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A Fonte da Donzela

A Fonte da Donzela do Bergman é daquelas obras primas que quando termina te deixa quieto, pensativo, sedado pela beleza das imagens, pela direção cirúrgica, pela reflexão que te instiga.

O filme é baseado numa lenda medieval de fé, inveja, felicidade, pureza, crueldade, vingança, redenção e arrependimento. Difícil imaginar conteúdo mais humano, mais arrebatador. A Fonte da Donzela é uma tragédia, uma tragédia de uma brutalidade contida e finalmente explícita de deixar o Tarantino sem folego. Bergman consegue imprimir um desespero latente, conter tua respiração, te fazer ansiar pelo fim. O mestre das pausas e dos silêncios chega a torturar nos momentos de tensão.

Além de tudo há a fotografia do Sven Nykvist com mesma importância dos diálogos, das interpretações, da direção. O uso que ele faz de luz e sombras é magistral. Cinema no mais puro e estrito senso. Sem exagero, é uma aula magna de fotografia.
Há pelo menos dois momentos magistrais da interpretação do Max von Sydow. O primeiro quando ele prepara sua vingança. O segundo quando ele fala com Deus sobre justiça, crueldade, vingança e arrependimento. Neste segundo momento Bergman explora ao extremo a ansiedade do espectador deixando Von Sidow quase de costas para a câmera. Aqui a experiência do Ingmar em teatro faz uma enorme diferença.

Na verdade na história há duas tragédias, aparentemente opostas, seguindo rumos paralelos que no final se interligam, se mostrando muito semelhantes em sua essência.
Vale muito, mas muito mesmo, a pena revê-lo. Seja pela direção, pela fotografia, pelas interpretações ou pela simplicidade e grandeza da história.
É um dos dez filmes que eu levaria para uma ilha deserta. Se desse para assistir filmes em ilhas desertas.

Mulheres Lindas e suas Línguas Ferinas

Há mulheres que têm a língua mais mortal que suas belezas. 
Tive uma bela amiga a quem contei que “não há mulher que nunca tenha comido uma alface por vaidade, uma caixa de Bis por ansiedade ou um cafajeste por saudade”. Ela riu do alto de sua experiência, 
- É bom deitar com cafajestes, eles fazem tudo que você quer. 

Marylin Monroe, Mae West e Arletty além de belas tinham línguas ágeis e afiadas. Perguntaram a Marylin o que ela usava para dormir, 
- Duas gotinhas de Chanel no. 5. 
Sabiamente aconselhou, 
- Se você vai der duas-caras, pelo menos faça uma delas bonita. 
- Homens enxergam as mulheres como livros. Se a capa não seduzir eles não olham para o interior. 
- Uma mulher esperta conhece seus limites, uma mulher inteligente sabe que não tem nenhum. 
- Homens de verdade enlouquecem pelas mulheres que sabem dizer não. 
- Uma garota esperta beija mas não ama, ouve mas não acredita, e deixa antes de ser deixada. 

Mae West era ainda mais mortal. 
- Quando sou boa sou ótima mas quando sou má sou maravilhosa. 
- Entre dois pecados sempre escolho o que nunca experimentei antes. 
- Tenha de reserva um namorado para os dias chuvosos e outro para o caso de não chover. 
- Todos os homens que abandono merecem uma segunda chance. Mas com outra. 
- Eu evito as tentações, a menos que eu não consiga resistir. 
Ao deixar o casaco de peles na chapelaria de um teatro a funcionária ao ver seu colar se espantou, 
- Meu deus, que diamantes! 
- Meu bem, deus não tem nada a ver com isso. 

Arletty foi uma atriz francesa do começo do século, belíssima, a primeira a ter as pernas colocadas no seguro. 
Durante a invasão alemã da França na Segunda Guerra ela se apaixonou em Paris por Hans Jürgen Soering um jovem oficial alemão da Luftwaffe. Depois da guerra ela foi presa por traição e colaboracionismo com o inimigo. Presa em Drancy uma freira tentou aproxima-la de deus, 
- Já nos conhecemos, mas a relação não deu certo. 
Levada a julgamento lhe perguntaram por que tinha sido amante de um oficial alemão, 
- Ninguém usa uniforme na minha cama. 
E completou magnífica, 
- Meu coração é francês, mas minha bunda é internacional.
Os franceses entenderam, perdoaram e anos depois ela estava sentada, desta vez no júri, do Festival Internacional de Cinema de Cannes.

