menos uns treze entregue-se sem restrições. 
Abra seu coração, abra sua conta bancária, abandone seu psicanalista, dê a senha do cartão de crédito, compartilhe seu e-mail, cancele suas assinaturas, saia do facebook, não volte para a balada. Compre outro travesseiro, não feche mais a porta do banheiro. Você será feliz para sempre.
Você encontrou a alma gêmea em que poderá confiar por toda a eternidade.

O Porco é o Tesouro

A Matança do Porco no Alentejo. O ritual de abate do porco no Alentejo é milenar. Acontece no inverno do início de Dezembro a meados de Fevereiro. O frio espanta os insetos, ajuda na conservação das carnes e dá o aconchego que o vinho completa.

Salgadas ou defumadas as carnes serão transformadas em presunto, linguiça, chouriço, paio, morcela, farinheira e cacholeira. Elas serão o sustento ao longo do ano.
A matança é uma grande festa onde se reúne a família, parentes e amigos. Após o porco ser desmanchado dá-se o prato. Também se leva carne, miúdos e sangue para os vizinhos que não compareceram. Depois se recebe o mesmo de volta cada vez que um deles promover uma matança.

Como toda boa festa ela começa na véspera.
O porco é deixado de jejum desde a véspera para limpar as entranhas. Ele passa a noite preso a uma árvore. No começo da manhã um grupo de homens o tira dali, o imobiliza e o deita numa mesa baixa. Chega então o Matão.
Com habilidade ele crava solenemente uma faca longa e fina no pescoço do porco direto na jugular. Um alguidar de barro é colocado ao lado da cabeça do animal para se encher do sangue que será usado em muitas receitas.

Abatido o animal retira-se o pelo.
Colocam-se ramos de ervas sobre seu o corpo e ateai-se fogo com cuidado para não queimar, apenas chamuscar. Depois se raspa o pelo com uma faca e lava-se o porco com muita água.
Depois ele é pendurado no galho de uma árvore. Abre-se sua barriga e retiram-se os miúdos e as tripas. Só então o porco é pesado para se pagar ao vendedor. Esta limpeza é feita pelas mulheres da casa. Elas é que depois vão servir os enchidos, defumados em varapaus junto às chaminés das lareiras.

É chegado o momento dos homens descansarem, comerem e beberem.
Eles extraem a papada e as molejas - o toucinho que vai do pescoço ao peito e o timo - que são assadas com sal e alho. Elas serão degustadas com pão, azeitonas e um copo de vinho tinto na mão. À partir daqui as mulheres começam a preparar o almoço. Toucinho frito e sopa de cachola. A sopa é feita com os miúdos e sangue, temperada com vinagre, alho, cravo e cominho e servida no prato sobre uma fatia de pão.
Á noite já há defumados prontos para serem degustados com mais vinho.

No dia seguinte faz-se a "desmanchação" do porco que é cortado ao meio. As pernas dianteiras são para os cozidos, paios e enchidos. As traseiras para os presuntos. As carnes com mais sangue irão para os chouriços. As magras, acrescidas de gordura, vão para as lingüiças. A costela, o entrecosto e o lombo ficarão dois dias em alguidares, temperadas com sal, alho moído, massa de pimentão e água fria, antes de irem ao fogo. Aproveita-se tudo do porco inclusive a cabeça e os pés. Orelhas, língua, nariz e rabo são deliciosas iguarias.

São quase três dias de festa. Filosofa e canta o povo alentejano:
A vaca é a nobreza
A cabra é a matança
A ovelha é a riqueza
Mas o porco é o tesouro.

Presunto Serrano.

Perto da esquina da minha rua, Nascimento Silva com Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, em Ipanema,  havia um boteco. Um boteco naturalmente de portugueses, como os verdadeiros botecos do Rio. Quando recebia minha mesada, que na verdade era dada por semana, a primeira coisa que eu fazia no sábado de manhã era ir lá no tal boteco comer sardinhas.
O portuga – no sentido carinhoso da palavra é claro – que era da Serra da Estrela tinha na parede um quadro de Portugal.

