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Sua Música. Your Song do Billy Paul.

Billy Paul reescreveu lindamente a música original do Elton John.
Mudou frases, mudou muitos versos. Introduziu estrofes inteiras. A música mudou inteiramente. Quando ouvidas as duas versões são quase irreconhecíveis, principalmente por que ele introduziu um soul e um swing extraordinários, arranjo do Lenny Pakula.
A música ficou literalmente a your song do Billy Paul. Sorry Elton. It's a litlle bit funny.

Como quase todo mundo já ouvi e dancei a Your Song do Billy Paul vezes incontáveis.
Se você lembrar há duas pausas na música. Cada uma delas leva a um reinício, cada uma leva a um leve “crescendo” até chegar naquela alegria final de todos os “crescendo”.
Meu irmão Sérgio gravou-a para mim fazendo uma montagem onde ele transformou as duas pausas em várias. Ficou perfeito não se percebe a colagem, a música passou dos originais seis minutos e meio para mais de trinta. Puro deleite.
On the road: sem capota, céu azul, brisa no rosto, babe next seat, não tem preço.
On the dance floor: anestesia, é puro high, three sheets in the wind.

Billy diz: perdoe-me se esqueci se são verdes ou azuis, o que realmente importa é que você tem os olhos mais doces que já vi. Parece Jobim dizendo que este seu olhar quando encontra o meu fala de umas coisas que eu não posso acreditar. Billy chega muito perto de Amália quando ela diz que estes teus olhos de encantos tamanhos são pecados meus, estrelas fulgentes, brilhantes, luzentes, caídas dos céus, teus olhos risonhos, são mundos, são sonhos.

Billy completa dizendo: conte a todo mundo que Billy Paul fez uma canção, que ela é sua. Ela é bem simples mas é como ela foi feita, espero que não te importes como escrevi estas palavras. E diz estar tão inspirado que poderia escrever, escrever, escrever e escrever. Tanto um Gospel, um Blues, um Jazz ou um Rock'n'Roll. Mas ele fez um Soul delicioso. I'll write a few verses and then I get the blues.

Voltando a Jobim e Amália convenhamos que  falando de olhares entre a doçura da Bossa Nova ou a precisão do Fado bom mesmo é dançar o soul do Billy Paul. Dançar e dançar muito. Keep turnin' on.
Tenho uma amiga que diz que quando dança Your Song vê estrelinhas brilhando. O que é quase como dizer que sente borboletinhas na barriga ou algo ainda mais gostoso.

Há alguns anos assisti Billy Paul ao vivo.
Claro que ele deixou His Song para o final, a casa lotada, todo mundo esperando por Your Song. Na mais perfeita companhia dancei Her Song olhando nuns olhos que sempre lembrarei a cor.
Os mais doces que já vi, falando de coisas que eu não podia acreditar, teus olhos risonhos foram mundos, são sonhos.



O Carlton Parou Por Alguns Momentos

Cannes não vive só do festival de cinema.
O Palais de Festivaux fica ativo durante o ano todo e o Ritz Carlton Hotel tem sempre grandes atrações. O Hotel fica exatamente no meio da cidade, de frente para o mar e da entrada monumental sai uma passarela que se estende até o cais onde aportam os iates.
Do barco para o cais, do cais para a passarela e dela para o tapete vermelho que recebe os ricos e poderosos que podem pagar as diárias altíssimas.

O Hotel que é uma joia da arquitetura fin-de-siècle tem um restaurante magnífico cujas reservas precisam ser feitas com mais de um mês de antecedência em períodos normais.
Além do festival de cinema Cannes tem outros e o MIDEM é um deles, o festival da industria da música. Fui lá à trabalho e levei Sandra, minha mulher. Como fomos de carro passamos por St Moritz que ainda tinha neve, descemos por Milano, Gênova, Mônaco, Nice e finalmente Cannes.

Descer de carro da Suíça para a Itália é uma delícia para quem gosta de um bom motor em um ótimo chassi. A estrada é sinuosa, escavada nas encostas dos Alpes. De um lado a montanha e do outro precipícios gigantescos com vistas deslumbrantes. As curvas se acabam no começo da próxima. Nas saídas de curva você precisa acelerar para conseguir mais aderência para vence-las, mas esta acelerada pode lhe colocar numa velocidade excessiva para a próxima e este erro será fatal.
Mesmo assim acelere ao máximo, faça as curvas um pouco acima do seu limite e sinta na beira desses precipícios o vazio esperando por um erro seu.

Chegando em Cannes não ficamos na cidade.
Eu tinha feito reservas num hotel em Les Mougins uma cidadezinha nas montanhas bem acima de Cannes nos Alpes-Maritimes. A vista é deslumbrante, os Alpes e o Mediterrâneo se encontrando em Mônaco e Nice. O lugar também é ponto focal dos perfumes franceses.
O hotel Mougin de Mougins além da arquitetura de piso único em meio a lindos jardins é conhecido pelo excelente pão e pelo foie gras de produção própria. Quando Sandra quis saber porque eu tinha escolhido aquele hotel assim longe de Cannes eu disse:
- Experimente o pão.

Na segunda noite convidei Sandra para jantar no Carlton. Ela se surpreendeu,
- Mas nós temos reservas?
- Não, mas vamos tentar mesmo assim.
Sandra colocou um mini-vestido preto bem básico e subiu num Charlles Jourdan altíssimo que lhe deixou com muito mais que seus 1,78 m. Pintou um traço leve nos olhos e mais nada.
O vestido preto acentuava tanto a alvura da pele como os cabelos louros, longos e lisos. Como era curto mostrava as pernas longuíssimas. Como era apertado acentuava as curvas e a cintura. O traço leve nos olhos realçava os olhos azuis. Long legs, blonde hair, blue eyes.
A alemãzinha estava linda.

Descemos a montanha, chegamos ao Carlton e paramos em frente ao tapete vermelho. Entreguei a chave ao valete e começamos a caminhar pelo tapete vermelho em direção às escadarias do Hotel.
A cidade estava cheia de celebridades, a Tina Turner estava se apresentando, o Michael Jackson estava sendo esperado e havia uma enorme quantidade de starlets e barões da industria fonográfica mundial.
Os paparazzi estavam indóceis.
Quando estávamos caminhando no meio do tapete vermelho, quase chegando nas escadas começo a ver flashes e mais flashes pipocando, fotos e mais fotos sendo tiradas.
Discretamente olhei para trás para ver quem estava chegando. Não havia ninguém.
Os flashes eram para Sandra.