A Maior Falsificação de Dinheiro da História

O filme austríaco Die Fälscher - Os Falsários - é uma obra-prima de Stefan Ruzowitzky, Oscar de melhor filme estrangeiro de 2008. Conta a história real de Salomon Sorowitsch e da Operação Bernhard.

A operação, conduzida pelos nazistas, a maior falsificação de dinheiro da história, produziu cerca de 9 milhões de notas, na época um valor de 132 milhões de libras esterlinas. Hoje seriam cerca de 7,8 bilhões de dólares, cash em notas, uma por uma.
A ideia de Bernhard Krüger era simples e brilhante. Produzir recursos financeiros para a economia alemã e inundar o mercado com libras para arruinar, por inflação, a economia inglesa.

Friedrich Herzog, um Sturmbannführer da SS, liderou a operação Bernhard dentro do campo de concentração de Sachsenhausen. Herzog colocou Salomon, um falsário genial, à frente de uma equipe de 142 prisioneiros. A equipe de gráficos, desenhistas, fotógrafos, banqueiros e outros especialistas, utilizando a melhor tecnologia disponível, produziu no campo de concentração notas absolutamente perfeitas, do tecido à impressão.
Algumas dessas notas foram enviadas para um teste de autenticação na Inglaterra. O Banco da Inglaterra foi taxativo: as notas de Salomon eram verdadeiras.

À partir daí a derrama foi imensa. Cerca de um terço das libras esterlinas em circulação na época foram produzidas pela equipe de Salomon e Herzog em Sachsenhausen.
O volume era maior que as libras que o próprio Banco da Inglaterra tinha em seus cofres. Quatro vezes maior que todas as reservas cambiais inglesas. Posteriormente o Banco da Inglaterra levou quarenta anos para recolher completamente tanto as notas de Salomon quanto as verdadeiras, absolutamente indistinguíveis, emitindo substituições completamente diferentes.

O filme tem uma fotografia belíssima, praticamente sem cores, em tons de cinza, acentuando o ambiente sombrio. Benedict Neuenfels usou de forma muito mais intensa o recurso de cores esmaecidas usado por Ghislain Cloquet e Geoffrey Unsworth em Tess de Polanski. Aliás outra obra-prima imperdível.
Além da excelente fotografia Die Fälscher tem uma trilha sonora que ao longo do filme, de forma emocionalmente intensa e irresistível, vai se transformando num personagem essencial da história. O filme que já tem uma trama fascinante usa recursos de fotografia, iluminação e trilha musical para criar Cinema em seu estado mais puro.

Salomon o judeu e Herzog o nazista sobreviveram à guerra.
Herzog conseguiu escapar junto com a família, levando uma pequena parte de sua obra, usando os passaportes suíços que Solly preparou para eles.
Salomon depois de uma temporada na Itália e no Uruguai terminou seus dias, aos oitenta anos, em Porto Alegre. Aqui ele criou uma fábrica de brinquedos já que não conseguia mais usar suas habilidades manuais devido a outro alemão, menos amigável, o Alzheimer.

Os Deuses Malditos

O filme La Caduta Degli Dei - a Queda dos Deuses - realizado em 1969 é uma das obras-primas de Luchino Visconti. Os Deuses Malditos, aqui no Brasil, é a saga de uma família aristocrata alemã da industria do aço no período do nazismo, a família Krupp, uma dinastia de 400 anos de Essen.

O título é magistral, sintetiza perfeitamente o filme e a situação histórica. Mesmo assim há de se perguntar por que Visconti escolheu este título, A Queda dos Deuses. Afinal os Krupp não caíram, não perderam, muito pelo contrário se beneficiaram tremendamente com a guerra. O grupo econômico ThyssenKrupp continua fazendo parte de nossas vidas até hoje em diversos ramos multinacionais. Que deuses malditos caíram?

