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Sua Música. Your Song do Billy Paul.

Billy Paul reescreveu lindamente a música original do Elton John.
Mudou frases, mudou muitos versos. Introduziu estrofes inteiras. A música mudou inteiramente. Quando ouvidas as duas versões são quase irreconhecíveis, principalmente por que ele introduziu um soul e um swing extraordinários, arranjo do Lenny Pakula.
A música ficou literalmente a your song do Billy Paul. Sorry Elton. It's a litlle bit funny.

Como quase todo mundo já ouvi e dancei a Your Song do Billy Paul vezes incontáveis.
Se você lembrar há duas pausas na música. Cada uma delas leva a um reinício, cada uma leva a um leve “crescendo” até chegar naquela alegria final de todos os “crescendo”.
Meu irmão Sérgio gravou-a para mim fazendo uma montagem onde ele transformou as duas pausas em várias. Ficou perfeito não se percebe a colagem, a música passou dos originais seis minutos e meio para mais de trinta. Puro deleite.
On the road: sem capota, céu azul, brisa no rosto, babe next seat, não tem preço.
On the dance floor: anestesia, é puro high, three sheets in the wind.

Billy diz: perdoe-me se esqueci se são verdes ou azuis, o que realmente importa é que você tem os olhos mais doces que já vi. Parece Jobim dizendo que este seu olhar quando encontra o meu fala de umas coisas que eu não posso acreditar. Billy chega muito perto de Amália quando ela diz que estes teus olhos de encantos tamanhos são pecados meus, estrelas fulgentes, brilhantes, luzentes, caídas dos céus, teus olhos risonhos, são mundos, são sonhos.

Billy completa dizendo: conte a todo mundo que Billy Paul fez uma canção, que ela é sua. Ela é bem simples mas é como ela foi feita, espero que não te importes como escrevi estas palavras. E diz estar tão inspirado que poderia escrever, escrever, escrever e escrever. Tanto um Gospel, um Blues, um Jazz ou um Rock'n'Roll. Mas ele fez um Soul delicioso. I'll write a few verses and then I get the blues.

Voltando a Jobim e Amália convenhamos que  falando de olhares entre a doçura da Bossa Nova ou a precisão do Fado bom mesmo é dançar o soul do Billy Paul. Dançar e dançar muito. Keep turnin' on.
Tenho uma amiga que diz que quando dança Your Song vê estrelinhas brilhando. O que é quase como dizer que sente borboletinhas na barriga ou algo ainda mais gostoso.

Há alguns anos assisti Billy Paul ao vivo.
Claro que ele deixou His Song para o final, a casa lotada, todo mundo esperando por Your Song. Na mais perfeita companhia dancei Her Song olhando nuns olhos que sempre lembrarei a cor.
Os mais doces que já vi, falando de coisas que eu não podia acreditar, teus olhos risonhos foram mundos, são sonhos.



Comidinhas Para Depois Do Amor

Vinícius de Moraes diz que é preciso além de se sagrar cavalheiro e de ser de sua dama por inteiro, deve-se também saber fazer umas coisinhas. Umas comidinhas pra depois do amor.
Lá vai uma sugestão.

Mousse de Gorgonzola.
Ingredientes:
150g de Gorgonzola ou Dancheese, 1/2 xícara de manteiga sem sal, duas colheres de sopa de creme de leite, 1/3 de xícara de castanhas de caju torradas sem sal.
Preparo:
Faça no processador um purê com a manteiga e metade do queijo, coloque este purê numa terrina e por cima o resto do queijo, a pimenta e metade das castanhas.
Misture tudo e deixe na geladeira por duas horas. Para servir tire da forma e jogue o restante das castanhas por cima.
Mantenha na geladeira por que mais tarde você vai precisar ter à mão. Acompanhe com pão.