Ele parecia gostar daquele garoto de 14 anos que gastava parte da mesada no balcão. Apenas parte, por que a maioria do dinheiro eu gastava em álbuns de coleções de arte na banca de revistas.
Por coincidência o dono da banca também era um português, vindo de Angola, refugiado da inútil guerra colonial. Este gajo, que fora oficial da tropa, me contava estórias incríveis da guerra dos portugueses contra os pretos angolanos. Pretos aqui não tem nenhum sentido pejorativo, pretos mesmo é assim que lá se fala. Eu ficava fascinado com as estórias.

Mas o papo é sobre o boteco.  Um dia quando pedi ao portuga uma tosta mista (misto quente) ele disse,
- O fiambre acabou.
Fiambre é como os portugueses chamam o que aqui chamamos de presunto. 
- E agora? 
- Bem se quiseres te faço uma sandes (sanduíche) com um presunto português que recebi da minha terrinha. 
- Ok vou experimentar. 
Ele fez. Que delícia, que descoberta. Mais escuro, mais consistente, mais salgado, mais saboroso. Nas fatias finas a gordura entremeada na carne se desfiava na mordida. Um sabor intenso, forte, inesperado.
Ele me olhava sorrindo enquanto eu me deliciava. 
- Então, gostastes? 
- Maravilha! 

Muitos anos depois quando me mudei para Portugal sempre me lembrava do portuga da esquina quando comia sardinhas. Lembrava mais ainda quando comia Presunto Serrano e quando descobri o divino Queijo da Serra lá da terrinha dele.
Hoje, tendo voltado há tantos anos para o Brasil, Portugal é como o quadro na parede daquele boteco. Mas como dói.

Harumaki

Jantei à pouco, aqui em Sampa, num restaurante chinês perto aqui de casa que estava quase lotado.
Do salão avistava-se a cozinha. Dentre os cozinheiros, garçonetes e clientes que enchiam o restaurante eu era o único ocidental. Não se ouvia uma única palavra em português.

Ao meu lado uma grande família jantava numa mesa enorme, daquelas que tem no centro uma base giratória onde estavam, e circulavam, muitos pratos. Uma festa para os olhos.
Todos no restaurante comiam com hashi e chawan, eu inclusive. Menos um irritante adolescente, certamente um revoltado, que comia em um prato. Eu disse: ele comia em um prato. E mais, usando garfo. Usando faca. O garoto estava armado!
Pior, horror dos horrores, o desajustado, o rebelde, segurava o harumaki com um guardanapo de papel! Sampa corrompe.

Episioplastia

Durante o período em que estudei Medicina dei plantões na maternidade do Hospital Manoel Vitorino em Salvador durante dois anos. Adorava fazer partos. Dava meus próprios plantões e ainda cobria alguns colegas. Às vezes passava três dias seguidos no Hospital.

Meu dia era o de Quarta-Feira no plantão de Dr. Manoel Bonfim, um dos melhores obstetras da cidade, catedrático da universidade e professor visitante de uma universidade americana. Bonfinzinho gostava muito de mim, me ensinava tudo, confiava muito e praticamente me entregou o plantão.
- Só me chame se for absolutamente necessário.

As instalações eram muito boas, confortáveis e tinham uma atração improvável. O hospital tinha uma Chef excelente. Havia especialidades dela famosas no meio médico, as moquecas, a feijoada, a bacalhoada, o pernil de porco com feijão tropeiro. O diretor, que era seu fã, liberava o orçamento da cozinha. Um restaurante gourmet, de culinária regional, dentro de um hospital público. 
Sexta-feira era o dia de um cozido considerado um dos melhores da cidade. O restaurante do hospital ficava abarrotado do pessoal da casa e pasme, de seus convidados.

Eu fazia partos e mais partos, devo ter feito mais de 500, com o maior prazer. As pacientes me adoravam, eu gostava muito do que fazia, era atencioso, paciente e carinhoso com elas. Fascinado com o milagre de ver uma vida nascer em minhas mãos. Obstetrícia é uma especialidade privilegiada que lida mais com a vida do que com a morte. Esse era o fascínio.

Certo dia fiz o parto de uma moça jovem e bonita. Muito simpática, alegre, tinha menos de trinta anos, era plurigesta, já estava no quinto filho. Todos os partos anteriores tinham sido naturais, as episiotomias e episiorafias tinham sido feitas sem muito cuidado, a musculatura do períneo estava bastante comprometida. Enlarguecida, muito aberta. Uma pena numa mulher tão jovem.

