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O Humor de Freud e Lacan

Uma coisa que não entendo é por que parte dos meus amigos e amigas psicanalistas são meio sem humor ou se chocam com o humor politicamente incorreto.
Humor politicamente correto é a coisa mais sem graça que conheço. Não acredito em humor a favor todo humor é corrosivo. Isso me surpreende ainda mais por que foram justamente Freud e Lacan quem mais e melhor estudaram o Humor. 

Vale lembrar uma gravação de chamada em espera do telefone de um consultório: 
Obrigado por ter ligado. 
Se você é obsessivo compulsivo tecle 1 repetidamente. 
Se você é dependente e sem iniciativa peça para alguém teclar 2. 
Se você tem múltipla personalidade tecle 3, 4, 5 e 6. 
Se você é maníaco paranoico  nós sabemos quem é você e o que quer, fique na linha enquanto rastreamos sua chamada. 
Se você é esquizofrênico, ouça cuidadosamente que as vozes dirão qual número você deve ligar. 
Se você é maníaco depressivo, não importa o número que você teclar. Ninguém vai atender mesmo.

Mais corrosivo do que Lacan é impossível,
 - O Amor é dar o que não se tem a alguém que não quer.
O próprio Freud diz que o humor não é resignado mas rebelde. Há tiradas dele que são antológicas. 
Ao comentar uma decepção de um colega ele disse,
- Rebecca tire o vestido você não está mais noiva. 
Quando para escapar para a Inglaterra das mãos dos nazistas ele foi obrigado a escrever uma declaração de que havia sido bem tratado ele escreveu,
- Posso recomendar cordialmente a Gestapo a todos.

Shakespeare: Igualdade Racial, Clemência e Piedade

O Bardo é definitivo na delicadeza dos versos, na sofisticação do raciocínio, na precisão da palavra. No discurso de Antônio ao lado do cadáver de César, no de Lady Macbeth antes do assassinato de Duncan, na descrição da sexualidade de Cleópatra. No poema em que canta o sorriso da mulher amada. No incendiário discurso de Henry V antes da batalha de Agincourt.
E em “O Mercador de Veneza” quando Shylock, se referindo a Antonio, fala de igualdade racial:

 Ele me humilhou. E tudo, por quê? Por eu ser judeu.
Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos?
Se nos espetardes, não sangramos?
Se nos fizerdes cócegas, não rimos?
Se nos derdes veneno, não morremos?
E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?
Se em tudo isso somos iguais a vós, então somos iguais em tudo o mais.

Esta fala foi usada por Lázaro Ramos, num contexto bem diferente de Veneza, no filme Ó Paí Ó, em pleno Pelourinho em Salvador, quando "Você é negro, negro, negro!" foi usado de forma ofensiva pelo personagem de Wagner Moura.
 Sim eu sou negro sim, mas por acaso negro não tem olhos? Negro não tem mão, não tem pau, não tem sentido? Não come da mesma comida, não sofre das mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente sua não sua o corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra igual? Quando você fazem graça a gente não ri? Quando vocês dão tiro na gente, a gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo também nisso vamos ser.

A vingança de Shylock está próxima de se realizar quando Antonio fica sem condições de lhe pagar uma dívida de três mil ducados. Antonio tinha dado uma libra da carne do próprio corpo como garantia contratual.
Shylock vai ao tribunal de Veneza exigir a execução do contrato que lhe dá direito a retirar, à sua escolha, uma libra da carne de qualquer parte do corpo de Antônio.
O fim de Antonio se aproxima já que não seria possível lhe retirar uma libra de carne, de onde Shylock escolhesse, e ele escolheu o coração, sem mata-lo. 

Frente a frente com Antonio no tribunal, Shylock com o contrato numa mão e uma faca na outra exige a execução da dívida.
Apesar dos amigos de Antônio se oferecerem para pagar em dobro ou mesmo triplicar o pagamento, Shylock continua irredutível. Exige a libra de carne do inimigo e brada:
 Eu exijo a Lei, eu exijo o cumprimento da Lei!
Todos lhe pedem clemência, os juízes, os advogados, os amigos, até o povo que assiste ao julgamento. Todos clamam por piedade. Mas Shylock insiste no cumprimento do contrato, ele exige a Lei.
Neste momento de alta tensão o Bardo coloca um jovem advogado no tribunal que começa a falar sobre Lei, Perdão e Compaixão. Ele termina o discurso com essas palavras definitivas:
– Quando oras ao teu Deus tu Lhe pedes Justiça ou Clemência?

A Lei organiza os homens em sociedade mas é a Compaixão quem os une e humaniza.

Um Funcionário Exemplar

O Massacre na floresta de Katyn foi um episódio horripilante da ocupação nazista e soviética da Polônia em 1940.
No massacre em que foram assassinadas a sangue frio cerca de 25 mil pessoas, foi eliminado todo o corpo de oficiais do exercito polonês. Atribuído aos alemães foi sempre negado por eles que acusavam os russos.
Só durante a Perestroyka de Gorbatchov é que foi finalmente admitida a responsabilidade soviética. Blokhin foi o principal protagonista deste evento. Um dos mais impressionantes seres humanos que já passaram por este planeta.

Vasili Mikhailovich Blokhin, o performer de Katyn, teve sua mais brilhante atuação neste massacre quando executou pessoalmente mais de 7.000 oficiais poloneses capturados após a invasão soviética da Polônia. Pessoalmente, um a um. Todos os 7.000.
Este exemplar e dedicado funcionário público executando a ordem secreta № 00485 de 4 de abril 1940 de Stalin tornou-se o mais bem sucedido carrasco da História.
Zeloso, Blokhin planejou a operação em detalhes e inicialmente decidiu-se pelo ambicioso número de 300 execuções por noite. Ele criou uma operação eficiente em que os prisioneiros eram individualmente conduzidos a uma antecâmara pintada de vermelho, carinhosamente conhecida como o Quarto Leninista.
Depois de identificado o prisioneiro era algemado e levado para a sala de execução ao lado que tinha as paredes acolchoadas para insonorização, piso em declive de concreto com dreno para escoamento, mangueira de água e um quadro de registro.

Blokhin usava um discreto avental de açougueiro em couro, boné e luvas que protegiam seu impecável uniforme. Um a um ele atirava apenas uma vez na base do crânio dos prisioneiros com uma Walther TPH 2.25 alemã (*). Precavido ele trazia uma maleta cheia com suas próprias Walthers já que não confiava na TT-30 soviética.
Blokhin sempre fiel à sua reputação - na sua brilhante carreira profissional constam dezenas de milhares de execuções - trabalhava de forma contínua, rápida e sem interrupção.
Mas apesar de seu diligente esforço pessoal o número inicialmente planejado de 300 execuções por noite precisou ser ajustado para modestos 250 após a primeira noite de trabalho.