Chegamos ao restaurante e encontramos na porta um maître elegantíssimo e uma hostess com o livro de reservas em um pedestal entre eles dois. Bem em frente às portas de madeira e cristal. Fechadas.
- Bon soir Madame, Bon soir Monsieur…
- Bon soir Monsieur, nós temos um pequeno problema.
- Oui Monsieur?
- Nós não temos reservas...
O maître olhou Sandra de alto a baixo. Encantado virou-se para mim e disse com um sorriso:
- Monsieur isso não é problema algum, por favor entrem e escolham a mesa que mais lhes agradar. Em seguida virou-se para ela,
- Madame.., fez uma mesura e abriu a porta.
Nós entramos e o restaurante literalmente parou para olhar. O Carlton em Cannes parou por alguns momentos.

Rio gosto de você, Pernambuco obrigado.

Não sou pernambucano, sou carioca, mas poderia ter sido. Minha mãe é de lá, um grande amor, uma graça, é de lá. Nós cariocas temos imensas dívidas com eles. Bastaria o Nelson Rodrigues, mas ainda há o Antônio Maria.

Quem melhor descreveu o subúrbio carioca, quem melhor expressou a alma dark, a lascívia do Rio? O Divino Nelson é um patrimônio carioca. Ele veio de lá para revolucionar nosso Teatro, para nos entender, para nos explicar melhor, para ser nosso cronista. Explicar nossas dúvidas, nossas angústias, nossos desejos, nosso prazer.
E quem mais senão Antônio Maria para nos louvar melhor de forma tão simples? Valsa de uma Cidade,
Rio de Janeiro, gosto de você
Gosto de quem gosta 
Deste céu, desse mar 
Dessa gente feliz 

Valsa de uma Cidade. Um hino de amor ao Rio, aos cariocas.
A esta cidade que tem esse vento do mar no meu rosto, que tem este sol a brilhar no meu rosto a queimar. A brilhar nas calçadas cheias de gente a passar e a me ver passar. Um poema de amor que está em tudo que eu quis em tudo quanto eu amei.
O Rio soube reconhecer esse amor e premiou Antônio Maria com uma divina expressão carioca, a capixaba Danuza Leão.

Fofoquinha: Antônio Maria morou no apê 1005 do Edifício Souza na Cinelândia. Vizinho dos também pernambucanos Fernando Lobo, jornalista e pai do Edú Lobo, e do Abelardo Barbosa o Chacrinha.
Alô, alô Terezinha. No mesmo prédio também moravam Dorival Caymmi e o pintor Augusto Rodrigues. É muita gente pra cantar e amar o nosso Rio.
Rio de Janeiro gosto de você. E gosto ainda mais de quem gosta de você, dessa gente feliz que sabe fazer o Rio. Pernambucanos obrigado. Aquele abraço.

Delícias Pernambucanas

Café da manhã em Recife.
Primeiro você precisa acordar num domingo de verão em Casa Forte depois de uma noite de farra no sábado com os amigos. Casa Forte é a região do engenho de açúcar da Branca Dias uma heroína do Brasil Colonial no século XVI.

Branca é um dos personagens mais ricos da dramaturgia brasileira em O Santo Inquérito do Dias Gomes. Dina Sfat dizia que ela é tão difícil e complexa de interpretar quanto Lady Macbeth ou Blanche Dubois. Branca foi uma das primeiras mulheres a ser senhora de engenho e a primeira mulher a manter uma sinagoga em suas terras. Cristã nova foi acusada de praticar o judaísmo. Antes de ser presa atirou sua baixela e objetos de prata no açude, as águas tornaram-se claras, hoje chama-se Açude do Prata. Levada a Lisboa foi condenada pela Inquisição. 

Domingo típico. Quente de sol brilhante, intenso de azul profundo. A glorious day.
Saia de casa com seu amor à procura de um restaurante típico, talvez o Parraxaxá, para se entregar a outros prazeres. Mas desfrute com moderação.
Queijo Coalho.
Na entrada fatias de queijo coalho frito. Um queijo de vaca que usa na coagulação as enzimas gástricas da própria vaca. Levemente salgado, sabor ácido e intenso. Era curado originalmente nas traves ou no forro quente das casas logo abaixo do telhado até ficar muito rijo. Branco tem muitos pequenos furos, menores que num Emmental, derrete como um Raclette, frito em manteiga forma uma crosta marrom crocante. O queijo é um precioso achado gastronômico, imperdível teria uma appellation d'origine contrôlée na Europa.

Charque.
Sirva-se de pequenos pedaços de charque (jabá, carne seca, jerked beef) bem frita acompanhados de macaxeira (aipim, mandioca) cozida e bem macia regada com manteiga de garrafa (manteiga liquefeita). Um crime contra o colesterol, uma benção para o paladar. A charque levemente salgada e crocante contrasta com a maciez da macaxeira. A manteiga de garrafa completa o sabor umedecendo a macaxeira.

Agora vamos ao Cuscuz.
Trazido pelos escravos muçulmanizados do Magreb no norte da África aqui ele se adaptou. No cuscuz a sêmola de trigo foi substituída pelo farelo de milho. O carneiro substituído pelo bode. O farelo de milho é mais forte e saboroso que a sêmola. O bode ainda mais saudável que o carneiro é uma das carnes vermelhas com menos colesterol que existe. Mas quem está preocupado com estas taxas? O bode é guisado (ensopado, cozido) em um molho forte de alhos, cebolas, tomates, coentros e pimenta. Coloque o molho por cima do cuscuz.

Chegou a hora do Sarapatel. Pule esta parte se você não estiver preparado.
Uma delícia portuguesa trazida do Alto Alentejo servida no Natal pela época da matança do porco (*). Na Ilha da Madeira tradicionalmente é a primeira refeição do dia. Feito de sangue e miúdos do porco é um prato forte, escuro, de sabor muito intenso. Primeiramente lavado com limões aqui ele é guizado com pimentões, hortelã, cebolinha verde, coentros, cebolas, tomates, pimentas-de-cheiro, alhos, cominho e louro. Em Goa na Índia acrescenta-se açafrão e canela.
Sirva-se com um pouco de farinha de mandioca, umas gotas de limão, machuque umas pimentas-de-cheiro.