Depois do parto lhe disse que, apesar do procedimento não ser permitido, eu iria lhe fazer uma episioplastia, uma plástica de reconstituição vaginal. Um serviço que o hospital por ser publico não oferecia. Pedi que ela voltasse dentro de um mês. 
Um mês depois ela voltou. Brinquei, perguntei de que “tamanho” era o marido. Ela disse normal. Perguntei se era normal grande ou normal pequeno. Ela riu meio sem graça e fez um gesto com as mãos. Fiz a plástica.

Fiz com cuidado e paciência, reconstituí o períneo o melhor que pude. Apesar de não ser necessário, um verdadeiro exagero, suturei a camada cutânea com fio seis de cirurgia plástica, para não ficar nem mesmo uma leve cicatriz. A moça ficou quase virgem. Terminei, recomendei que não “brincasse” por quatro semanas e ela foi embora agradecida.

Uns dois meses depois uma enfermeira me chama dizendo que havia uma mulher na recepção me procurando, querendo falar comigo. Fui até lá. Era uma mulher jovem, bonita, que não reconheci imediatamente. Ela se aproxima sorridente com um presente nas mãos. Era a moça da episioplastia.
- Doutor o senhor salvou meu casamento. Meu marido não parava em casa, saía toda noite, chegava tarde. Agora não me dá sossego.

Jiaozi, Gyoza, Pastel

Estava no skype com o Klaus, meu filho que vive em Lisboa, tentando lhe explicar o que é um pastel. Um pastel brasileiro é claro, já que há pastéis e pasteles na península ibérica mas que são coisas bem diferentes.
Os portugueses têm o Pastel de Belém e o de Natas, mas eles têm o formato do que aqui no Brasil é uma empada. Eles também têm o Pastel de Bacalhau, mas esse tem o formato de um croquete, de um bolinho. Nada a ver com o nosso pastel.

Muitos pratos têm origem gastronômica diferente do local de sua criação.
O chop suey que todos associamos como prato típicamente chinês é na verdade americano. Criado pelos trabalhadores chineses durante a construção das estradas de ferro durante do período do faroeste. É gastronomicamente chinês em sua concepção mas é americano de nascimento. O mesmo acontece com nosso pastel, fruto de uma longa e interessante viagem.

Primeira parte da viagem. Da China para o Japão.
O pequenino Jiaozi chinês foi levado para o Japão pelos soldados japoneses que lutaram na guerra da Mandchúria. Chegando ao Japão o Jiaozi virou Gyoza. O guioza se popularizou muito e hoje é típico da culinária japonesa tanto cozido, servido em caldos, como servido frito.

Segunda parte da viagem. Do Japão para o Brasil.
O guioza foi trazido para o Brasil pelos japoneses que chegaram a São Paulo na década de 40. Aqui eles o adaptaram ao paladar brasileiro, mudaram o recheio, colocaram cachaça na massa (*), fritaram e eis que nasce o pastel em Santos, São Paulo.
Na década de 50 ele chega ao Rio e Minas. Na década de 60 chega ao sul do país e daí pra frente virou mania nacional. Virou até gíria.

Naturalmente como tudo nesta terra ele cresceu, tanto em tamanho quanto na variedade dos recheios. Cresceu tanto que agora é servido por unidade, virou uma refeição. Cresceu tanto que existem dois tamanhos. Um grande chamado de “normal” e um normal chamado de “mini”. Imagine se criarem o grande.

O recheio era só de carne, mas agora há sabores do mar, vegetarianos, italianos, portugueses, franceses, nordestinos, chineses, árabes, de frutas, de chocolate e mais outros tipos doces. O recheio que era só um, agora já está na casa dos cinqüenta. Há até quem pense em criar um pastel sabor Guioza.
Tipicamente o pequenino jiaozi era servido apenas com molho shoyu. Tipicamente brasileiro agora seu neto é acompanhado com vários tipos de pimenta, mostarda, ketchup, maionese, azeite, molho vinagrete, molho de azeitona, de alho, tártaro, tahine, doce de leite, canela, açúcar, etc.

Pastel é isso, Klaus, não se faça de pastel.

(*) a cachaça é adicionada, assim como na pizza brasileira, para deixar a massa mais crocante.