Depois dessa entrada, impressione-a com camarões flambados. Chamas são sempre belas e vão combinar com os momentos depois do amor.
Camarão à Taanit.
Ingredientes:
500 g de camarões médios descascados, 2 doses de Cognac, 1 colher de sopa de manteiga sem sal, 1 xícara de creme de leite, 1 dente de alho picado muito fino, sal e pimenta a gosto.
Preparo:
Limpe, lave e deixe os camarões por 5 minutos em suco de limão.
Lave-os novamente e seque-os bem.
Derreta a manteiga em fogo baixo e frite o alho ligeiramente. Aumente o fogo e quando a manteiga estiver bem quente deite os camarões. Vire-os apenas uma vez.
Quando estiverem no ponto - nunca passe de cinco minutos - acrescente o Cognac e flambe.
Após as chamas se apagarem coloque o creme de leite, mexa e sirva imediatamente. Acompanhe com arroz branco, feito só em água e sal.

Sem sobremesas.
Faça a doçura ficar por conta de novos beijos e depois, e assim revigorados, é só se entregar a mais um pouco de amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada. Para viver um grande amor. (V.M.)

A Fênix de Berlin.

Numa cena clássica do Cinema, o enlouquecido tenente-coronel Bill Kilgore, em Apocalypse Now de Coppola, comanda uma patrulha de helicópteros contra a uma aldeia durante a Guerra do Vietnã ao som da Cavalgada das Valquírias de Richard Wagner como em alguns ataques da Luftwaffe na II Guerra Mundial.
Entre Dezembro de 1944 e Maio de 1945 Wagner e Tchaikovsky seriam protagonistas e trilha sonora do destino da Alemanha e de um de seus maiores patrimônios, a Berliner Philharmoniker, a Orquestra Filarmônica de Berlin.
Personagens. 

Wilhelm Furtwängler – Compositor e regente da Filarmônica de Berlin. Um dos maiores regentes do século. Um dos únicos que Arturo Toscanini admirava, tanto que o convidou para ser seu sucessor na Orquestra Filarmônica de Nova Iorque. Furtwängler declinou por pressão de Hermann Göring que o forçou a aceitar novamente seu cargo na Ópera de Berlin. 
Leo Borchard – Regente da Filarmônica de Berlin de 1933 até 1935 quando foi banido pelo regime nazista como politicamente perigoso. 
Nicolaus von Below – Aristocrata, coronel, conselheiro da confiança de Hitler para assuntos da Luftwaffe, a força aérea alemã. 
Albert Speer – Administrador e arquiteto brilhante, amante de Bach e Beethoven, confidente de Hitler e Ministro do Armamento da Alemanha. Único dos principais dirigentes a não ser executado pelo Tribunal de Nuremberg. Assumiu a responsabilidade por seus atos, cumpriu 20 anos na prisão de Spandau e escreveu dois best sellers. 

Últimos atos. 
Dezembro de 1944. 
Hitler diz a Von Below  Sei que a guerra está perdida, o inimigo é muito superior a nós... podemos até afundar mas levaremos o mundo conosco. 
Furtwängler pergunta a Speer se a Alemanha tem alguma chance de vencer. Speer lhe aconselha a se refugiar na Suíça para estar a salvo de vinganças de última hora. Havia uma filmagem que o mostrava limpando a mão com um lenço depois de cumprimentar Joseph Goebbels. 
25 de Janeiro de 1945 – Furtwängler foge para a Suíça pouco tempo depois de reger um concerto na Áustria com a Filarmônica de Viena.
19 de Março de 1945 – Diretiva Nero de Hitler ordenando destruir absolutamente tudo na Alemanha. O fim do mundo de Wagner.
Cinco semanas de Wagner. 