Agora a sobremesa. O Bolo de Rolo.
Uma delícia que já foi tombada como patrimônio cultural e imaterial pelo Estado pernambucano. Originário do Rocambole francês e do Colchão de Noiva português aqui ele se adaptou e virou um doce fantástico.
Feito de farinha de trigo, ovos, manteiga e açúcar ele tem muitas camadas, muito finas, intercaladas de goiabada derretida, enroladas uma por cima da outra. O bolo de rolo exige muita experiência, perícia e uma enorme paciência pois cada camada tem de ser assada no forno de per si, retiradas cuidadosamente da assadeira, esfriadas, cobertas com a goiabada derretida e sucessivamente enroladas nas camadas anteriores. Um trabalho enorme que vai recompensar seu paladar. Você vai repetir com certeza.

Bem convenhamos que já está na hora de parar, respirar fundo e voltar.
Chegando em casa ligue o ar-condicionado e se deixe levar por maiores delícias pernambucanas. Desfrute sem moderação. Você está tendo uma manhã de Graça.

(*) Vide a festa alentejana d' O Porco é o Tesouro em
 www.camaracorrea.com/2012/05/o-porco-e-o-tesouro.html

Ione

De todas as minhas amadas ela foi de longe a mais delicada, a mais sofisticada, a mais intrigante. Uma das mais cultas e inteligentes. 
Bela é pouco. Aos quinze anos ela foi a primeira menina a ser capa na revista de maior circulação nacional. Lindíssima.

Magra, loura, lábios carnudos, dentes perfeitos, descendente de holandeses. Sofisticadíssima, falava baixíssimo, cruzava as pernas como ninguém. Nunca a vi repetir uma roupa. Não andava, flutuava com uma graça que poucas das amigas manequins tinham.
Conhecia os Clássicos, fluente em francês e inglês. Viajadíssima deu sua primeira volta ao mundo ainda adolescente. Paris e Nova Iorque eram suas paixões. Adorava poesia. Sabia, tinha tudo de Vinícius de Moraes. O poetinha a conheceu e se apaixonou. Ela recusou-o.

Apesar de não fazer diferença em seus encantos Ione era rica, muito rica.
Ganhou seu primeiro carro esporte quando fez quinze anos. Morava numa mansão à beira-mar mas não ia à praia. Ficava na piscina tomando sol, mandava um empregado ir à praia com um balde para trazer água salgada. Ela usava a água salgada para se bronzear melhor.
Morava com os pais. A suíte dela era imensa. Gavetas e mais gavetas de joias, um closet que era um guarda-roupa de boutiques caríssimas. Estantes cheias de livros e discos. Uma imensa banheira escavada em um bloco de granito negro onde ela passava longos banhos de sais e espuma.

Ione adorava Cinema mas não ia aos cinemas. Nunca,
– Estão cheios de gente chata.
Um adjetivo de óbvias conotações sociais. Ela preferia assistir tudo em casa sem gente chata por perto. Certa noite a encontrei com dor de cabeça. Ela avisou,
– Estou com uma dor de cabeça imensa. Vou me aprontar para sairmos.
– Mas não estás com dor de cabeça? Queres que eu vá até uma farmácia?
Ela riu, saiu da sala. Depois voltou deslumbrante.
Saímos, fomos para a boîte mais cara da cidade. Entramos, ela foi direto ao toilete, logo depois voltou,
– Pronto já podemos ir embora.
– Como assim?
– Já peguei um comprimido para dor de cabeça no toalete. Já podemos voltar pra casa.
Quem em sã consciência deixaria de passar rapidamente numa festa para ir a uma farmácia?

Apesar de elegantíssima Ione não frequentava boutiques. Quando queria atualizar o guarda-roupa dava apenas um telefonema. A boutique mais cara da cidade mandava suas melhores criações e suas manequins para a casa dela. Desfilavam para ela, ela escolhia os modelitos e comprava. Sem gente chata por perto. Sem stress. Ione era muito tranquila.
Eventualmente uma dessas grifes pedia sua ajuda. Ela concedia e desfilava rapidamente. Super simpática. Aplaudida. Adorada.

Certa vez ela foi à garagem da casa e não encontrou o próprio carro. Voltou, reclamou com o pai,
– Pai aconteceu alguma coisa, meu carro não está na garagem.
– Filha resolvi lhe fazer uma surpresa e comprei-lhe um carro novo. O seu agora é aquele branco.
– Branco? Mas eu o-deee-io carro branco. Não quero um carro novo, quero meu carro dourado de volta, por favor.
O pai teve de voltar na agencia e desfazer o negócio com algum prejuízo.

Ela me ensinou que a extrema beleza também pode ser uma maldição,
– Já passei tardes inteiras na piscina do Yacht vendo todas minhas amigas serem paqueradas e sem que nenhum rapaz se aproximasse de mim. Beleza demais atemoriza.
Ela deu-me um conselho valiosíssimo, revelou-me um segredo de estado,
– As extremamente bonitas são as mais fáceis de paquerar. Como muito poucos se arriscam a chegar perto aquele que tem coragem de chegar é premiado.

Ione falava baixíssimo. Certa vez vendo uma sobrinha fazendo algo muito errado repreendeu-a,
– Não faça mais isso, eu não vou gritar novamente com você!
– Mas tia eu nem estou ouvindo o que você está dizendo.
Quando Vinícius morreu eu estava numa sala de cirurgia quando uma enfermeira contou que ouvira a notícia no rádio. Pensei imediatamente em Ione. Não queria que ela soubesse de qualquer maneira. Sai na hora sem trocar de roupa, peguei o carro e fui até a casa dela sem avisar. Quando a empregada apareceu disse-lhe que precisava falar urgentemente com Ione.  Ela foi avisa-la e logo depois voltou,
– D. Ione pede desculpas por não descer. Ela pede que o senhor por favor telefone antes de vir.
Nunca mais repeti tamanha indelicadeza.

Ela adorava quando íamos para o sítio da irmã dela, nos fins de semana, em louca disparada em meu conversível. Em noites quentes ao som de Billy Paul cantando Your Song.
Depois eram inesquecíveis nossos sussurros entre a escuridão das árvores. Aos beijos, na intimidade de suas longas pernas de mármore. Deusas merecem reverencia. Educadíssima ela reservava os palavrões para os momentos de paixão.
Certa vez amando-a fiz tudo que sabia para levar minha deusa ao paraíso. Fui recompensado,
- Quero você por toda a minha vida.
Para ser fiel ao seu poeta favorito foi eterno enquanto durou.

Gracias a la Vida. Deo Gratias. Dei Gratia.

Tive uma amante no sentido correto da palavra. Aquela a quem se ama. Como nenhuma outra. Como nenhuma antes. Como talvez nenhuma que possa a vir.