Pastel de Feira

Fui com amigos a uma feira em Sampa saborear um dos achados gastronômicos de rua da cidade, o Pastel de Feira.
Uma delícia como quase todas as comidas de rua mundo afora. Além da receita tradicional de carne há dezenas de variações. O único problema é o tamanho, enorme. O jeito é pedir o mini, que na verdade é de um tamanho digamos assim, normal.

Sábado ensolarado, fomos a uma feira na Liberdade tradicionalmente um bairro japonês da Paulicéia. O encanto não é apenas o pastel de feira, é a própria feira. Ou mais precisamente quem está na feira.
Naturalmente há muitos japoneses e os mais recentes nordestinos. Vê-se de tudo nesta terra brasilis por excelência. Recém chegados ou descendentes de coreanos, chineses e italianos. Gente morena e gente muito branca. Narizes judeus, olhos asiáticos, peles africanas, brancuras arianas, texturas indianas, rostos eslavos.
E certamente chama atenção a miscigenação de tudo isso, numa mistura bonita, sexy, pacífica, inspiradora. Fundamentalmente humana, desvairadamente humana. Muito além da mistura básica de português, índio e negro que começou esta babel brasileira. Muito além dos horizontes de preconceitos que fazem sangrar outras terras.

Roddenberry iria adorar essa receita de Freyre servida na casa de Oswald.
É exatamente nisso que está o encanto desta megalópole improvável, surpreendente, instigante. Todas essas raças e etnias prosaicamente comendo pastel de feira num sábado ensolarado, no lado de baixo do equador. Não há como não se emocionar com esta probabilidade que aqui é real de ver judeus, palestinos e alemães comendo juntos e em paz um banal pastel de feira.

Mas me aconteceu algo mais, algo muito maior.
De repente vejo mulheres muçulmanas, de vestidos longos e véus na cabeça andando na feira. Lembro então que a França, berço da libertè, egalitè e fraternitè, proibiu as mulheres de usarem véu, hijab, niqab, chador ou burca. Mas aqui, enquanto como um simples pastel de feira, numa despretensiosa feira de Sampa, vejo toda essa gente diversa em harmonia.
Ainda bem que o dia estava ensolarado e eu de óculos escuros.

Brunch to Kill

Hoje é domingo, dia de Brunch.
O brunch – breakfast + lunch – é um das idéias mais interessantes que conheço. Pelo menos na Inglaterra foi adotado como uma forma de manter o hábito de continuar a tomar um café da manhã substancial nestes dias modernos.
Como durante a semana já não é possível ficar tanto tempo à mesa pela manhã para o breakfast tradicional transferiu-se o prazer para o sábado ou o domingo.
Dorme-se até mais tarde e a primeira refeição do dia junta o café da manhã com o almoço. Se ganha tempo, desfruta-se de uma ótima refeição e convive-se mais em família ou com os amigos.

Antes de me mudar para lá, quando eu tinha uma reunião de trabalho em Londres eu sempre as marcava para as segundas-feiras para incluir na viagem um fim-de-semana de lazer. Já tinha meus hotéis preferidos, escolhidos justamente pelo brunch. Em matéria de brunch, com exceção dos hotéis alemães, nada como um bom hotel inglês.
A explicação é simples. Como a comida inglesa é péssima, bizarra, os hotéis ingleses além de seu cardápio tradicional precisam servir o cardápio Continental para atender os clientes de fora. 
Comida inglesa é bizarra? Põe bizarro nisso. Que outra palavra se aplicaria melhor para o tradicional beans-on-toast? Uma torrada, coberta com feijão cozido em molho de tomate adocicado, com um ovo frito por cima. Isto mesmo: pão, feijão doce e ovo frito. Argh.

Voltando aos hotéis ingleses, as opções do menu portanto duplicam. Você tem o menu local, de peixe frito, muitas salsichas, batatas fritas, saladas, presuntos, bacon, aves, fígado, ovos, os quatro tipos de cheddars, outros queijos e o divino Honeyham. E ainda mais o menu continental de geléias, queijos, presuntos, biscoitos, frutas, diversos pães, cremes, tortas, bolos e croissants. Além é claro do que a imaginação do Chef preparou.
Uma farra, principalmente para mim que sou guloso. Mortalmente guloso.