Quinta-feira, 12 de Abril. Von Below é convidado por Speer para o que este planejara ser a última apresentação da Filarmônica de Berlin. O Exercito Vermelho estava às portas da cidade. No último momento Speer troca a programação e a orquestra toca Die Götterdämmerung, O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner. Era a senha para a fuga de toda a orquestra que Speer havia preparado para salvá-la dos soviéticos.
Segunda-feira, 16 de Abril. O Exercito Vermelho ataca Berlin em duas frentes.
Sexta-feira, 20 de Abril. Comemoração no bunker da Chancelaria do último aniversário de Hitler. O bunker está sendo bombardeado. Speer se despede do Führer.
Sábado, 21 de Abril. O Exercito Vermelho toma o Quartel General do Alto Comando Militar Alemão em Berlin. 
Segunda-feira, 23 de Abril. Berlin está completamente cercada pelos soviéticos.
Terça-feira, 24 de Abril. Na noite de 23 para 24 Speer vai ao bunker da Chancelaria se despedir pessoalmente de Hitler. Speer deixa Berlin.
Quarta-feira, dia 25 de Abril. Desde o dia anterior um batalhão de soldados marroquinos promove uma onda de estupros em Gönningen. A violação das Valquírias de Wagner.
Domingo, 29 de Abril. Von Below assiste o casamento de Hitler e Eva Braun. É testemunha do testamento político de Hitler apesar de não assinar o documento. De madrugada o casal se mata. Morrem como Tristão e Isolda de Wagner. O casal é incinerado com gasolina. As chamas se elevam dos corpos como em Siegfried e Brünnhilde, a cena favorita de Hitler no final de Der Ring des Nibelungen, O Anel do Nibelungo de Wagner. 
Segunda-feira, 30 de Abril. Von Below deixa Berlin. 
Segunda-feira, 7 de Maio. A Alemanha se rende incondicionalmenteO Crepúsculo dos Deuses, de Wagner.
Terça-feira, 8 de Maio. Fim da Guerra. A destruição do Valhalla, de Wagner.
Sábado, 19 de Maio. Leo Bochard assume a regência e a direção artística da Filarmônica de Berlin substituindo Furtwängler
Quarta-feira, 23 de Maio. Fim do último governo nazista. Speer é levado para a prisão de Flensburg, de onde iria para Spandau por vinte anos.
Sábado, 26 de Maio. A Filarmônica de Berlin dá seu primeiro concerto pós-guerra. O edifício da orquestra estava em ruínas. A orquestra, salva por Speer, se apresenta no cinema Palast Titania regida por Leo Borchard. No programa a Quarta Sinfonia de Tchaikovsky.
Tchaikovsky dedicou a sinfonia a sua mecenas Nadezhda von Meck, a quem se referiu na dedicatória como "minha melhor amiga". 
Finale com Tchaikovsky. 

Em uma carta para Nadezhda, Tchaikovsky explicou o sentido de sua Quarta Sinfonia: "o Destino, esta é a força fatal que impede o impulso para a felicidade de alcançar seu objetivo...(é quando)...o sentimento de solidão e desespero se torna mais forte e mais corrosivo. Oh alegria! Pelo menos um devaneio doce e meigo apareceu".
A Filarmônica de Berlin soprava as cinzas com um doce devaneio. 

Modern Jazz Quartet

Estava em Londres quando Maria Helena, minha namorada, me fez uma enorme surpresa. Deu-me de presente uma entrada para assistir ao show do MJO - o Modern Jazz Quartet - do Milt Jackson e do John Lewis.

Ela sabia que eu adorava os caras, fiquei über alegre. Espantado perguntei,
- Por que só um ticket? Você também gosta deles, não vamos juntos?
- Ao invés de comprar dois ingressos preferi comprar um só na primeira fila, para você. Mas te espero na saída do teatro para jantarmos juntos. 
Ela devia estar realmente apaixonada. Enchi-lhe de beijos, amei-a com doçura, fiz-lhe as vontades. No dia seguinte tentei comprar uma entrada para ela mas já estava tudo esgotado há semanas.