Entre 20 a 30 agentes da NKVD soviética - futura KGB e atual FSB - davam suporte a Blokhin. Eles faziam a escolta e identificação, removiam os descartes e mantinham o ambiente livre de sangue após cada execução. Toda a operação era realizada à noite e prosseguia até pouco antes do amanhecer.
Os resíduos da operação eram continuamente carregados em caminhões que duas vezes por noite iam para Mednoye, onde um trator e dois motoristas escavavam de 24 a 25 trincheiras de oito a dez metros que deveriam estar cobertas antes do amanhecer. A equipe trabalhava sem parar durante dez horas por noite e ao final do trabalho Blokhin distribuía vodka para todos. 
Nesta operação o incansável Blokhin, durante 28 noites consecutivas atingiu a impressionante média de uma execução a cada três minutos.

Lavrenti Béria, chefe do NKVD, reconheceu publicamente seus serviços como “irrepreensíveis”.
Stalin sempre atento aos talentos de sua equipe o promoveu a major-general e o condecorou com a Ordem da Bandeira Vermelha, uma honra reservada a poucos heróis soviéticos.

(*) não confundir com a Walther PPK, muito mais charmosa, a preferida de James Bond, a obra-prima de Carl Walther criada em 1929, produzida pela Carl Walther GmbH Sportwaffen.

O Falo. A Angústia do Ser, do Ter e do Estar.

Muita gente confunde falo com pênis. O Falo não existe na realidade. Ele é uma representação que só existe na nossa cabeça. Quando Freud utiliza os termos falo e fálico ele tem em mente uma fase do desenvolvimento da libido. Libido é aquela energia que nos move na busca de um objeto de satisfação.

Bebês não procuram satisfação no mundo exterior eles se divertem com o próprio corpo no que Freud chamou de autoerotismo. Para eles a maior fonte de diversão é a própria boca por isso usam  a chupeta ou o próprio dedo quando não têm o seio da mãe que ainda não é um objeto externo. O seio é como se fosse parte da criança. Essa primeira fase é a fase oral, depois a fonte principal de satisfação passa a ser o ânus, esta é a fase anal. Elas de certa forma ocorrem simultaneamente.

Após essas duas fases a libido se desloca para o pênis e para o clitóris. Aqui começam os problemas pois até então não havia diferença entre meninos e meninas já que ambos se satisfaziam com as mesmas partes do corpo. Neste momento surge a diferença que permanecerá por toda a vida.
Agora as crianças descobrem que existem diferenças, ele tem algo entre as pernas e ela não. Assim meninos e meninas percebem a diferença entre si. Mas não ainda como um que tem aquilo que no outro falta. Essa percepção vem para o menino quando o pai ameaça que se ele ficar mexendo no próprio pênis este será cortado.

Os garotos então concluem por que as meninas não o têm. Elas tinham, mas o perderam por que mexeram muito em seus próprios pênis e por isso foram castradas.
Para as meninas funciona diferente por que elas não recebem a ameaça do corte. Para elas a diferença entre o pequeno clitóris e o pênis seria por que elas têm um pênis filhote que irá crescer. Como isso não acontece ela passa a achar que nasceu defeituosa. Os franceses sempre muito gentis preferem pensar em l'adorable absence.

Não é exatamente assim que acontece mas serve para ilustrar o conceito do complexo de castração de Freud. Ele usa o mito do complexo de castração para responder por que há um macho e uma fêmea.  Uns que têm algo e outros que não o têm. Este algo a Psicanálise chama de falo.
Na verdade ninguém tem o falo pois a forma de pensa-lo tanto para homens como para mulheres reside na possibilidade de não tê-lo. O homem teme ser castrado e a mulher tem inveja porque já nasceu castrada. Duas angústias que os definirão para sempre.

Falo portanto não é pênis. O pênis é apenas a origem da representação do falo. Sem pênis não haveria a ideia de falo mas falo não é pênis, ele é uma representação simbólica do pênis.
O falo pode ser qualquer coisa que tenha a mesma significação deste órgão de completude. Algo que quem tem não pode perder e quem não tem deseja ter. Esta representação simbólica baseia-se no fato de que não gostamos de nos sentir incompletos.

Daí a competitividade masculina em mostrar conquistas como que para mostrar quem tem o pênis maior. Nas mulheres o exemplo mais comum do falo é o filho. Supercuidadosas elas cuidam dos filhos como se fossem parte do próprio corpo numa espécie de recompensa por terem nascido sem pênis.
Por não deterem o Falo tanto homens quanto mulheres vivem na mesma eterna ansiedade, na incompletude de querer o que não têm, de não perder o que têm, na ansiedade do Ser, do Ter e do Estar.

O Desejo Feminino

Atenção amigos homens. O Ministério da Saúde adverte este post não fará bem pra sua saúde.
Mulheres têm desejo. E maior que o seu. Portanto se seu coração não aguenta vá pra a página de esportes ou faça o que os baianos recomendam: tire a cueca pela cabeça.

O desejo nelas é básico, animal e voraz. Segurou o enfarte? Pois é isso mesmo. Com exceção de sua mãe, sua irmã, sua mulher e sua filha, são todas umas vadias.
Vadia é uma mulher com moral de homem.
Se você não lê inglês sorte sua, mas está tudo lá em “What Do Women Want? : Adventures in the Science of Female Desire” do Daniel Bergner. Não é leitura nem pra machistas nem para corações fracos. Se você não pertence ao clube vá em frente. Mesmo assim bote mais uma dose.

Ou melhor, faça como o John Lee Hooker e peça One Bourbon, One Scotch, One Beer. Um bom blues talvez cure seu pobre coração antes que você precise dizer I want another drink and I want it now.
Desire? Elas têm, elas gostam e gostam muito. Elas não foram feitas para ser de um único homem, aliás de nenhum. É bom ir se acostumando.
Friedrich Engels baseado nas descobertas de Lewis Morgan estruturou perfeitamente a monogamia feminina como criação masculina para preservação da propriedade e da herança. Fidelidade é uma instrumentalização econômica. Ciúme é sentimento artificial relacionado a essa estruturação histórica da sociedade e do Estado.

Freud escreveu: a grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não fui capaz de responder, apesar de trinta anos de pesquisa sobre a alma feminina, é : o que querem as mulheres?
Elas querem tudo, mein freund Sig, alles.
Meredith Chivers da Universidade Queen no Canadá conduziu pesquisas e testes laboratoriais com grupos de homens e mulheres. Qualquer tipo ou variedade de cena sexual as excita. Mulheres são mais flexíveis em sua capacidade de se interessar. Seu universo sexual é mais rico, profundo e complexo. Seu desejo é maior do que elas próprias admitem.