Fui apresentado a ela, e assim a conheci, numa cerimônia numa universidade. Um sorriso enorme, umas pernas magníficas chamaram imediatamente minha atenção. Mas ficou por aí.
Uma semana depois uma prima me diz que,
- Tenho uma amiga que quer lhe conhecer.
- Como assim? Acho que não conheço nenhuma amiga sua.
- Ela foi apresentada a você na Universidade, ela está sem namorado, quer lhe conhecer melhor , pediu para lhe dar o telefone dela.
Mais direto impossível.

Sábado à noite liguei para ela.
- Oi, sou o Ivan, minha prima me deu seu telefone. Também queria te conhecer.
- Estou com uns amigos em um bar. Venha para cá.
Fui. Cheguei no bar, encontrei-a numa mesa com uma turma enorme de amigos. Algumas pessoas eu já conhecia. Falei com todos, fiquei ao lado dela. Sentei na mesa, começamos a conversar. 
Durante nossa conversa ela se levantou muitas vezes para ir ao toilette. Cada vez que se levantava eu podia observa-la de corpo inteiro. Afinal essa era claramente a intenção dela ao se levantar tantas vezes.

Pele branca, um sorriso enorme, uns dentes perfeitos, tinha o corpo com as curvas generosas e provocantes de uma negra. Olhos amendoados como uma malaia, pernas longas como uma alemã. Uma mistura que só a miscigenação brasileira é capaz de produzir.
Tudo isso na mais absoluta harmonia que só muitas horas de academia e dieta rigorosa podem produzir. Elegante e altiva. Uma mulher magnífica.

Também era uma pessoa culta e instigante.
Psicanalista respeitada, reconhecida, líder da associação lacaniana local. Empresária, sócia de uma cadeia de lojas premium nos shoppings da cidade. Administradora competente de um importante hospital ela tinha sanado as finanças da instituição e imposto uma administração eficiente. Mestrada em Bioquímica na Inglaterra, formada em Nutrição no Brasil.
Excelente cozinheira, talvez a melhor que já conheci, vaidosa na cozinha. O ego enorme e impossível de conviver dos grandes Chefs. Uma pessoa fascinante.

Aos poucos descobri que ela também tinha uma família maravilhosa e um enorme círculo de amizades em que me integrei facilmente. Através dela conheci algumas das pessoas mais sérias, cultas e interessantes que já tive contato. 
Mas isso não era tudo, muito menos o mais importante. Uma enorme surpresa me esperava.
Naquela primeira noite conversamos muito no bar, nos entendemos perfeitamente. Havia um interesse mútuo, genuíno. Com o passar da noite os amigos da mesa foram indo embora, por fim ficamos só nós dois.
Quase ao fim da noite depois de muito conversar encerramos a conta, nos despedimos. Uma chama havia sido acesa.

Dia seguinte lhe telefonei, marcamos para nos vermos novamente. Nos encontramos à noite, conversamos muito. Depois com a intimidade que estávamos construindo nos beijamos. 
Inesperadamente. Ávidamente, com a urgência de amantes que se reconhecem. Os dois nos surpreendemos com o desejo que estava nos envolvendo.
Fim da noite nos despedimos com beijos e carinhos incendiários. Dia seguinte, próximo ao meio dia ela me telefona,
- Vamos almoçar?
- Sim, claro, excelente ideia.
- Então passo aí, te pego no trabalho, daqui a meia hora.
Meia hora depois ela me esperava embaixo do prédio onde eu trabalhava. Nos beijamos e fomos à procura de um restaurante para almoçar.

Ao meio do caminho ela lembra que,
- Preciso passar na minha casa para pegar uns documentos.
Fomos até lá, fiquei conhecendo a casa dela. Uma gracia, clean, cool, cute. Enquanto ela providenciava o que precisava fiquei discretamente na varanda da sala que tinha uma vista para um verde enorme.
De repente ela volta e me beija. Depois me diz que,
- Aqui na varanda os vizinhos podem nos ver.
Me levou para o quarto. Nos amamos como eu nunca antes tinha sido amado.

Ficamos juntos pelos quatro anos seguintes.
Exatamente como Shakespeare descreveu Cleópatra sua imensa diversidade no amor nunca se extinguia. O tempo passava mas não lhe fanava a beleza ao contrário lhe deixava mais desejável.
Seu corpo tinha dois graus a mais de temperatura e a qualquer momento estava pronta para o Amor.
E quanto mais alimentava meu desejo mais me despertava o apetite.
Pois como sabe Camões, pode um desejo imenso arder no peito tanto que à branda e a viva alma o fogo intenso lhe gaste as nódoas do terreno manto.

Modern Jazz Quartet

Estava em Londres quando Maria Helena, minha namorada, me fez uma enorme surpresa. Deu-me de presente uma entrada para assistir ao show do MJO - o Modern Jazz Quartet - do Milt Jackson e do John Lewis.

Ela sabia que eu adorava os caras, fiquei über alegre. Espantado perguntei,
- Por que só um ticket? Você também gosta deles, não vamos juntos?
- Ao invés de comprar dois ingressos preferi comprar um só na primeira fila, para você. Mas te espero na saída do teatro para jantarmos juntos. 
Ela devia estar realmente apaixonada. Enchi-lhe de beijos, amei-a com doçura, fiz-lhe as vontades. No dia seguinte tentei comprar uma entrada para ela mas já estava tudo esgotado há semanas.

O Royal Festival Hall fica na margem do Thames oposta ao Parlamento, ao Big Ben.
Em pé na fila de entrada do teatro, o som solene do Big Ben marcava que uma hora importante estava chegando. Sentado na primeira fila o silencio solene marcava que chegara a hora de ouvir os ídolos.
Eles chegam, silencio absoluto, tomam seus lugares. O teatro escurece, o espetáculo começa. A música fluí como uma bênção. Absolutamente lotado o teatro assiste em silêncio religioso, os raros aplausos eram discretíssimosNão era um show de jazz era um culto, uma cerimônia.

Acho que eles começaram com Django.
Os solos do Milt Jackson no vibrafone me lembravam que tinha aprendido a gostar do instrumento por causa dele. Lembrava dos meus primeiros shows de jazz, ainda adolescente, nas tardes de Jazz&Bossa aos sábados no Copacabana Palace.
Sentado bem em frente ao John Lewis eu olhava fascinado as mãos negras flutuando no teclado branco, contrastando com as teclas do piano.
Acho que eles terminaram com Round Midnight.