Mas eis que me acontece um daqueles dias em que os deuses decidem testar seu autocontrole. Quando entro no salão para tomar meu brunch me deparo com uma multidão de japoneses. Não existe um japonês, japonês é coletivo. Eles não andam em menos de vinte. Lá se ia meu sossego.
Mas como tudo na vida tem um lado bom e outro ruim, menos é claro os discos do Oswaldo Montenegro onde os dois lados são ruins, havia uma surpresa fantástica neste brunch. Como havia aquela multidão de japoneses no hotel o Chef gentilmente preparou também um menu japonês para agradar seus hospedes. Isso mesmo: um buffet imenso com o breakfast inglês, o continental e o japonês.
Quase morro.

Para ser justo, conheço um hotel-restaurante-posto de gasolina de beira de estrada na região do Pajeú no interior de Pernambuco que serve um café da manhã sertanejo que é alucinante. Os cabras preparam todas aquelas comidas tradicionais e juntam tudo numa espécie de Brunchist: brunch + northeast, um brunch do Nordeste.
Doces, bolos, queijos crus, assados e fritos, frutas, pratos de milho, canjicas, pamonhas, cuzcuzes doces e salgados, xerém, mingaus, tapiocas, beijús, farofas, carne de sol, linguiças de boi e de porco, mandiocas e outras raízes, ensopados e fritos de bode, carneiro, porco e boi.
O preço cabe em qualquer bolsa-família: inacreditáveis quatro euros.

Viagem de Palavras

As palavras viajam no tempo e no espaço, de uma língua para outra e vão ganhando e perdendo sonoridades, agregando histórias e preparando a arqueologia das línguas.

Um caso interessante é o do curry, kari, caril.
Seguinte: o tempero indiano é conhecido e falado no Brasil como se fosse “curri”, assim mesmo, com esta sonoridade pavorosa.
É até compreensível por que o conhecimento do tal tempero indiano chegou ao Brasil principalmente através dos produtos ingleses.
Acontece que quando os ingleses conheceram o tal tempero, que tem a sonoridade original de “kári”, precisaram escrever isso em inglês. Neste caso a forma fonética mais próxima foi “curry”.

Nesta viagem do pobre tempero para o inglês os brasileiros o leram em português. E o “curry” virou “curri”.
O que já começa a ficar engraçado, pois o “kari” transformou-se em “curri”. Desnecessariamente, pois se os ingleses não têm um “a” aberto para fazer a correspondência fonética, em português ele existe. Portanto bastava chamá-lo simplesmente de “cari”.

Mas a coisa não fica por aí, pois os brasileiros ao invés de corromperem a sonoridade original da palavra poderiam sem muito esforço ter ficado no português de Portugal e usar o que os lusitanos usam. Lá o tempero chama-se “caril”.
O que também não é lá muito correto já que é possível ter a sonoridade original ao invés de bizarramente dizer “curri” ou “caril”. Basta dizer “cari”.

Detalhe: enquanto nas praias a oeste do Atlantico se diz que um prato é “ao”, lá do outro lado de lá se diz que um prato é “de”.
Se por aqui existe um frango ao curry lá o que existe é um caril de frango. O que ao fim e ao cabo significa que o que para os brasileiros é uma forma de fazer o prato para os portugueses já é o prato em si.
O que definitivamente não é a mesma coisa apesar do gosto ser o mesmo.
Ó Pessoa, ó Machado, que língua a vossa!

Mas o mais engraçado de tudo isso é que o tal tempero indiano, nem mesmo indiano é. Isso mesmo, o tempero à base de pimenta que o mundo inteiro relaciona com a Índia não é originalmente indiano.
Foram os portugueses que levaram a pimenta piri-piri para lá na época das navegações. Piri-piri as pequenas, malaguetas as grandes, ambas do gênero Capsicum.

E agora pasme: a Capsicum frutescens é originária nem mais nem menos que das Américas.
Aja viagem.

Fritando um ovo

Fritar um ovo pode parecer simples mas ao contrário do que se pensa é um processo extremamente técnico e delicado.
Vamos lá.

1 O ovo precisa estar na temperatura ambiente, portanto tire-o da geladeira entre 5 a 10 minutos antes de fritá-lo. A melhor maneira de fazê-lo é coloca-lo em um recipiente com água da torneira. Mas não esqueça de seca-lo antes de usar.