A força natural do desejo feminino sempre atemorizou o homem. Em todas as civilizações, e de muitas maneiras, o desejo delas sempre foi constrangido na tentativa de domá-lo. Desde os códigos culturais até as mutilações, desde os mais sutis até as excisões e infibulações.
Felizmente desde a Revolução Industrial que a repressão e o constrangimento feminino imposto pelos homens vem se dissipando. A tendência natural é que o desequilíbrio desapareça. O que será ótimo já que elas por deterem a criação e serem as naturais preservadoras da vida comecem finalmente a limpar a Verwirrung milenar que os machos espalharam no planeta.

Ou Deus ou a Seleção Natural criaram nas mulheres um über desejo. Voraz, básico, animal. Você conhece maneira melhor de preservar a Criação?
Chocado bróder? Não adianta sair lamentando que são todas umas c.c.riders nem muito menos encomendar uns mojos workings. It don´t work. Console-se com estes dois blues.
E mais, o desejo feminino não é apenas funcional: depois da menopausa quando a funcionalidade chega ao fim muitas vezes o desejo aumenta, a farra continua.
Chamá-las de histéricas? Também não adianta, toda mulher normal é histérica. Todas estão em telhado de zinco quente.

Não esqueça que você já foi apenas um brilho no olhar de seu pai. Ainda bem que a mamma entendeu e deixou rolar. Mamma era uma vadia, só você é quem não sabe.
E lembre-se que a escolha final é delas, o que faz de você meu pobre amigo apenas um motoboy de ácido desoxirribonucleico.

Humor Judaico

A contribuição dos judeus para a história da Humanidade é um patrimônio inestimável. Nas artes, na ciência, nas finanças, na economia, na filosofia, na psiquiatria e na religião pouquíssimos povos contribuíram tanto. Mas há algo mais, há algo monumental do cotidiano. O impagável humor ferozmente auto-depreciativo.

Freud analisou a natureza do humor, e do humor judaico, em Chistes e sua Relação com o Inconsciente, um trabalho de 1905 relativamente pouco valorizado.
Ele próprio um judeu, Freud precisou deixar a Áustria durante o nazismo depois da prisão de Anna sua filha. Após o interrogatório, e antes de se exilar na a Inglaterra, ele foi obrigado a assinar para a Gestapo um documento onde dizia que não havia sofrido maus-tratos. Após assina-lo Freud acrescentou de próprio punho: Posso recomendar altamente a Gestapo a todos.

Nesta época em Berlin dizia-se que um judeu estava lendo o Der Stürmer o jornal oficial do partido nazista. A mulher dele vê,
- Está louco? Isso é masoquismo!
- Muito pelo contrário. Nos jornais judeus só há notícias sobre pogroms, perseguições e injustiças. Mas estou lendo aqui no Der Stürmer que nós judeus controlamos todos os bancos, dominamos as artes e que pretendemos dominar o mundo. Isso me deixa muito feliz.

Einstein, também um judeu disse à respeito de sua Teoria da Relatividade: - Se ela estiver certa os suíços dirão que sou um um homem sábio, os franceses dirão que sou um cidadão do mundo e os alemães dirão que sou um alemão; mas se a teoria estiver errada os suíços dirão que sou idiota, os franceses dirão que sou um alemão e os alemães dirão que sou um judeu.

Pérolas judaicas:
- Qual a diferença entre uma esposa cristã e uma esposa judia? A cristã tem orgasmos verdadeiros e joias falsas.
- Qual a diferença entre um judeu e o papai-noel? Papai-noel desce pela chaminé.
- Qual a diferença entre garotos judeus e os escoteiros? Os escoteiros voltam dos campos.
- Pedi a uma mulher qual seu número. Ela levantou a manga da camisa.
- Sabes por que Hitler se matou? Nós lhe mandamos a conta do gás.

Kvetch em iídiche significa aproximadamente reclamar, choramingar, se queixar. Uma palavra com forte influencia cultural e religiosa que reflete o período milenar da Diáspora, o exílio do povo de Israel entre povos e culturas hostis que marcou a língua e o comportamento judaico. William Grimes diz que o Judaísmo é definido pelo exílio e exílio sem queixa é turismo.
Um senhor que está em um trem se queixa,
- Tenho sede, tenho sede. Todos ouvem o kvetch, um passageiro se levanta e dá-lhe um copo d’água. O homem agradece, toma o copo inteiro. O passageiro volta a seu lugar e ouve novamente o kvetch do senhor,
- Eu tinha sede, eu tinha sede.

Um paciente hospitalizado pede ao medico para ser transferido de hospital.
- O que há de errado? A comida não está boa?
- A comida é boa, não posso kvetch, não posso me queixar.
- O problema é o quarto?
- O quarto é bom, não posso me queixar.
- Então é a equipe?
- De forma nenhuma, a equipe é ótima, não posso me queixar.
- Então por que ser transferido?
- Não posso me queixar.

No filme austríaco Die Fälscher - Os Falsários - de Stefan Ruzowitzky há uma cena antológica. Os prisioneiros judeus estão todos reunidos numa sala do campo de Sachsenhausen. Um deles conta a mais feroz piada que conheço do já ferocíssimo humor judaico.
- Vocês sabem por deus não está presente nos campos de concentração? Por que ele não consegue passar na seleção.

O Fado, brasileiro.

O Fado assim como o Samba têem uma história interessante. O Samba que é tão brasileiro nasceu do Chorinho que teve origens em Portugal. E por uma curiosidade histórica, o Fado nasceu no Brasil. Como? Já estás aos copos pá?
O chorinho nasceu do Lundu uma música portuguesa que ao chegar ao Brasil virou Chorinho que ao se misturar com o Samba Duro dos negros da Bahia virou samba. Depois pela mão de um grupo de bahianos que se mudou para o Rio nasceu o samba carioca que é o que hoje conhecemos por Samba. Ok, mas e o Fado?

Quando D. João VI e a corte vieram para o Brasil em 1808 trouxeram suas características culturais e naturalmente sua música. Aqui esta música se misturou à música local e nasceu uma outra com a característica do lamento e da tristeza de quem estava fora da terra natal. Uma musica carregada de saudade e de reflexão sobre o Destino, daí o nome. Fado é destino. 
Quando finalmente a corte voltou para Portugal levou esta música. Chegando em Portugal o Fado se misturou ao que estava sendo feito no país em termos de renovação musical com influências árabes e francesas e então se consolidou como o Fado tal como o conhecemos hoje.