Albert Speer ( pronuncia-se ischpéar) foi o arquiteto preferido de Hitler.
Brilhante, culto e sofisticado Speer criou obras belíssimas, prédios monumentais e desenvolveu um novo plano urbanístico para Berlin. Como cenógrafo criou os espetáculos de luzes e movimentos humanos que fizeram dos comícios nazistas obras de arte de Leni Riefenstahl. Ironicamente um desses filmes, O Triunfo da Vontade, foi premiado em Paris. Antes da guerra é claro.
Speer foi um administrador brilhante. Como Ministro do Armamento foi responsável pela coordenação da industria alemã no esforço de guerra. No fim, já desiludido com a loucura do Führer, Speer estava na lista dos conspiradores da Operação Valquíria liderada por Von Stauffenberg para matar Hitler.
Speer foi um dos poucos acusados a ter a vida poupada no Julgamento de Nuremberg, assumiu toda a responsabilidade por seus atos, cumpriu pena de 20 anos em Spandau e depois publicou dois best-sellers. Churchill reservadamente o chamava de “o bom nazista”.

Quando Hitler no fim da guerra ordenou a Operação Nero, a política de terra arrasada para destruir o que ainda restava da Alemanha, Speer se opôs executar as ordens do Führer. Ele estava decidido a salvar o que fosse possível do país. Um dos maiores patrimônios da Alemanha era e é, a Filarmônica de Berlin. Apesar do bombardeio devastador sobre a cidade a orquestra continuava tocando regularmente de três a quatro vezes por semana.
Semanas antes da rendição incondicional e da ocupação da cidade pelo Exercito Vermelho, Speer já vinha providenciando a retirada dos melhores pianos, das harpas, das tubas wagnerianas, das partituras e até dos smokings dos músicos. Mas faltava retira-los. Esta era a parte mais complicada.
Speer não tinha a menor intenção de deixar o corpo dos músicos da Filarmônica cair nas mãos dos russos, mas também não arriscar se os Aliados chegariam a Berlin.

Por outro lado retirar muito cedo da cidade os 105 músicos da orquestra chamaria a atenção de Goebbels. O ponto crítico era decidir o momento de retirar as dezenas de músicos e como dar para eles o sinal para a partida.
Speer criou uma estratégia e combinou que daria uma senha para avisar à orquestra que era chegada a hora da fuga. A senha seria uma alteração de última hora na programação do espetáculo. Pelo plano de Speer todos deveriam sair de uma só vez à noite, imediatamente após a apresentação da orquestra e tomar os ônibus que ele providenciaria para a retirada. Os ônibus ficariam estacionados na escuridão do lado de fora do Beethoven Hall. A senha para a fuga seria uma música a ser escolhida pelo próprio Speer para encerrar o espetáculo que só seria informada pelo diretor da orquestra ao maestro durante a própria apresentação.

Na noite escolhida, 12 de Abril de 1945, Speer estava sentado na platéia em seu lugar habitual. No palco os músicos trajavam ternos escuros ao invés dos smokings habituais que já estavam escondidos. Na platéia só ele sabia o motivo. Momentos antes de terminar a apresentação Speer enviou seu assistente para informar ao diretor da orquestra Von Westermann e a ao regente Gehrard Taschner uma alteração no programa. A música escolhida para finalizar o espetáculo. Von Westermann ficou surpreso com a escolha:
– Você sabe perfeitamente que esta música representa a morte dos deuses, a destruição do Valhalla e o fim do mundo. Tem certeza que é isso que o ministro ordenou?
Não havia nenhuma dúvida. Para a última apresentação da Filarmônica de Berlin, Albert Speer havia escolhido Die Götterdämmerung.
O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner.

Musicais de Hollywood.

Sofro de uma falha grave em minha cultura. Grave, gravíssima. Gosto de filmes musicais. Isso mesmo daquelas coisas cantadas e dançadas de Hollywood.
Não estou a falar de Dançando na Chuva, um clássico dos clássicos do Cinema, falha seria se não o venerasse. Também não falo de qualquer coisa que a Cyd Charisse tenha dançado.