2 Ao colocar o óleo, banha ou azeite na frigideira estes devem ser aquecidos até aparecerem os primeiros sinais de fumo. Exceção feita à manteiga para que ela não se queime e escureça; mesmo assim ela deverá estar no máximo de temperatura tolerável.
A razão disto é que qualquer comida ao ser frita já sofrerá o suficiente. Portanto quanto mais rápido melhor por uma questão de respeito e piedade pelo alimento que lhe sustêm.

3 O ovo deverá ser quebrado a uma distância de cerca de 15 cm acima da frigideira usando apenas uma mão com um movimento em que se segura o ovo e batemos levemente sua lateral na borda do fogão ou da pia para criar uma fissura inicial na casca. Depois, ainda com a mesma mão, o abrimos separando suas duas metades com a mesma mão sobre a frigideira.
Neste mesmo e único movimento circular e harmônico a casca vazia é atirada elegantemente ao lixo.

4 O sal, por ser muito hidrófilo, só deve ser colocado ao final da fritura para que ele não desidrate a clara. Distribua o sal uniformemente pela clara e um pouco mais concentradamente sobre a gema.
O sal deve ser colocado ainda na cozinha por ser uma prerrogativa inquestionável do cozinheiro.

5 No caso de se fritar mais de um ovo deve-se usar dois recipientes intermediários.
No primeiro quebra-se o ovo e verifica-se seu estado, se estiver bom passa-se para o segundo; e assim sucessivamente do segundo até o último. Se algum deles estiver anormal é fácil de constatar e descarta-lo.
Só então depois desta rápida seleção é que se colocam todos os ovos do segundo recipiente à fritar na frigideira.
Fazendo esta seleção prévia não se perderão todos os ovos se um deles estiver estragado.
E todos eles irão solidariamente juntos ao sacrifício e pelo mesmo tempo de fritura, mantendo a uniformidade e justeza do processo.

Guten Appetit

Ps.: Sinatra dizia que um homem só é um homem se sabe passar uma camisa social.
Acrescente-se que uma pessoa só é verdadeiramente independente se souber fritar um ovo corretamente.

Fettuccine Taanit

Minha filhota Taanit aos 17 já está na Faculdade de Hotelaria do Estoril em Portugal.
Foi uma surpresa "esperada". 
Surpresa por que sendo ela tão excelente aluna poderia escolher qualquer curso que quisesse frequentar.
Esperada por que sendo ela tão excelente pessoa e tão determinada, era óbvio que ela escolheria uma profissão que fosse lhe dar prazer.
E entre tantas ela escolheu Gastronomia o que me deixou hyper-feliz pois adoro esta arte. Para ela fiz uma receita bem simples de um fettuccine. 

Fettuccine Taanit.
Ingredientes: massa de fettuccine, creme de leite, mozzarella, provolone, presunto (fiambre em Portugal), alho, azeite extra-virgem, manteiga (marca Aviação ou alguma dos Açores).
Preparo: ao mesmo tempo em que coloque a massa para cozinhar ao dente prepare o molho. 
Molho: pique o alho e frite-os no azeite, quando estiverem dourados coloque a manteiga. 
Baixe o fogo e deite o creme de leite. 
Coloque a mozzarella ralada e depois o provolone ralado, sempre mexendo. 
Quando o molho estiver uniforme coloque as fatias de presunto (fiambre) cortados em tirinhas.
Deite o molho à massa e sirva imediatamente.
Decore com salsinha. Acompanhe com um Dão.