Historicamente o Samba tem origens em Portugal e o Fado no Brasil. Mais um dos aspectos em que os dois países estão tão intimamente ligados. Falar de Fado sem falar em Amália não dá. “Ó Gente Da Minha Terra” um dos mais lindos que ela compôs, tem uma poesia cristalina com um conhecimento psicológico surpreendente. Note este trecho:
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi
E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Amália diz que a tristeza pareceria ternura se nela se deixasse embalar. Realmente você pode deixar que uma tristeza te embale ao se entregar a ela. Neste caso, este embalar da tristeza cria um sentimento confortável de ternura. E esta ternura, este conforto, tornaria menos triste o teu falar, o teu cantar. 
Aqui que ela mostra a armadilha. Se você deixa a tristeza te embalar há uma sensação de ternura, há uma substituição. A tristeza diminui mas a amargura aumenta. Amália mostra a inter-relação destes sentimentos e a diferença sutil que só um poeta ou um psicólogo percebem .
Amália vai fundo nesta análise e mostra que a escolha correta é não se embalar pela tristeza. Ela mostra que é melhor deixar o canto ficar triste, como no Fado, e impedir que a amargura se instale na alma.

Terremotos Pessoais e o Marquês de Alorna

O Terremoto de Lisboa em 1775 destruiu o porto da cidade, 85% das casas e construções e bloqueou de destroços dois terços de todas as ruas.  Imediatamente depois seguiu-se um maremoto. 

Em seguida ao maremoto dois tsunamis imensos arrasaram o que sobrou do porto, afundou e arrastou navios e construções Lisboa adentro. A imensa massa de água invadiu a cidade e cobriu parte de suas colinas. Depois que as águas baixaram começou um incêndio que durou seis dias. Ao final do incêndio a Peste devastou a população.

Depois de tamanho apocalipse o rei D. José I perguntou ao Marquês de Alorna o que se devia fazer. 
- Sepultar os mortos, cuidar dos vivos, fechar os portos.
Simples assim.
Sepultar os mortos pois não adianta ficar reclamando e chorando o passado.
Cuidar dos vivos, do que sobrou, cuidar do presente. 
Fechar os portos, não deixar portas abertas a novos problemas.

O Marquês de Pombal entendeu, aproveitou a grande oportunidade e reconstruiu Lisboa com avenidas largas, passeios calçados, saneamento básico e planejamento urbano. Na época Lisboa se tornou a mais moderna cidade européia.
Dá pra fazer o mesmo com nossos terremotos pessoais.

O Gôzo do Perverso

De todos os perversos históricos que tenho conhecimento aquele lituano anônimo, mas real, do post www.camaracorrea.com/2012/07/um-lituano_07.html é o que mais me assusta pela espontaneidade de suas ações. Não menos ainda pela interação e cumplicidade da massa disforme, o monstro de mil cabeças de Horacio, que o incentivava.
Blokhin, o carrasco de Katyn chega perto, mas este era um burocrata da morte, tinha tarefas a cumprir. Morreu alcoólatra acossado por seus demônios.

O perverso tem o gozo do Mal se fascina pela ideia de se livrar do tempo e da morte e nos incomoda por mostrar o lado sombrio que todos carregamos. Certamente o mais sofisticado dos perversos foi o Divino Marquês, o de Sade.
Donatien Alphonse estruturava brilhantemente a inversão de valores, trocando os sinais, provando com uma lógica aparentemente correta os maiores absurdos. Ele sustenta que a pessoa que pratica o Bem o faz para mostrar ao outro o quanto lhe é superior. Não o faz por amor, solidariedade ou compaixão, muito pelo contrário o faz para humilha-lo com sua superioridade. O Bom na verdade é o pior dos maus. Assim sendo a gratidão é uma bobagem. Não se deve pratica-la pois quem lhe fez o bem já recebeu no gozo de exercer o poder, no gozo da humilhação, a paga de seu ato.

Certamente que há um gozo, levemente perverso em certas circunstâncias, em fazer o bem quando ele envolve o exercício do poder sobre o mais fraco. Há quem jure e diga horrores sobre Madre Tereza de Calcutá. Mas levar este raciocínio aos limites de Sade é mesmo do Perverso.
O perverso em Sade é semelhante ao dos carrascos nazistas que atribuíam às vítimas a responsabilidade última de sua própria eliminação. Emblemático do humor perverso é a frase inscrita na entrada do campo de Dachau, que tecnicamente seria um campo de trabalhos forçados. Na entrada se lia Arbeit Macht Frei, O Trabalho Liberta. A frase é mais dantesca do que a que o próprio Dante escreveu na entrada do Inferno, Lasciate ogni speranza voi che entrate, Deixem Toda a Esperança Ó Vós que Entrais.

A História está cheia deles.
Calígula ao fim de um jantar servido em seus jardins a um novo embaixador lhe perguntou o que tinha achado. Ele respondeu que a comida estava ótima, apenas o cheiro dos empalados no jardim o tinha incomodado. Prontamente o imperador mandou empala-lo num tronco mais alto para que o cheiro dos outros não o incomodasse.
Você riu, perverso. Há dois perversos aqui neste momento, você e eu. Somos irmãos carregando nosso lado obscuro, tentando contê-lo. Ou não.

Lógico que há níveis diversos em cada um de nós. O que não se pode negar para si mesmo são as muitas vezes em que desejamos matar, fazer sofrer, dominar ou nos exibir. Somos todos perversos, assim como somos todos neuróticos.
Essa consciência sadia nos ajuda a distinguir entre o Bem e o Mal. E quanto mais conscientes melhor, mesmo que isso custe anos de divã. Pelo menos se o psicanalista não resolver seu problema você estará resolvendo o dele.
Mae West dizia que quando ela era boa ela era ótima, mas quando era má era ma-ra-vi-lho-sa. Todos carregamos a marca da perversidade, todos carregamos o gozo da maldade. Nem que seja aquela maldadezinha que você anda louco para aprontar com alguém.

Hannah Arendt vendo no nazismo a institucionalização do perverso cunhou atônita esta definição monumental: A Banalização do Mal. Ali aconteceu uma inversão moral do Estado, a instituição da qual se espera proteção, justiça e imparcialidade. O Nazismo é a fascinante disfunção de uma sociedade culta e moderna que unanimemente se entregou à barbárie, arrastando com ela outras sociedades, criando condições ideais para o livre e extremado exercício daquele lituano.

Onde está, onde se esconde nos desvãos de sua alma o seu lituano?
O meu? Adorei descrever as maldades dele.

Engenharia de Produção

Fazem algumas décadas que o executivo Franz Stangl deixou o Brasil.
Franz que trabalhou durante os anos pioneiros da Volkswagen é um dos responsáveis pela implantação da indústria automobilística no Brasil. Excelente administrador, engenheiro brilhante, ele foi reconhecido diversas vezes por sua competência na organização de processos industriais e de produção em massa. 