Cyd esta acima de qualquer classificação de gênero de Arte. Ela é Arte.
O deslumbramento de assisti-la flutuar, de assistir sua leveza, de ver a continuidade e harmonia de um movimento para o outro é o mesmo de ouvir Bach ou Mozart. Ver Cyd dançar é como ver uma obra de Michelangelo, de Rembrant, o prazer estético é da mesma ordem. Cyd têm nos movimentos a mesma continuidade harmônica de uma fuga de Bach, tão perfeitos que não se nota sua técnica irretocável.
Cyd está muito acima da arte da Dança. Basta ver como ela se move em Dancing in the Dark na cena no Central Park em Band Wagon do Vincente Minelli. Não se trata de técnica, apesar dela ter muita. Nem de beleza pois Cyd nem é tão bonita assim, na verdade ela é bem o tipo the-girl-next-door. Trata-se de poesia em movimento. Trata-se daquele algo transcendente que só a Arte tem. Ponto.

Mas não é disso que estou a falar.
Falo daqueles musicais exagerados, desbragados, como Funny Face do Stanley Donen com a Audrey Hepburn e o Fred Astaire. Uma coisa improvável, absurda, comovente, linda, que te deixa com um sorriso embevecido do começo ao fim, com o coração leve. Funny é o segundo musical da Audrey, logo depois de My Fair Lady, e como neste ela realmente canta ele é efetivamente seu primeiro musical.

Funny Face foi traduzido no Brasil para Cinderela em Paris. Portugal piorou, colocou mais uma letra L e traduziu para Cinderella em Paris. A diferença é sutil.
Ao invés do substantivo genérico, do nome arquetípico, os portugueses usaram o nome próprio. É como se a personagem do Charles Perrault, ela própria, estivesse em Paris. Mas, ora pois pois, para quem traduziu Dr. Strangelove do Stanley Kubrick para Dr. Estranhoamor isso não é nada. São cinzas.

O filme foi citado em O Diabo Veste Prada. A entrada inicial da Meryl Streep na Runaway Magazine é muito semelhante a da Kay Thompson na Quality Magazine.  Ambas revistas femininas de moda de Nova Iorque, ambos sequenciados em Paris.
Mas param por aí as semelhanças com O Diabo Veste Prada. Funny Face é diabolicamente açucarado, escandalosamente romântico, feliz o tempo todo. Como se não bastasse a trilha musical é do George Gerswhin. 'S Wonderfull ficaria realmente maravilhosa se pudesse ter sido interpretada na época, como o foi bem depois, pelo João Gilberto ou pela Diana Krall, ambos em arranjos do Claus Ogerman. Sonhar mesmo seria um dueto deles dois substituindo o de Audrey e Fred.

Funny Face tem duas assinaturas impressionantes, Givenchy e Avedon.
Os modelos usados pela Audrey foram desenhados pelo Givenchy que vestiu Wallis Simpson, Jackie Kennedy e Grace Kelly. Audrey e Hubert foram grandes amigos, ele criou para ela o perfume L'Inderdit, vestiu-a em Breakfast at Tiffany´s (Bonequinha de Luxo) e Sabrina. Veneninho: Wallis Simpson na hora de casar preferiu um Mainboucher azul, uma ingrata essa duquesa. Givenchy definiu o estilo Audrey, um estilo que até hoje, sessenta anos depois, permanece atemporal, clean, elegante. Um aristocrata francês vestindo a funny face belga. A união dos dois é icônica.

Outro monstro sagrado por trás das lentes, Richard Avedon. Um dos maiores fotógrafos do século, o maior retratista, o maior de Moda. Foi diretor de arte do Harper´s Bazaar, fez campanhas para Versace, Calvin Klein, Colgate e Revlon, fotografou Eisenhower, Picasso, Marilyn Monroe, Andy Warhol, Nureyev, Catherine Deneuve, os Beatles. A Louis Vuitton criou uma maleta exclusiva para ele. Veneninho: Coco Chanel nunca lhe perdoou uma foto onde ela aparece com o pescoço horroroso, ho-rro-ro-so. As belíssimas fotos e freezings da Audrey, a abertura do filme, a definição e o tratamento de fotografia de Funny Face são dele.