Roteiro Gastronômico do Recife

Ontem eu estava com minha amiga Gaby Serejo num papo ping-pong meio engraçado no Facebook, ela reclamava:
- Será virose? A cabeça dói há 2 dias, o estômago não sossega se num se entope de chá e a porra da reforma do vizinho de cima num acaba nunca!! ai ai ai...
Como ela tinha acabado de chegar de uma semana em Salvador, que ela passou lá pros lados de Itapoã, eu disse:
- Virose nada Gaby, chama-se SATI - síndrome de abstinência de tardes em itapoã
Você ama essa cidade, né?? Acho bonito isso...
- Londres é a segunda melhor cidade do mundo
- Tenho q discordar da primeira. :P
- Hehe, com certeza Gaby! Deixei em Recife alguns dos mais sérios, inteligentes, cultos e interessantes amigos que já fiz na vida, sniff, sniff...
- Eles estarão sempre aqui ou pelo menos em contato, se são realmente seus amigos. :) Chola não :P
- ...além do melhor escondidinho do nordeste, sarapatel do oitão, caldinho do neno, carne-de-sol do komida kaseira, agulha frita anyplace, bolinho de bacalhau do empório, coxinha de casaforte, charque com fava do bar da fava, costela do boi no bafo, chopp do buteco, tapioca de olinda, etc, etc...ai que fome caraca!!!
- tb com esse cardápio... deu fome mesmo.

Well well Gaby, para não ser injusto vou te fazer o roteiro gastro-etílico que me mata de saudades de Recife:

Saladas do La Plage, Arroz de Polvo em Tamandaré, Almoços e jantares chez Beta L.C., Crepes do Montmartre, Pastel de forno Padaria dos Quatro Cantos, Sanduiche 45 do Fiteiro, Acarajé da Guararapes, Filé ao molho Madeira do Leite, Hamburguer de picanha do Laçador, Caldinho de camarão do Bar da Praia, Grelhados do Ponte Nova, Bacalhau à moda do chef do Skillus, Cabrito ao vinho da Oficina do Sabor, Escondidinho de camarão da Teka, Tender com molho de manga e castanhas de Tereza CR, Ostras do Guaiamum Gigante, Caldinho de polvo do Só Caldinho Guaiamum, Peixada do Casa de Banhos, Bolo-de-rôlo da Casa dos Frios, Spaguetti al mare do Famiglia Giuliano, Charque da Edineide no Mercado da Madalena, Arrumadinho de charque do Largura, Iscas de filé do Casa da Moeda, Bolinho de bacalhau do Engenho Casa Forte, Carne de Sol do Cunha, tomar café da manhã no Parraxaxá, quase tudo no Restaurante da Mira, Salgadinhos da Nutella, Pizza do Armazém Guimarães, Filé Chateaubriand do Mingus, Sinfonia Marítima do Ilha da Kosta, Frango ao Molho Brie do Maison Bonfim, Aniversários temáticos do Paulo Cunha, Sushi da Quina do Futuro, Camarão Aglio e Olio do Palácio dos Camarões, Casquinho de Siri do Biruta, Cozido da D. Jelma, Cassoulet do Nez Bistrô, Tya Ja Myón do Burgoguí, Caipirinhas da Cachaçaria Carvalheira, Beijupirás malucos do Beijupirá, Carpaccio do Othelo, Bolinho de peixe do Recanto Lusitano, Surubim do Kweto, Sorvetes da Free-Sabor, Saladinhas do Giardino, Paella do Alphaiate, Bacalhau ao Murro da Tasca, Tepan do Zen, Feijoada do Vavá, Tripa de bode do Buraco da Otília, Nhoque do La Gondola, Lambretas do Tepan, o que tiver saindo no Bragantino no Mercado da Encruzilhada, Coisinhas do Empório Marítimo, Queijo Coalho marca Independencia, Salsichas, lombinho e chucrute daqueles alemães do Açude de Apipucos que aliás já se mudaram pro Rosarinho, Rodízio do Spettus, Sirigado do Porto Ferreiro, todos os bistrôs da Galeria Joana D’Arc, Bode Guisado com farofa de cuzcuz do Bode da Hora, Linguiça de bode do Entre Amigos, Mexilhões gratinados com gorgonzola do Seu Cafofa, Sarapatel do Oitão, Caldinho de feijão do Bar do Neno, Costela de porco assada do Komida Kaseira, os petiscos do Bar da Geralda lá no alto do Morro da Conceição, Carne-do-sol do Gordo, Agulha Frita do Gauiamum Treloso, Coxinha catupiry e Empada de queijo do reino do Bar Real, Charque com fava do Bar da Fava, Costela do Boi no Bafo, as empadas do Buteco e as Tapiocas do Alto da Sé de Olinda.

E last but not least o inesquecível Risotto de Camarão de D. Gracia sempre insuperável nestes assuntos de cama e mesa. 
Aliás hoje é o aniversário dela.