Impecável, elegante, Franz era amável, extremamente polido. Muito respeitado sempre se destacou pela forma meticulosa, disciplinada e eficiente com que conduziu todos seus projetos profissionais. Seu primeiro desafio foi como Superintendente do T-4 Euthanasia Programme no Schloss Hartheim. Com incomparável eficiência ele liquidou com a quase totalidade dos deficientes físicos e mentais da Alemanha nazista.

Admiravelmente bem sucedido ele foi promovido a Kommandant do campo de concentração de Sobibor e depois do Campo de Treblinka. Chegando a Treblinka ele encontrou o campo com problemas operacionais nas câmaras de gás, sempre apresentando defeitos, além de problemas de logística na chegada, liberação e manuseio dos trens de carga. Rapidamente ele organizou, sistematizou, todos os detalhes do processo que se transformou em modelo de eficiência operacional. Quando Stangl foi premiado como o melhor comandante de campos alemães, ele disse,
- Transformei Treblinka num local especial com jardins bem cuidados, novos alojamentos, cozinhas novas, alfaiates, sapateiros e carpinteiros.

Com extraordinário senso de organização ele criou em Treblinka um processo rigoroso e preciso onde as cargas chegavam de trem pela manhã, eram classificadas, despachadas e processadas em questão de horas. Stangl atingiu a incrível marca de 99% de finalização de processo em no máximo duas horas.  
Antes do final da tarde o ciclo operacional já estava totalmente finalizado e o campo sem resíduos. Stangl sempre vestido impecavelmente com roupas brancas de equitação inspecionava as instalações. Depois montado em seu cavalo, também branco, ele verificava os jardins e preparava Treblinka para mais um dia de trabalho.
Afável, dava as últimas ordens ao pessoal administrativo antes de voltar para casa onde mantinha a família. Cuidadoso, ele morava em uma vila a alguns quilômetros de distância do campo para que nenhum odor de gás, material queimado ou fumaça incomodasse a família. Artista sensível, nestes fins de tarde ele tocava cítara, como fazia desde a juventude.

Terminadas as hostilidades Hans Stangl deixou a Alemanha após pequenas dificuldades. Viajou através da Áustria utilizando documentos legais, passaporte da Cruz Vermelha e visto para a Síria que lhe foram facilitados pelo Vaticano através do bispo católico austríaco Aloïs Hudal. 
Após implantar e trabalhar durante três anos em instalações industriais têxteis na Síria Franz mudou-se para o Brasil.
Na Volkswagem de São Bernardo do Campo Franz foi sempre muito admirado, tanto pela direção quanto pelos funcionários, por sua capacidade de liderança, extrema eficiência e organização. Franz sempre polido, gentil e amigável raramente se irritava. Quando isso acontecia dizia secamente,
Sieht aus wie Sie flüchtete das Programm - parece que você escapou do Programa.

Apesar de bem sucedido como administrador e engenheiro de produção na Volkswagen do Brasil ele teve a carreira bruscamente interrompida quando foi inesperadamente extraditado em 1967 para a Alemanha. Franz Stangl foi julgado e condenado pela morte de 900 mil pessoas em Treblinka e mais 100 mil em Sobibor.
A Volswagem do Brasil só atingiria uma produção nesta ordem de grandeza muitos anos depois.

Meninas são Lindas

Um dos aspectos mais interessantes da sexualidade feminina nestas últimas décadas tem sido a liberação da sensualidade. Um assunto tremendamente sensível para os homens que assistem, muitas vezes perplexos. As meninas estão se desfrutando mutualmente sem culpa e publicamente.

Não falo da homossexualidade, falo do desfrute ocasional e singelo. A revolução industrial que preparou e catalisou o feminismo é do século Dezenove. A sexual que é dos meados do Vinte foi impulsionada pela pílula e mudou o perfil da sociedade ocidental. Mas isso é coisa das bisavós, avós e mães destas meninas do Vinte e Um. O papo agora é outro. Geração Y.

O comportamento livre, leve e solto, muitas vezes sensível para alguns homens, é sutil. Delicadamente feminino. As meninas estão se descobrindo suavemente, com naturalidade. Não falo daquele interesse que Eça de Queiróz já identificava entre as adolescentes no século XIX, que em geral tinham uma colega na escola a quem chamavam de “o meu sentimento”. Não é isso.
Há uma carga erótica generalizada, comercialmente explorada, esteticamente fascinante, que elevou o tom de sensualidade na sociedade como um todo.
Ela é estritamente feminina. Mesmo que inicialmente movida por interesses masculinos o resultado, a modificação comportamental é inteiramente feminina.

As meninas estão se descobrindo muito mais interessantes, muito mais ricas, fascinantes e sensuais do que se reconheciam. Mulheres são lindas, as mulheres concordam.
Os homens armaram a bomba que está explodindo em suas próprias mãos. As meninas estão sinceramente interessadas nas meninas. Ainda não desistiram dos homens, mas estão notando que são muito, muito interessantes.
Mesmo acompanhadas de seus namorados ou maridos as meninas estão se beijando publicamente. Todo mundo acha lindo, delicado, sexy, cool.

Por mais machista que o argumento possa parecer as meninas assumem que desfrutar umas das outras não lhes muda a opção sexual. Uma amiga me disse se divertindo com o que ela chama de restrições masculinas:
- Posso fazer todas as coisas sem mudar de sexo. Você não.
Não faz muito tempo uma delas foi direta e divertida. Estávamos em grupo numa balada, eu sozinho, ela acompanhada do marido. A certa altura ela me pegou pelo braço, me levou para o centro da pista,
- Vamos paquerar.
- Homem ou mulher?
- Mulher é claro, homem eu já tenho.

O Salto Alto e a Inveja do Pênis

O salto alto deixa a mulher mais desejável, disponível, feminina.
Apesar de não serem exatamente benéficos para a saúde a solução para não precisar abandona-los é variar na altura intercalando os mais altos com os mais baixos para a musculatura não se acomodar. O segredo é não deixar o corpo se acostumar a um único tipo de salto e altura. Saltos entre sete e dez centímetros diminuem a pressão nas veias e melhoram a circulação. Além de deixar as pernas mais lindas o salto alto impede que elas fiquem inchadas. 
Mais altos do que isso, os matadores, devem ser reservados cuidadosamente para execuções a sangue-frio.

Saltos altos alongam, deixam mais esbeltas as pernas femininas. A alteração na postura força os seios para cima e levanta o bumbum. Saltos altos colocam a mulher num pedestal aumentando a autoconfiança. Andar nas pontas dos pés também é sinal de disponibilidade sexual entre outras espécies de animais. Sinais de disponibilidade e docilidade decorrem dos saltos altos chamarem atenção pelo balanço do corpo, pelos passos mais curtos. 