Quando terminou eu ainda me sentia perto do paraíso, faltava pouco pra chegar lá. A vontade de chegar perto dos ídolos era grande mas em Londres essa aproximação era impossível. As pessoas hesitavam em sair. Difícil aceitar que terminara. Antes de sair olhei para trás certo que talvez não os veria novamente.
Um abraço amoroso me esperava na saída. Fomos para casa, ela havia feito um coq au vin, ela abriu um Valpolicella, ela colocou Bag's Groove, ela me fez as vontades.

Semanas depois fui a Salvador, aniversário de meu filho Eric. Quando cheguei tive uma surpresa enorme. Modern Jazz Quartet estava na cidade para uma única apresentação. Um milagre.
No dia do espetáculo lá estava eu de novo, na primeira fila é claro. Só que desta vez no Teatro Castro Alves, meio vazio. No fim do show não vacilei e junto com outras pessoas subi no palco para falar com os músicos, coisa que eles próprios estimularam.

Indescritível apertar a mão do Milt Jackson. Apertar a mão de um dos que primeiro me conduziram pelo jazz, quase a beijei. Conversei muito com todos. Falando com o John Lewis disse que os havia ouvido em Londres há algumas semanas. Ele se surpreendeu, riu e brincou:
- Você está nos seguindo pelo mundo?
- Não, infelizmente não. É só uma enorme coincidência.
- Mas o que você acha de continuar nos acompanhando?
Ri da gentileza, da brincadeira, dele. Hoje acho que deveria ter aceitado.

O Calor do Sahara

Túnis é um desses lugares únicos e fascinantes.
A capital da Tunísia fica no Mediterrâneo em frente da França e da Itália no norte da África. Tem o mesmo clima da Cote D’Azur, o mesmo azul-turquesa no mar. A la mer opposé no Lacus Romanus. Nas noites claras se vêm ao longe luzes da Sicília.
Túnis tem o fascínio da mistura das culturas francesa e árabe. Ex-colônia francesa tem as duas línguas, as duas culinárias, hábitos e costumes, além das heranças dos fundadores cartagineses e dos conquistadores romanos.

Túnis tem algo ainda mais singular, ainda mais fascinante.
A cidade é cercada por um cinturão de cultivo das mais diversas flores para produção das essências que abastecem as indústrias de perfumes locais e francesas.
Em Túnis o vento sopra de dia como maral, do mar para a terra e nos fins de tarde se inverte para terral soprando da terra para o mar. Como o Sahara ocupa quase 40% do país o vento que chega no fim da tarde vem diretamente do deserto em direção à cidade. Um vento muito quente e seco que antes de chegar a Túnis passa pelas plantações de flores trazendo com ele todos aqueles perfumes.

No fim das tardes, durante o pôr de sol, a cidade é tomada por uma brisa muito quente, seca, inebriante, que sopra durante toda a noite até ao amanhecer perfumando tudo. A sensação é quase sufocante, entontecedora, sensual.
Além do vento morno e perfumado do deserto o começo da noite em Túnis é muito festivo por causa do ruído ensurdecedor dos milhares de pássaros que trinam ao mesmo tempo, logo após o por sol, na avenida central Habib Bourguiba.
O sol se vai escurecendo lentamente os azuis claros do mar e do céu do Mediterrâneo deixando rosas, amarelos e vermelhos intensos. Chegando suavemente a noite trás uma brisa morna, aconchegante, feminina, de muitos perfumes acompanhada do canto estridente dos pássaros. A noite chega para acordar seus sentidos.

Mais tarde a esse calor, sons e perfumes começam a se misturar os da noite urbana.
Perfumes das comidas muito temperadas dos restaurantes, do café forte dos bares, dos muitos chás, dos crepes de muitos sabores assando nas esquinas, do tabaco dos nagliês que amigos dividem nas praças.
Sons dos bares e cafés. Sons amorosos de canções muito longas, dolentes. Sons de línguas e dialetos misturados. Sons das dançarinas do ventre. Uma sensualidade preguiçosa no calor, nos sons, nos perfumes, nas musicas, nos sabores, nas danças. Dos andares, dos gestos, dos olhares, do viver. A noite chega para provocar seus sentidos.

Conheci a Ingrid numa festa libanesa em São Paulo.
Rafael um amigo comum nos apresentou. Austríaca, ela se destacava muito de toda a festa. Muito alta, muito magra, muito branca, os olhos muito azuis, os cabelos longos, ruivos, encaracolados. E linda, escandalosamente linda.
Ingrid era uma mulher especial. Tinha viajando pelo mundo, tripulante de um grande veleiro. Não morava em São Paulo vivia em um sítio em Itatiaia a meio caminho entre Rio e São Paulo.
- Fico mais perto da natureza, de meus cães. Posso saltar de para-quedas no campo das Agulhas Negras. 
- Você trabalha em que?
- Sou especialista em pastores alemães para forças militares. Agora mesmo cheguei de Paris onde treinei cães para patrulhar aeroportos. Paga bem e me permite viajar muito.
Ingrid me mantinha fascinado. Apesar deste perfil era muito feminina, sexy apesar da aparência simples e despojada. Ou por isso mesmo.

Falando de viagens e países descobrimos que os dois conhecíamos e gostávamos muito da Tunísia. Ela tinha morado em Túnis, era louca pela cidade. Conversamos sobre a música, os queijos, a culinária regional de Cartage, os cafés, os restaurantes da cidade, o mercado Souk, as janelas, o artesanato, as gaiolas azuis, até dos amores do Abou Nawas. Finalmente fiz a pergunta inevitável.
- Lembra do vento quente nos fins de tarde?
Ela riu, seus azuis brilharam. Deslizou uma mão lentamente numa carícia subindo pela cintura em direção aos seios. Parou a mão neles, me olhou com um olhar firme, direto,
- Claro que lembro. Um calor que queima mas não sufoca.
- Você tem alguma coisa para fazer hoje à noite?
- Não. Se você quiser te pego logo mais para darmos uma volta.
- Combinado.

Como eu não sabia para onde iríamos me vesti da forma mais comum possível. Camisa pólo, calça de tecido e sapato esporte daria para ficar na média em qualquer lugar.
Na hora combinada fiquei à espera da Ingrid em frente de casa me distraindo com o movimento intenso do Morumbi. Muitos carros e motos para lá e para cá, mas nada da Ingrid parecer, já começava a ficar preocupado com o atraso dela.
Nisso um ruído forte de motocicleta me chama atenção. Som alto e inconfundível de Harley-Davidson. Era das grandes, era negra. Passou rápida e barulhenta pela rua, pilotada por alguém inteiramente de couro negro com umas botas enormes. O som alto da Harley, a figura de negro me distraíram completamente da espera por Ingrid.