George Gerswhin, Audrey Hepburn, Fred Astaire, Hubert de Givenchy, Richard Avedon já seriam de per si suficientes para definir uma obra de arte, um museu, um monumento. Tê-los todos juntos, reunidos numa folie a cinq musical de Hollywood é puro deleite. 
Para ficar apenas no começo, a cena musical em tons de vermelho, numa sala escura de estúdio fotográfico, é tão delicada, tão alegre, tão feliz que você fica se perguntando o que há de errado com sua vida, com seu dia-a-dia, com o mundo em que você vive.
Essa é exatamente a magia desses musicais. Puro entertainment, você fica leve, sorrindo, alegre, bregamente feliz.
Aliás existe coisa mais brega que a felicidade?


(*) "brega" = mais ou menos "pirosa" em português de Portugal.

Cul-de-Sac, o Humor de Polanski.

Revi Cul-de-Sac um cult do Roman Polanski.
Cul-de-Sac é beco-sem-saída em Francês mas foi traduzido no Brasil para Armadilha do Destino, provavelmente por conta de uma leitura mais "psicológica" do distribuidor local. Coisa dos anos sessenta. Na época os críticos enxergaram as mais diversas leituras, de thriller a drama psicológico. Cul-de-Sac é uma comédia.

Uma das excelentes comédias do Polanski. Tanto quanto The Fearless Vampire Killers, or Pardon Me, But Your Teeth Are in My Neck – Os Destemidos Matadores de Vampiros, ou Perdoe-me, Mas Seus Dentes Estão em Meu Pescoço – que no Brasil ficou como A Dança dos Vampiros. Jack MacGowran trabalhou nos dois filmes, aqui em Cul-de-Sac ele faz o Adie, impagável nas primeiras cenas.
Tarantino disse a respeito de sua obra que se tivesse de escolher em qual prateleira de videoteca a colocaria escolheria a das comédias. É mais ou menos por aí, apesar de Cul-de-Sac não ter nem de longe os níveis de violência tarantina.

Cul-de-Sac é uma comédia Polanski. Um ping-pong de diálogos engraçados, sutis, a maioria das vezes non-sense entre Lionel Stander, Donald Pleasence e Françoise Dorléac. Todos três excelentes sob a batuta do Polanski. A Jacqueline Bisset faz uma pequena participação.
Lionel ficou conhecido pelo Nasce Uma Estrela e depois pelo mordomo que fez na série de TV Casal 20. Françoise, pelo menos para mim, é muito mais sexy e mais bonita que a irmã Catherine Deneuve, surtout sa derriére est plus belle. Donald ficou muito conhecido por conta do Blofeld, o adorável vilão nos filmes de James Bond. 

Abre parênteses para o Blofeld.
Blofeld é o único vilão da série 007 que tem carteira de identidade. Ernst Stavro Blofeld nasceu em Gdingen na Pomerânia, Alemanha, hoje Gdnya na Polônia, no dia 28 de Maio de 1908, filho de pai polonês e mãe grega, quando a cidade ainda era parte do Império Alemão.
Gdnya nasceu polonesa em 1253. Em 1772 foi tomada pela Prússia. Em 1872 foi anexada ao império alemão. Em 1920 após o tratado de Versalhes voltou a ser polonesa. Passou a ser Gotenhafen, alemã, no período nazista de 39 a 45 e voltou a ser Gdingen quando a guerra terminou. Quando a Alemanha perdeu parte do território da Pomerânia para a Polônia a cidade voltou a ser Gdnya e polonesa.
Sendo pomerânio, uma espécie de alemão de quinta categoria – depois de alsacianos, saxões, silesianos e suábios – perseguidos pelos nazistas como sub-alemães, nascido numa cidade volátil como aquela, filho de um polonês com uma grega, não admira que o pobre Blofeld tenha se tornado tão malvado.
Blofeld, apesar de ter nascido na baía de Gdansk, não era nem um pouco conhecido por sua solidarność, digo solidariedade. Pobre criança, só os gatos persas lhe aceitavam.
Fecha parênteses do Blofeld.