Andar de salto alto é uma arte delicada. 
Punta e tacco devem chegar suavemente ao chão ao mesmo tempo, por igual. Firmemente, decididamente, mas suavemente. E sem fazer barulho, este sim um pecado mortal tão grave que nem precisou ser descrito nas Escrituras. 
Os passos devem seguir sempre por cima de uma mesma linha imaginária. Como que seguindo por um trilho único. Devem ir se sucedendo sobre esta linha sedutoramente em direção ao objetivo. 
Atenção. É preciso muito cuidado por que esta aproximação majestosa pode causar sérios danos à saúde cardíaca dos menos preparados. 

É absolutamente imprescindível ter consciência que a mais simples calçada, o mais banal corredor é uma passarela. O salto alto não é feito para andar, é feito para pisar como se pisa em território conquistado. Sem arrogância, sem força, mas com dignidade de vencedor. 
Esta sucessão de passos cria um movimento nas pernas onde em cada passada elas se abrem e se fecham suavemente uma sobre a outra criando uma ondulação constante. Cada passo mostra e esconde o anterior numa liturgia de oferecimento e negação erótica.
Esta flexão constante provoca uma ondulação inebriante nos quadris. Um leve sorriso, ao final da caminhada, completa a aproximação letal em direção à vítima. Se ela ainda estiver viva é claro.

Apesar de serem objetos femininos os mais geniais criadores destas esculturas são homens. Quem mais senão os próprios homens estariam mais capacitados a esculpir os altares onde se sacralizam as mulheres? Charles Jourdan, Manolo Blahnik, Jimmy Choo e Christian Louboutin são os criadores dos mais requintados desses objetos de desejo. 
Louboutin foi ainda mais longe ao criar sua marca registrada, hoje disputada judicialmente por Yves-Saint Laurent. Além de criar belíssimas esculturas ele teve a ideia perturbadora de fazer vermelha a sola que toca ao chão. Os Louboutins além de serem essencialmente fálicos por seus saltos, passaram a trazer sensualmente sugerida a marca feminina do sangue. Afinal como ele mesmo diz sapato sexy é aquele que os homens querem arrancar. Ou serem pisados por ele.

Andando por Knightsbridge, pouco antes de chegar na esquina da Harrods, passei em frente da Charles Jordan. Olhando a vitrine vi um modelo magnífico. Fui atingido por um raio, mais até. 
Ainda tonto com a potencia da enorme descarga elétrica entrei na loja, fui até ao balcão e pedi à hostess o modelo. Ela reconheceu em minha voz trêmula a importância do pedido. Perguntou o número. Infelizmente não havia o tamanho para minha mulher. Inconformado com tamanha castração insisti desesperado. 
Mesmo sem internet, usando apenas o telefone, ela ali de Londres ligou para as lojas do continente. Tentou em Milão, Madri, Berlin e Amsterdam. Nada, não havia o tamanho. Eu já estava prestes a procurar uma farmácia, um médico, a emergência de um hospital, uma UTI, quando ela finalmente sorriu, me curou, 
- Há um em Paris!
Aliviado olhei enternecido para aquele anjo que vindo dos céus me estendia a mão à beira do precipício. Comprei em Londres um modelo que estava em Paris e que foi entregue diretamente na Alemanha. Uma operação logística digna da deusa que o iria calçar. 

Certo dia minha ex-mulher me pediu que fosse a um shopping center com nossa filha adolescente para lhe comprar um sapato. 
- Que tipo de sapato? 
- Um de salto alto. É o primeiro dela. 
Seria o primeiro salto alto de minha filha, me senti tremendamente honrado. Naquele momento minha ex estava me enviando duas mensagens, uma consciente, outra inconsciente. Primeiro ela me dizia que confiava em meu bom-gosto. Segundo ela admitia que ninguém melhor que a figura paterna para dar à filha seu primeiro símbolo fálico. Emocionado quase lhe pedi novamente em casamento. 

Num salto alto o pé da mulher parece menor, mais delicado como o da Cinderella, que além do fascínio do sapatinho de cristal tinha o pé lindo, delicado. Esta talvez seja a concentração máxima do poder mítico de um sapato. Levar uma mulher das cenders, das cinders, das cinzas, para os braços do príncipe. 
Historicamente a mulher começou a usar saltos altos logo após Adão e Eva serem expulsos do paraíso. Livro de Gênesis 3:14 : Deus ao castigar Eva disse que ela e a cobra seriam inimigas para sempre. “Ela esmagará sua cabeça e você picará o calcanhar da descendência dela”. Eva imediatamente subiu num salto alto.
Não confie numa mulher que não usa salto alto. Ela não é uma representação feminina resolvida. 

O salto alto retém a forma simbólica da penetração e do Falo. O falo é o mais poderoso e onipresente símbolo do imaginário humano. Um significante que está por toda à parte. Olhe em volta. 
Foguetes, totens, pelourinhos, lanças, cetros, cajados, bastões, bengalas, armas, obeliscos, canhões, chaminés, faróis, torres de tv, radar e telefonia, mastros com símbolos coletivos, grandes edifícios e last but not least as colunas da vitória. Cidades e países competem para ver quem tem o edifício maior. A arquitetura em geral é fálica, exceção rara a de Niemeyer que é feminina, curvilínea.

Gestualmente o homem agrega o Falo em sua linguagem cotidiana.
Com os dedos, a mão ou com o braço há gestos obscenos, ofensivos, de obediência, de honra ou de identificação coletiva. O braço levantado da saudação nazista, de origem romana, é certamente um dos mais representativos destes gestos fálicos. 
Leni Riefenstahl fez filmes antológicos onde explorou o fascínio estético de multidões auto-identificadas num mesmo gesto fálico de poder. Milhões de pessoas com este gesto tanto se submetiam ao líder quanto tragicamente abriam mão e transferiam para ele seu poder pessoal. 

Honra, verdade e confiança estão associadas ao Falo. 
O homem que recebe a honra de ser tornar cavaleiro, um Knight, se ajoelha submissamente diante do rei que lhe toca com a ponta de sua espada. 
A liturgia do rei transferindo poder e honra, transformando um homem comum em um de seus pares apenas com o toque de sua espada é significativo da origem fálica de seu poder e do modus de sua transferência. 
Jurar, testemunhar vem do latim Testemonium, derivado de Testi, testículo. Se hoje é costume jurar com a mão sobre a Bíblia já foi costume jurar com a mão sobre os testículos. Os homens juravam por seus pênis, empenhando a própria virilidade. 

Charutos, armas e carros esportes são essencialmente fálicos.
Jeremy Clarkson o excelente jornalista de automóveis da Top Gear na BBC testava um modelo novo da Ferrari. Terminado o teste esperava-se seus comentários sobre a potencia do motor, a estabilidade e outras qualidades da bella macchina, mas Clarkson foi direto: 
- Esta Ferrari é o melhor penis-extender que já vi.
Meu amigo Gui DG, grande músico e compositor de jazz acabara de receber sua belíssima e brutal Ducati vermelha, um ícone italiano de duas rodas. Depois da primeira interação ele disse: 
- Esta moto é um viagra vermelho! 