Subitamente a moto faz a volta, retorna e para ao meu lado. A figura de negro salta, se põe de pé com a roupa de couro brilhante coladíssima ao corpo, as botas até o joelho, tira o capacete, solta os cabelos ruivos. Era ela.
- Vamos lá? Sobe aí atrás.




(*) Colônia francesa a Tunísia se tornou independente da França em 23 de Março de 1956.
Três semanas antes Norma Jean Morteson trocara legalmente de nome tornando-se Marilyn Monroe. O que uma coisa tem a ver com a outra? Absolutamente nada. 

A Gracia do Capibaribe.

Carioca criado em Ipanema, na Nascimento Silva.
Ali mesmo, um cantinho, um violão, este amor uma canção, pra fazer feliz a quem se ama. Praia em frente à Montenegro, passando sempre na frente do Veloso. Surfando no Arpoador.

Mas nas férias uma imposição familiar. Ficar em Recife.
Uma tragédia, nada pra fazer numa cidade provinciana. Sem hipótese de comparação com Ipanema. Mas eu ia. Fazer o quê? Ia como iria ao cadafalso.
Mas havia compensações. Lá podia aos 12 anos dirigir o jeep de meu avô, dirigir o fusca de minha tia. Prazeres impossíveis no Rio. Também havia mais tarde aos 14 anos os retiros espirituais no Mosteiro de São Bento e as carnes fogosas de uma prima. Va bene.

Para o mosteiro beneditino de Olinda eu levava montanhas de livros, meu gosto por Arte, a vontade de aprender o Barroco. Ficava uma ou duas semanas. Lá eu lia, ouvia gregorianos, engordava como um frade. Para a prima eu levava outros desejos, outro fogo, outras sevícias. Loucuras mais que bem bem-vindas, mais que bem aceitas.

Também haviam os encantos das agulhas fritas na beira do Capibaribe, as piscinas mornas da Boa Viagem, os azuis, os sussurros, as madrugadas, as esquinas da cidade de Bandeira, de João Cabral, de Nelson. A cidade de João Câmara me mostrava outros amarelos e vermelhos. Outros fins de tarde. Numa dessas tive uma revelação. Um acaso, uma epifania mudava meus ouvidos, mudava minha vida.

Chantageando minha mãe por ter deixado minhas areias de Ipanema eu exigia compensações. Ela aceitava e pagava. Pagava em espécie.
Eu então caminhava em direção às agulhas fritas do Capibaribe. Numa destas tardes, caminhando por uma calçada à beira do rio das pontes, das lamas e dos caranguejos, ouvi um som inusitado, nunca ouvido. A música vinha de um bar. Entrei extasiado. Adolescente pedi uma coca-cola.

Ouvi melhor a música que me magnetizava. Uma harmonia incomum. Voz rouca, negra. Ouvi um lamento. Vinha de uma juke-box.
Olhei para ela, caixa colorida, luzes piscando. Não ela, mas era a música que me hipnotizava.
Ray Charles, um desconhecido para um beatlemaníaco. I Can´t Stop Loving You. Era diferente, era novo, era arrebatador. Ouvi, quis ouvir de novo. Fui ao caixa, comprei uma ficha coloquei na máquina.

Ray Charles cantou novamente. Fascinado comprei mais fichas. Repeti a música várias vezes. A canção me transformava. Aprendi numa cidade nordestina a gostar de blues. Quando voltei ao Rio meu destino estava traçado. Blues e jazz até hoje são minha trilha sonora.
Na beira daquele capibaribe-mississipi aprendi a doçura, a agonia do blues, o mistério do jazz.

Muitos anos depois, já muito adulto, mas da mesma forma desprevenido, fui atingido por uma graça semelhante. Outra paixão tomava meu corpo. Recife mudava minha vida novamente. Coloria minha alma com outro amor. Marcava minha carne para sempre.
I can’t stop loving you. 
It's useless to say.
So I'll just live my life in dreams of yesterday.
Those happy hours that we once knew.


Maio de 68. Uma Explosão de Juventude.

Flávio Suplicy de Lacerda era o ministro da Educação em 1964. Cinco meses depois do golpe o governo decretou a lei a Lei 4.464 que regulava os órgãos de representação estudantil. A Lei Suplicy gerava imensos protestos, duramente reprimidos pela ditadura.

Estudando no Colégio São José, o Maristas na Tijuca, mas morando em Ipanema, eu tinha uma longa jornada diária. Solução: me transferir para o D. Pedro II, o melhor colégio público da época no Rio. Problema: o Pedro II não aceita transferências, só se entra por concurso e no começo do primeiro grau. Solução: o ministro Suplicy, amigo da família, determinou que a transferência fosse feita, perguntou para qual das unidades. Preferimos a de Humaitá no Botafogo, a mais próxima de Ipanema.

No Pedro II eu fazia teatro amador, dava aulas de história da Arte, escrevia no jornal do colégio. No diretório era o mais muito ativo contra a Lei Suplicy. Fazia discursos inflamados na frente da escola.
Vilaça, o implacável diretor do colégio observava de longe e ria. Era o único que sabia que aquele garoto de 14 anos só era aluno do colégio por uma deferência justamente do ministro contra o qual protestava. Numa dessas manifestações em frente ao Pedro II a Policia Militar chegou, dispersou-a, prendeu-me, o líder. Dentro do camburão um oficial jovem me perguntou,
- Quantos anos você tem?
- Por que? Qual o problema?
- Responda logo.
- Quatorze.
- Onde você mora?
- Ipanema.
- Você não deveria estar namorando, pegando umas ondas na praia?
- Tenho minhas convicções.
- Convicções? OK, menino.

Fiquei indignado com a falta de respeito. Menino?
Ele foi para a frente da camionete, me deixou sozinho lá atrás. O camburão rodou pelo Rio por um tempo enorme. Parou, o oficial voltou, abriu a porta, me mandou saltar. Estávamos no meio de uma rua completamente desconhecida.
- Saia.
Perguntou se eu tinha dinheiro, mostrei a carteira, tirou todo o dinheiro que havia.
- Agora vá a pé para casa.
- O senhor não vai me prender?
- Não tenho tempo pra garotos da sua idade. Volte a pé para testar suas convicções.
Estava num subúrbio distante. Caminhei horas à fio, cheguei em casa com bolhas nos pés. No dia seguinte quando cheguei no Pedro II todos sabiam, todos haviam visto a prisão. Era o herói do dia. Os meninos com inveja, as meninas perguntavam excitadas como tinha sido.
- Foi duro, foi difícil.