Cul-se-Sac se passa nos arredores e no castelo Lindisfarne na ilha de mesmo nome em Northumberland na Inglaterra. Sir Walter Scott, autor de Rob Roy e de Ivanhoé, morou lá e fez para ela o poema Holy Island. Aqui há uma das piadas deliciosas do Polanski, um trocadilho em inglês de hole com holy, quando o Lionel pergunta ao Donald como ele aguenta morar num buraco como aquele. Há mais, vale à pena ver um modestíssimo Morris Minor de auto-escola roubado pelo Lionel estragar a lateral do Jaguar vintage do Donald. Ou ver uma família parvenu chegar num Jaguar novinho.

Há mais ainda. Quando o Lionel, que é americano, não consegue pronunciar Madam apropriadamente e diz “mádam” ao invés de “mamm”, alguém se horroriza e diz: - Mas ele é um yankee! Nesta altura da trama ele, que estava tentando se passar por mordomo, responde que foi contratado apenas para cuidar do jardim. Ou quando Lionel pergunta a Donald se ele herdou ou comprou o castelo (*). Ou quando uma família inglesa é apresentada com o irônico sobrenome de Fairweather.
Há mais muito mais, fique com o controle na mão para segurar no pause enquanto se refaz de tanto rir.

(*) Quando Tony Blair se tornou primeiro ministro uma lady comentou horrorizada: - Imagine que ele precisou comprar os próprios móveis!

Shaken Not Stirred

Há motivos científicos, além da preferência pessoal, pra o James Bond preferir martinis “shaken not stirred”. Muito já se discutiu sobre a diferença entre um martini batido e um misturado. Há preferências, paixões e controvérsias.

Agora já não há mais dúvidas, James está certo, o batido é melhor para a saúde.
O Departamento de Bioquímica da Universidade de Western Ontario, no Canadá, conduziu um estudo para determinar se a preparação de um martini tem influência sobre sua capacidade antioxidante.

A Universidade descobriu que martinis batidos quebram o peróxido de hidrogênio e deixam apenas 0,072% de peróxido residual contra 0,157%  de um martini mexido, mais do dobro portanto. Um Martini batido tem uma capacidade antioxidante muito maior que o mexido e como todo álcool se tomado com moderação atua na prevenção da catarata, doenças cardio vasculares e ataques cardíacos.

Como se vê não é só com muito sexo que 007 mantêm a saúde. Martini e sexo. Apesar das restrições ao primeiro o segundo deve ser usado sem moderação.


PS.: se você acha uma perda de tempo falar dos martinis do James Bond, imagine o que o contribuinte canadense acha de pagar pelas pesquisas do Departamento de Bioquímica da Western University.

Skyfall, 007 Ma Non Troppo.

Skyfall, o último 007, tem muitas brincadeiras, referências internas e externas. É divertido reconhece-las. Quando ele e M saem em disparada para a Escócia na DB-5 a tomada de cena é rigorosamente igual a cena original de Goldfinger. Depois quando M reclama do conforto e James mexe no botão que ejeta o banco, como ele usou na cena original, M nem precisava dizer que conhecia o dispositivo, a piada ficaria mais sutil.

Há outras como o martini visivelmente preparado "shaken not stirred", exatamente como James prefere mas sem que ele tivesse dito a frase clássica. Parece que a garçonete já sabia.
Não é a primeira vez que se brinca ao servir o James. Em Die Another Day, Um Novo Dia para Morrer, acontece um diálogo engraçado na primeira classe da British Airways, quando o martini é servido ao Pierce Brosnan, por uma aeromoça interpretada pela Deborah Moore, filha do Roger Moore. 

As cenas iniciais com o Land Rover ladeira abaixo em Istambul relembram outro Land Rover descendo desabalado por Gilbraltar em The Living Daylights, Marcado Para Morrer.
Uma ótima referencia externa do Sam James a Coppola e Tarantino é quando o helicóptero das cenas finais chega tocando música como em Apocalypse Now e tocando My Baby Shot Me Down como em Kill Bill. Devem haver mais rabbit holes é só prestar atenção.