Freud identificou o Complexo de Édipo como um conjunto de sentimentos e afetos com componentes de agressividade, medo, paixões, amor e ódio. Este complexo de emoções é dirigido aos pais pelas crianças, entre cinco e sete anos aproximadamente e são suas primeiras manifestações de afetividade com conotação sexual. 
No menino o complexo se manifesta no amor pela mãe e pelo desejo de eliminar o pai, seu concorrente neste amor. 
Na menina o complexo se manifesta ao descobrir que lhe falta alguma coisa e que a mãe também não a tem. Ela então despreza a mãe e se dirige ao pai, depositário do falo e do poder. 
Aqui nasce a Inveja do Falo. 

Minha amiga Maria Claverías, de Barcelona, me confessou num acesso de sinceridade catalã, 
- Não tenho inveja do pênis. Tenho os que quiser! 
Uma frase perfeita de deixar Almodóvar totalmente arrepiado. 
Quando uma mulher exerce seu desejo recebendo o falo, ao mesmo tempo em que “come” o membro invejado, exaure e suga sua potência para dentro de si. Nessa apropriação simbólica de poder ela só o liberta quando ele está, pelo menos momentaneamente, impotente.

A agressividade da mulher, ao invejar o pênis, é dramaticamente mostrada por Nagisa Oshima em Império dos Sentidos quando no final do filme a amante corta a genitália do homem e sai com eles exibindo-os na rua. Comer, engolir e decepar o falo é mitificado no Kanamara Matsuri, o Festival do Falo de Aço, em Kawasaki no Japão. 
Três pênis gigantes são carregados pelas ruas em andores num cortejo que sai de um templo construído há mais de 150 anos no Período Edo. Os monges transmitem e perpetuam a lenda de um demônio perverso, de dentes afiados, que se escondia na vagina de uma jovem e que já havia castrado dois homens. Um ferreiro construiu então um falo de aço e com ele quebrou os dentes do demônio. Nem Freud conseguiria ser tão mitologicamente direto.

Lacan diz que a mulher não existe. Existem mulheres, mas não existe A Mulher.
No homem existe algo entre as pernas, nas mulheres não. Simbolicamente o homem é aquele que tem o objeto, a mulher é o ser que não o tem. O Falo ou a falta representativa dele são centrais na psique feminina. A mulher, não tendo um objeto que a represente, conseqüentemente no mundo simbólico ela não tem representação. Não existindo simbolicamente ela inveja o pênis.

O salto alto que deixa a mulher mais disponível, desejável e feminina em sua simbologia e formato é essencialmente fálico. Ele se confunde e interage com a inveja do pênis. 
Nesta substituição simbólica a mulher se apropria da mais essencial simbologia masculina. No plano mágico a mulher exerce a inveja do falo e compensa a falta do pênis. Como nos contos de fadas onde elas tinham suas varinhas de condão e delas emanava seu poder, assim como nas lendas das bruxas que voavam montadas em vassouras. 
No plano real as rainhas têm seus cetros, as mulheres usam tacos de golfe e chicotes de montaria. Mas estes são objetos fálicos que ela divide com o homem, não são exclusivamente seus. 

O salto alto é o único que pertence apenas a ela. É o Falo que lhe pertence, e apenas a ela, que preenche diretamente no seu corpo a ausência do anatômico.

As Cavernas do Sahara

Habib Bourguiba proclamou a Tunísia independente da França em 1956. Fundou uma república secular muito liberal para os padrões de uma nação árabe de maioria islâmica. O país se modernizou, ocidentalizou-se. Bourguiba impôs liberdade religiosa, igualdade para as mulheres, incentivou o turismo, acelerou economia. Investiu em educação para tirar o país do atraso colonial.

Mustapha Grissi nasceu uns dez anos depois de Bourguiba chegar ao poder.
Nasceu e morava com a família nas cavernas de Matmata, escavadas abaixo do solo do deserto do Sahara. Matmata é uma rede subterrânea como túneis de cupins que se interligam num labirinto onde vivem famílias inteiras há séculos. A estrutura social das tribos é rígida, patriarcal.
Não se ensina as mulheres a falar, elas raramente saem dos túneis, não dirigem o olhar a nenhum homem, só ao pai. Depois de casadas passam a olhar apenas ao marido.

Grissi é um grande amigo meu.
Vivendo nos túneis de Matmata ele cursou o ensino básico até que representantes do Estado vieram lhe buscar. Excelente aluno ele foi separado da família para estudar na capital. Destacou-se desde os primeiros anos até chegar o momento do curso universitário. Pelo excelente desempenho o Estado mandou-o para a École Polytechnique, em Paris, que desde 1794 forma a elite francesa. De lá saíram alguns prêmio Nobel.
Grissi passou nas provas de admissão, cursou a escola, formou-se em Engenharia, foi laureado como melhor aluno. O menino árabe tirado das cavernas do Sahara foi o aluno mais brilhante em Paris.
Choveram ofertas de trabalho. Casado com Martine, uma francesa, Grissi respondia que só aceitaria trabalhar na Tunísia,
- Vou voltar para dar o retorno por tudo que meu país investiu em mim.
Grissi voltou para a Tunísia com sua Martine. Trabalhou em funções muito aquém de sua formação e capacidade até que uma indústria francesa instalou uma fábrica de eletrônicos em Túnis e lhe entregou a direção.

Grissi tentava tirar o restante da família dos túneis de Matmata, mas enfrentava forte resistência do pai. Só havia conseguido há alguns anos trazer o irmão Ámor para estudar e morar com ele em Túnis.
Certa noite estávamos Grissi, Ámor e eu na casa deles, próxima de Cartago, bebendo e conversando enquanto Martine nos preparava mais um de seus excelentes jantares. Grissi me conta,
- Tenho uma grande novidade. Consegui trazer minha irmã Bouchra para morar conosco.
Fiquei surpreso, alegre muito alegre. Era uma vitória para ele que o pai tivesse permitido a filha sair do ambiente patriarcal.
- Bouchra tem 15 anos e só agora está aprendendo a falar.
O choque cultural era enorme. Do deserto para uma cidade grande, das cavernas para uma casa de hábitos franceses. Grissi conta as dificuldades de adaptação de Bouchra. O máximo que ela tinha aceitado fôra frequentar uma escola de costura numa pequena turma de mulheres,
- Pelo menos assim ela vai aprendendo a falar francês.