A ditadura se instalou solidamente. O movimento estudantil cresceu, a repressão aumentou barbaramente. Em 66 o movimento estudantil estava no auge dos protestos contra a Lei Suplicy e o acordo MEC-USAID, entre o Ministério e a agência americana, assinado em Junho. Entre o Ministério da Educação e Cultura do Brasil e a United States Agency for International Development. A CIA entrara no MEC. 
Em Setembro já havia a suspensão das aulas na Faculdade Nacional de Direito no Rio. Havia 178 estudantes presos durante o congresso da UNE em São Bernardo do Campo. Protestos pipocavam por todo o Brasil.

Quinta-feira, 22 de Setembro de 1966. Dia Nacional de Protesto contra a Ditadura.
Depois das manifestações cerca de 600 estudantes ocuparam a Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha. Ocupamos e nos fechamos lá dentro. A Policia Militar cercou o prédio. Apesar da censura chegaram jornais e televisão. Durante o dia pais de alunos, políticos e professores formaram uma comissão para negociar a saída dos estudantes.
Enquanto tudo acontecia organizamos a resistência para a mais que provável invasão pela policia. Pedaços de madeira das portas, tijolos e pedras de muros e paredes, produtos químicos dos laboratórios. Situação extremamente tensa. No começo da madrugada chegaram os tanques do Exército. Às três da manhã os militares invadiram a Faculdade de Medicina.

Foi um massacre. O Massacre da Praia Vermelha.
Os militares quebravam tudo, batiam com violência em moças e rapazes. Além dos universitários havia muitos secundaristas, muitos garotos e garotas de 16 anos como eu. Os militares formaram um corredor em direção ao portão de saída. Os estudantes eram espancados em direção ao corredor polonês. Lá o massacre se completava. Caíamos no chão ensanguentados debaixo de cassetetes, chutes e mais chutes até sermos jogados na rua.
Depois de passar pelo corredor polonês eu tentava convencer os outros a voltarem e lutar. Voltei, passei por tudo novamente. Temeroso por minha família não voltei para casa. Fiquei escondido por dois dias na casa de um amigo no Leblon que avisou minha mãe.

Quando voltei para casa fiquei uma semana de cama, machucado, ferido.
Uma tia foi me visitar. Ela, o filho e a filha. Quando ela me viu naquele estado olhou para o filho, militante de um partido de esquerda, que também estivera lá no cerco da Praia Vermelha. Ele fugira antes da invasão, o cara não tinha sequer um arranhão. Ela olhou para ele,
- Esta luta não é para covardes.
Ela tinha razão. Anos depois quando ele foi preso, em consequência de suas delações, quatro pessoas morreram. 

Quando passei pela segunda vez naquele corredor polonês fui atirado de novo na rua. Uma menina me viu sangrando, a cabeça partida. Levantou a saia, umas pernas lindas, rasgou a anágua, pôs um pedaço na minha cabeça. Fomos para uma clinica, enquanto me costuravam ela esperava. Saímos, ela me deu um beijo interminável, quente, salgado. Nunca mais a vi.

Quinta-feira, 28 de Março de 68. À Queima Roupa.
A situação estava cada vez mais violenta desde que a policia tinha invadido o Calabouço, um restaurante universitário, matado à queima roupa o estudante Edson Luis e Benedito Frazão que morreu no hospital. O enterro parou o Rio. Os cinemas da Cinelândia anunciavam os filmes A Noite dos Generais, À Queima Roupa e Coração de Luto.

Sexta-feira, 21 de Junho de 1968. A Sexta-feira Sangrenta.
As manifestações que começaram em frente à Embaixada Americana terminaram com vinte e oito mortos, centenas de feridos, mais de mil presos, quinze viaturas incendiadas.
Estávamos na Av. Rio Branco indo em direção à Cinelândia.
Éramos milhares quando chegamos no cruzamento com a Av. Almirante Barroso. Vimos os pelotões da polícia chegando, na altura do Teatro Municipal. Vi os militares na linha de frente se ajoelharem em posição de tiro engatilhando os fuzis. A multidão se dispersou, choviam bombas de gás lacrimogênio, devolvíamos as bombas, a cavalaria avançou, jogamos bolinhas de gude, os cavalos começaram a cair. Os militares a pé corriam, atiçavam seus cães contra nós, avançavam, atiravam. As pessoas corriam deles, fiz o inverso corri em direção a eles. Encostei-me numa lateral do Teatro Municipal. Eles passaram.

Fomos atrás deles. Por trás deles.
Numa esquina da Av. Rio Branco, próximo ao Jornal do Brasil, ficamos estudantes de um lado, militares do outro, tentando avançar, contornar a tal esquina. Eles se aproximavam, davam tiros, jogavam bombas de gás, nós apanhávamos as bombas, atirávamos de volta. Quem ultrapassava demais a esquina, policial ou estudante, era pego pelo outro lado. Eis que um militar avança demais. Agarramos, derrubamos, o capacete dele caiu, o capacete rolou, começamos a jogar bola com ele.
Uma farra no meio do caos.

Quarta-feira, 26 de Junho de 1968. A Passeata dos 100 mil.
A passeata dos 100 mil foi o clímax e o anti-clímax das manifestações do 68 no Brasil. Depois dela não houve mais nada do mesmo porte.
Às 10hs da manhã a Cinelândia estava repleta. A passeata que começou com 50 terminou com 100 mil pessoas. Até então a maior manifestação da história do país. Não houve conflito apesar do enorme aparato policial. Na frente desfilavam artistas e intelectuais. Com eles uma das mais belas mulheres que já tinha visto. Ela tinha acabado de chegar de Paris, do Maio de 68 que paralisara a França. Desfilava magnífica incendiando meus dezoito anos.

Depois da passeata fui com um grupo para o Leblon. Ia haver uma festa de comemoração num apartamento muito conhecido. Havia muita gente, uma alegria imensa, uma euforia maravilhosa. Ela estava lá, sentada num sofá, linda, deslumbrante. Fui apresentado por um ator amigo meu. Ela notou meu deslumbramento, perguntou,
- Você estava lá na passeata?
- Claro. Não tirei os olhos de você.
Ela se levanta, pega na minha mão, me leva pelo corredor do apartamento,
- Vem cá menino bonito.

Márcia. Garota do Leblon.

Márcia. Conheci a Márcia no curso secundário. Tínhamos 16 anos. Eu estava me transferindo do Colégio Pedro II do Botafogo para o Colégio Rio de Janeiro em Ipanema, que ficava na mesma Rua Nascimento Silva onde eu morava. Ela estudava lá.