O filme não é um puro 007.
Um bom filme de perseguições mas sem a iconografia básica da série. Um dos poucos, se não o único detalhe sofisticado do filme é o iate Regina de 56 metros, estilo clássico Herreshof da Pruva Yachting.
O filme é mais um Batman ou um Duro de Matar que um genuíno James Bond. Há inclusive heresias quando Bond, deixando no ar uma dúvida cruel, diz que não é tão hetero assim.
Politicamente correto Naomie Harris é a nova Moneypenny. Mas mesmo antes de assumir o posto ela já realiza o sonho da Lois Maxwell o que acaba com uma das situações características mantidas desde o começo da série.

O melhor do filme, e quem rouba mesmo a cena, é o ótimo Javier Barden. Aliás é impossível não relaciona-lo com o inesquecível Coringa do Heath Ledger em Dark Knigh, Batman O Cavaleiro das Trevas.

Cruz de Ferro

Cruz de Ferro do Sam Peckinpah. Certamente um dos melhores filmes de guerra jamais feitos, o filme se passa na frente russa da guerra de tio Adie. Esteticamente Sam é direto: o dia-a-dia da guerra é carnificina e ponto. As imagens são fantásticas, lindas, cruas, sem rodeios.

James Coburn não chega a ser brilhante, mas faz um trabalho razoável na pele de um soldado alemão, protagonista do filme. O único senão é que ele deu um tom de cowboy solitário, clássico em faroestes mas culturalmente meio bizarro num soldado alemão da II Guerra. Acredito que esta construção de personagem foi mais intencional do Sam do que falha do Coburn.

O filme tem cenas antológicas como a do soldado alemão mutilado que recebe a visita de um general no pátio de um hospital.
O general se aproxima para cumprimentá-lo. 
O soldado está sentado numa cadeira de rodas, ele só tem uma perna, ele está envolto numa capa.
O general lhe estende a mão direita, de dentro da capa do soldado surge o toco do braço direito que o soldado lhe estende.
O general troca de mão e lhe estende a esquerda. De dentro da capa surge o toco do braço esquerdo que o soldado também lhe estende. 
O general fica parado olhando os dois tocos.
O soldado olha o general fixadamente.
Subitamente ele ergue alto sua única perna, fazendo com a perna estendida a clássica saudação nazista que se faz com o braço levantado. Arrepiante.

Outra cena, esta numa refinada linguagem cinematográfica é com um T-34, o tanque soviético, um dos ícones mecânicos da II Guerra, produzido de 1940 a 1958. Copiadíssimo, imitadíssimo, o T-34 foi peça fundamental na reviravolta de Bigodão contra Bigodinho.
Para vergonha da Alemanha, no centro de Berlin existem dois deles no alto de um monumento à grande vitória soviética. Em outra cidade alemã, Chemnitz, havia um monumento específico em homenagem ao T-34. Em 1980 Joseph Kneifel produziu um ataque à bomba contra ele. O tanque teve leves arranhões, Joseph foi condenado à prisão perpétua em uma prisão em Bautzen, Sachsen.

Peckinpah trata o T-34 como um ser vivo, não como uma maquina. O T-34 se comporta como uma fera predadora caçando na selva. 
Ele invade um galpão em ruínas onde estão suas presas. O ruído de seu motor soa como uma respiração arfante, ele se move, ele procura sua caça, ele sobe nos destroços das paredes do galpão, ele se ergue nos destroços como um felino se levantando nas patas de trás antes do bote, ele entra em desvãos, ele penetra em buracos, ele fuça aqui e ali, ele dispara em paredes para abrir seu próprio caminho, ele entra nos buracos e persegue, ele observa de soslaio, ele gira a torre do canhão como que a girar a cabeça à procura da presa, ele enfia seu canhão principal em buracos e dispara, ele se ergue nas patas, seu motor arfa alto num rugido, ele ataca, ele dispara, como um tigre caçando uma presa.
Brilhante.