Grissi tinha de leva-la e trazê-la todos os dias.
Bouchra só saia de casa com ele, agora o substituto do pai. Em casa ela não saía do quarto nem para se sentar à mesa nas refeições. Da casa não saía nunca a não ser para a escola.
Fiquei curioso de conhecê-la. Ela estava no quarto no andar de cima, mas certamente não iria descer, principalmente havendo outro homem na sala.
Martine chega da cozinha,
- J'ai une surprise pour vous.
- Para mim? Martine o que estás tramando? Ela ri um sorriso enorme,
- Une cassete de musique. Gravei uma fita só com música brasileira para esta noite.
- A gentileza de vocês não tem limites!

Fiquei imaginando que tipo de música Martine teria escolhido. Que tipo de música brasileira eu ia ouvir ali na Tunísia. Preparei-me para ouvir qualquer coisa e para gostar, por pior que fosse. Martine colocou o volume muito alto, a música encheu a sala. Levei um choque de alta voltagem. Som de tambores, a marcação inconfundível.
Longe de casa, num país árabe, há tantos anos sem ver minha querida Salvador, subitamente os tambores do Olodum estrondaram alto na sala. Engoli em seco, tomei um gole de vinho, segurei o soluço.
- Vous connaissez? Vous aimez?
- Se conheço, se gosto? Eu adoro! Martine, você não poderia ter escolhido melhor. És uma bruxa! Esse grupo o Olodum - deus dos deuses - é da cidade onde eu morava.
Martine, Grissi e Ámor riram espantados de tamanha coincidência.

Em seguida ao Olodum, vieram muitas músicas, todas da Bahia, sabe-se lá por que. De repente se ouve a voz de Gal Costa,
- São Salvador, Bahia de São Salvador...
Foi demais, eles notaram. Levantaram, me deram um abraço enorme. Um tunisino, uma francesa e um brasileiro unidos por Caymmi num abraço. A voz doce de Gal,
- São Salvador, Bahia de São Salvador, a terra do Nosso Senhor, pedaço de terra que é meu...
Traduzi, até eles choraram.

Vieram outras, todas de carnaval. Eles pedem para lhes ensinar a dançar. Daí a pouco estávamos todos pulando, dançando, cantando de mãos dadas, fazendo roda. Segurando na cintura uns dos outros, fazendo trenzinho. Um carnaval.
Subitamente Grissi para. Olha para o alto da escada. Todos paramos, seguimos seu olhar. Tivemos o mesmo choque. Lá estava Bouchra. Parada no alto da escada, meio escondida, observando.

Uma menina morena da cor árabe, alta, cabelos longos levemente ondulados, rosto muito bonito, olhos expressivos, um brilho de curiosidade no olhar.
Grissi desliga a música, sobe a escada, conversa, pede para ela descer. Ela nega, Grissi insiste, ela reluta. Ele toma sua mão, ele começa a descer. Ela acompanha. Bouchra começa a descer bem devagar.
Fico observando sem olha-la para não constrangê-la. Ámor e Martine também esperam parados, surpresos, no meio da sala.

Algo extraordinário estava acontecendo.
As músicas, nossa alegria, tinham tirado a menina do quarto. Enquanto Bouchra e Grissi descem a escada Martine recoloca a fita no princípio. Os tambores do Olodum voltam a tocar. Ela toma minhas mãos e as de Ámor, recomeçamos a dançar. Bouchra fica olhando. Grissi a traz pelas mãos, se junta a nós, começa a dançar.
De cabeça baixa, a menina começa a se mexer lentamente. Movimenta-se devagar, depois acelera os movimentos, tenta nos acompanhar.
Em pouco tempo a menina vinda das cavernas do deserto, que vivia trancada num quarto, sem olhar nos olhos de ninguém já estava dançando, mexendo os quadris. Sorria discretamente, depois ria alegremente, iluminada, feliz.

Bouchra descontraía. Bouchra nos acompanhava. Bouchra fazia trenzinho. Segurava nossa cintura, segurávamos na cintura dela. Ela ria, dançava.
Bouchra renascia, ressuscitava ao som do Olodum.

Honra e Dever

O senso de Honra e Dever é algo muito semelhante a japoneses e alemães. Tenho um amigo alemão, Jochen Nevries, notário em Görlitz, Sachsen.
Quando era advogado, seu escritório havia quebrado. Jochen foi a um banco explicou ao gerente que iria fazer concurso para ser notário. Além das provas de capacidade jurídica era necessário provar ter recursos para instalar a estrutura necessária do cartório. Jochen levantou um empréstimo, vinculou a quantia.
Me explicou que naquele momento crítico da vida essa era fora sua única saída. Falido ele jogara tudo no concurso.
– E caso você não passasse? Prussianamente ele respondeu,
– Me mataria.

Este senso prussiano de sacrifício é culturalmente semelhante ao do Harakiri japonês. A morte é preferível à desonra. Suicídio não é fraqueza é ritual da Honra.
Da mesma forma a vida é associada à dignidade do Dever. Quando um piloto japonês Kamikaze, o Vento Divino, subia em seu Mitsubishi Ki-15 para realizar sua última e definitiva missão ele o fazia pela honra, pelo dever de servir à Pátria e ao Imperador.
Antes da decolagem eles punham na testa uma fita Hachimaki, com o sol nascente. Na cintura colocavam o Senninbari, um cinto de mil pontos costuradas por milhares de mulheres que fizeram um ponto cada uma. Compunham e liam um poema como os samurais antes de cometer o Seppuku.
Recebiam condecorações militares. Embarcavam com uniforme de gala e com a Katana.

O pai de Jochen foi piloto especial de Stukas.
Os pilotos eram escolhidos entre a elite da Luftwaffe, a força aérea alemã. Estes Stukas - Sturzkampfflugzeug, bombardeiro de mergulho - eram Junkers Ju 87 adaptados com um motor superpotente para uma missão especial.
Identificado o alvo o piloto mergulhava, de alta altitude, com toda a potência aberta. Próximo ao alvo ele soltava a carga, puxava o manche inteiramente, injetava ainda mais potência e subia quase na vertical.

Esta súbita mudança de descida vertiginosa para subida imediata submetia o corpo e a coluna do piloto à pressões imensas. Em geral esta carga sobre a os órgãos e a coluna lesava os pilotos.
As duas súbitas mudanças de pressão atmosférica, na descida e na subida, com a consequente falta de sangue no cérebro desmaiava alguns pilotos. Alguns morriam durante a manobra radical.
A Luftwaffe só permitia no máximo duas dessas missões. O pai de Jochen fêz três.
Na última, ao pousar, Herr Nevries foi retirado do cockpit numa cadeira de rodas de onde nunca mais saiu.

Ouvindo essa estória um amigo baiano me disse no mais puro e destilado baianês,
– Pôrrééssa bróder, vássifudê, que história mais bôca de zero-nove, deus-é-mais!