Quando entrei pela primeira vez na sala a primeira coisa que vi foi aquela menina. Quase da minha altura, um rosto bonito, um corpo lindo, de minisaia. Os hormônios ferveram. Ela morava no Leblon. Nas saídas da escola, que era próxima do Jardim de Alah, eu passei a acompanhá-la para casa. Conversávamos muito, mas nada além. Depois de algumas semanas antes de irmos para casa passávamos numa pizzaria e tomávamos umas Pepsis.

Apaixonamo-nos. Intensamente.
Nesta época um amigo de um primo, bem mais velho que eu, se tornou também meu amigo. O Mauro morava sozinho num apartamento enorme na esquina da Montenegro com a Nascimento, bem ao lado da Helô. Eu estava sempre por lá ouvindo a coleção de jazz dele. Ele trabalhava na TV Globo e passava o dia inteiro fora de casa. Ele conheceu a Márcia, notou nossa paixão e me ofereceu a chave do apartamento.

Márcia era muito bonita.
Quando fomos à praia pela primeira vez notei o problema que tinha nas mãos. Bronzeada, com um biquíni cenoura, todos literalmente no Leblon ficavam de olho nela. Na época havia a rivalidade dos garotos do Leblon com os de Ipanema o que às vezes não terminava muito bem. Propus que passássemos a ir à praia na minha praia. Não adiantou. Os garotos de Ipanema da minha turma não tiravam o olho dela. Resolvemos que cada um iria para sua própria praia e pronto.

Na época a Helô era objeto de desejo de todos, a música tinha explodido e Ipanema por todos os motivos estava na moda. Nesta época foi filmado o Garota de Ipanema com a Márcia Rodrigues, que estudava na nossa escola. Depois do sucesso nos cinemas nossa escola ficou conhecida como a escola das Márcias. Uma delas era a minha namorada.
A chave do apartamento do meu amigo, disponível, ali tão próximo, na mesma rua da escola, coçava no bolso. Aconteceu.
A partir daí não havia horário de recreio, aula vaga ou saída da escola que não aproveitássemos para ouvir jazz. Tínhamos os dois, aulas particulares de inglês. Começamos a faltá-las e falsificar a assinatura de presença. Preferíamos ir para o apartamento e treinar nosso Yes.

Depois casamos, tivemos dois filhos, separamos, casamos novamente, separamos novamente. Hoje somos muito amigos, dividimos generosamente nossos problemas, reclamamos dos filhos e de nossos respectivos namorados e namoradas.
Viramos dois irmãos. Não se rasga uma história de vida.

Ilse

Ela foi dos meus amores o que menos compreendi. Que menos, ou quase nada, correspondi.
Ela colocava para que eu ouvisse The Look Of Love do Burt Bacharach, nunca esquecerei.
Ela insistia que
The Look of Love is saying so much more than just words could ever say 
And what my heart has heard, well it takes my breath away. 

Para mim era difícil de acreditar, mas ela dizia que 
I can hardly wait to hold you, feel my arms around you 
How long I have waited 
Waited just to love you, now that I have found you 
I´ve got the Look of Love. 

Não que ela não tivesse qualidades para um homem se apaixonar. Bonita, sexy, delicada. Mas eu não encontrava razões para que ela tivesse este Look of Love. Mas ela tinha. 
It's on her face, a look that time can't erase. 
E assim eu a deixei, com um look of love nos olhos, sem entender que 
How long She have waited. 
Waited just to love me.

A música é perfeita, a vida nem tanto. Sorry Ilse.

A Night In Sintra

Quando voltei, fascinado, de minha primeira viagem à Tunísia encontrei como sempre a casa em festa, toda enfeitada. Sempre que eu viajava o retorno era literalmente uma festa. Desta vez encontrei a casa toda decorada com corações, estrelinhas e luas de papelão pregadas nas paredes. E muitas faixas de papel escritas “Viva o Papai”.

Cheguei, ganhei sorrisos, beijos e abraços. Distribuí presentes. Trajes típicos, lenços e káfias para as crianças, perfumes exóticos em frascos delicados e um vestido árabe para Sandra. Depois dos presentes ela me toma pela mão e diz ter uma surpresa para mim. Me leva até o banheiro e mostra a banheira cheia de água morna, sais e espuma.
- Você deve estar cansado da viagem, venha relaxar.

Mal eu entro na água e relaxo, ouço uma música tocando suavemente e tenho uma surpresa emocionante. Ela com muita sensibilidade colocara para tocar “A Night in Tunísia” do Dizzy Gillespie uma das minhas músicas favoritas. Nada poderia ser mais apropriado. Eu olho feliz, agradecido e emocionado para ela. Antes de sair ela acende um luzinha e me serve um uísque com gelo.
- É um Dimple 18 anos, seu preferido.

Uns cinco minutos depois a porta se abre e ela volta. Alta, magra, loura, olhos azuis, pernas imensas. Usando o vestido árabe negro, um enorme sorriso e um daqueles perfumes. A Night In Sintra.

What A Difference A Day Makes

Esther Phillips, Jamie Cullum e Dinah Washington são inesquecíveis cantando What A Difference A Day Makes. É dificil você não ter dançado com a Esther.
Mais dificil é você não se lembrar de um dia que fez toda a diferença na sua vida. Cada um tem o seu.
Que diferença faz um dia? Muitas vezes não faz alguma. Tudo pode esperar e mais um dia não vai mudar muita coisa, se a vida puder esperar. Esperar por mais um dia pode até ser bom, ajudar a amadurecer, preparar melhor o amanhã. Pode até prolongar o hoje.

Mas deixar passar um único dia pode fazer toda a diferença se aquele for o dia D. Diferença entre vida e morte, felicidade e tristeza. Nem sempre dá para saber que diferença faz um dia. Amar pode ser a resposta, e quase sempre é. Que diferença faz um dia se ele for o dia que você não esperava? Um que amanheceu despretensioso, para ser só mais um.

Mas não este. Que trouxe a surpresa de ver Sandra surgindo do nada sem avisar. Preenchendo o dia.
Te vejo chegando, surgindo numa escada. Subindo pouco a pouco, passo a passo, degrau a degrau. Primeiro um rosto, depois um sorriso. Ontem foram dias tristes, dias de solidão, hoje você apareceu. O dia se ilumina e floresce. Que diferença faz um dia? 
Toda. E a diferença é você, mudando o dia, o presente, o  futuro.