O filme termina com o texto de um poema de Bertold Brecht.
Brecht deixou a Alemanha quatro semanas depois de Hitler assumir a Chancelaria do Reich.
Brecht saiu no dia seguinte ao incêndio do Reichstag que depois iria justificar a lei de plenos poderes para o chanceler. 
Brecht fugiu em 28 de Fevereiro de 1933, no exato dia em que o Führer num decreto de emergência suspendeu a liberdade de expressão, associação, imprensa, o sigilo telefônico e sigilo postal.

Depois, comentando a derrota nazista, Brecht fala em três versos do espírito da guerra. Desta condição perene, intrínseca da raça humana:
Não se alegrem com a derrota deles, homens.
Mesmo que o mundo tenha se erguido para deter o Bastardo.
A cadela que o pariu está no cio novamente.

Irrespondível. A cadela sempre esteve e sempre estará no cio.

O Prazer Feminino

A emancipação da mulher largamente associada a sua inserção no mercado de trabalho tem pouco ou precisamente nada a ver com uma conquista revolucionária. Aconteceu por uma necessidade puramente capitalista quando a Revolução Industrial precisou de mais mão de obra, e de mão de obra barata, para suas fabricas.

A verdadeira emancipação feminina vem de sua conquista ao prazer, também associada de certa forma a uma inovação tecnológica.
Esta conquista do direito ao prazer, que alterou profundamente as relações sociais, tem no Brasil dois marcos culturais importantes. A exibição do filme Les Amants de Louis Malle e um trecho de Engraçadinha de Nelson Rodrigues.

O filme de Malle causou escândalo principalmente por uma cena de insinuação de sexo oral. O filme criou protestos mundo afora e chegou a ser censurado tanto nos Estados Unidos quanto na então União Soviética.
Aqui no Brasil ele passou surpreendentemente sem cortes, mas gerou protestos indignados. A Igreja chegou a classificá-lo como tendo por único objetivo mostrar “publicamente cena de requintada libertinagem”.

O fato é que o prazer feminino foi para as manchetes dos jornais, para as conversas em familia, enfim tomou as ruas. Nelson, como sempre brilhante, traduziu o espanto masculino numa cena de Engraçadinha onde o juiz Odorico, depois que sua mulher exigiu que ele reproduzisse nela a tal cena, lamenta indignado,
- Essa fita miserável envenenou a imaginação de todo mundo... a família brasileira acabou...os casais viviam tranqüilos e consolidados no seu estável tédio sexual. Fui humilhado, ou melhor: violentado. Eu me violentei!

Estava aberta uma caixa de pandora que desestabilizou completamente a psique masculina que até hoje ainda não se refez completamente. Ao que parece esta nova mulher até agora ainda não encontrou o novo homem que merece.

2001 Odisseia No Espaço

O filme do Stanley Kubrick continua atual e instigante.
As cenas iniciais são uma metáfora excelente da historia da Humanidade e de seu caracter mais profundo. 

Dois bandos de homídeos disputam a posse de um território, naquele vai e vem de posições em disputa.
Um bando avança, o outro recua e a situação não se define, pois não havia nenhuma superioridade aparente entre os grupos acostumados até então a afugentarem-se com gritos.
Mas os membros de um dos bandos carregam alguns ossos grandes.
Há pouco o líder deste bando tinha descoberto, por acaso, que batendo os ossos uns nos outros os ossos mais fracos se partiam.

Segue-se a disputa pela posse do território. O líder deste bando passa a ameaçar o bando rival com um osso até que acerta a cabeça de um deles. O outro cai e ele continua a bater-lhe, os companheiros de seu bando vêm, imitam os golpes e acabam por matar o rival.
O líder então se enche de um ar de vitória.
Estava cometido o primeiro assassinato, estava criada a primeira arma.
Estava estabelecida a violência como afirmação da propriedade e iniciada a percepção da  guerra como modus operandi político.

Nascia a base da organização social da Humanidade. Nascia a Civilização. O Homem jamais esqueceria nem deixaria de aplicar esta lição em sua Odisseia no Espaço.