O Royal Festival Hall fica na margem do Thames oposta ao Parlamento, ao Big Ben.
Em pé na fila de entrada do teatro, o som solene do Big Ben marcava que uma hora importante estava chegando. Sentado na primeira fila o silencio solene marcava que chegara a hora de ouvir os ídolos.
Eles chegam, silencio absoluto, tomam seus lugares. O teatro escurece, o espetáculo começa. A música fluí como uma bênção. Absolutamente lotado o teatro assiste em silêncio religioso, os raros aplausos eram discretíssimosNão era um show de jazz era um culto, uma cerimônia.

Acho que eles começaram com Django.
Os solos do Milt Jackson no vibrafone me lembravam que tinha aprendido a gostar do instrumento por causa dele. Lembrava dos meus primeiros shows de jazz, ainda adolescente, nas tardes de Jazz&Bossa aos sábados no Copacabana Palace.
Sentado bem em frente ao John Lewis eu olhava fascinado as mãos negras flutuando no teclado branco, contrastando com as teclas do piano.
Acho que eles terminaram com Round Midnight.

Quando terminou eu ainda me sentia perto do paraíso, faltava pouco pra chegar lá. A vontade de chegar perto dos ídolos era grande mas em Londres essa aproximação era impossível. As pessoas hesitavam em sair. Difícil aceitar que terminara. Antes de sair olhei para trás certo que talvez não os veria novamente.
Um abraço amoroso me esperava na saída. Fomos para casa, ela havia feito um coq au vin, ela abriu um Valpolicella, ela colocou Bag's Groove, ela me fez as vontades.

Semanas depois fui a Salvador, aniversário de meu filho Eric. Quando cheguei tive uma surpresa enorme. Modern Jazz Quartet estava na cidade para uma única apresentação. Um milagre.
No dia do espetáculo lá estava eu de novo, na primeira fila é claro. Só que desta vez no Teatro Castro Alves, meio vazio. No fim do show não vacilei e junto com outras pessoas subi no palco para falar com os músicos, coisa que eles próprios estimularam.

Indescritível apertar a mão do Milt Jackson. Apertar a mão de um dos que primeiro me conduziram pelo jazz, quase a beijei. Conversei muito com todos. Falando com o John Lewis disse que os havia ouvido em Londres há algumas semanas. Ele se surpreendeu, riu e brincou:
- Você está nos seguindo pelo mundo?
- Não, infelizmente não. É só uma enorme coincidência.
- Mas o que você acha de continuar nos acompanhando?
Ri da gentileza, da brincadeira, dele. Hoje acho que deveria ter aceitado.

A Night In Tunisia

Túnis fica à beira do Mediterrâneo em frente da Itália e da França no norte da África. Tem o mesmo clima da Cote D’Azur, a mesma cor turquesa no mar e uma fascinante mistura de culturas árabe e francesa. Tem as duas línguas, as duas culturas.

Além disso Túnis tem algo muito, muito especial.
A cidade é cercada por um cinturão de cultivo das mais diversas flores para produção das essências que abastecem as industrias locais e francesas de perfumes.
De dia sopra um maral, do mar para a terra, e nos fins de tarde o vento se inverte para um terral vindo da terra para o mar. Como o Sahara ocupa quase metade do país o vento da tarde vem diretamente do deserto em direção à cidade. Um vento quente e seco que antes de chegar a Túnis passa pelas plantações de flores trazendo seus perfumes.

No fim de tarde a cidade é tomada por essa brisa inebriante que sopra durante toda a noite até ao amanhecer, perfumando toda a cidade. A sensação é quase sufocante, entontecedora. Este começo da noite em Túnis além de perfumado é muito festivo pelo ruído ensurdecedor dos milhares de pássaros que trinam ao mesmo tempo, logo após o por do sol, na avenida central Habib Bourguiba. Sorri, lembrei de Shakespeare, de Gonzalo comentando o casamento de Claribel com o Príncipe de Túnis.
Estas noites de calor, sons e perfumes inspiraram a música A Nigth In Tunísia do Dizzy Gillespie. 

Eu estava saindo de uma palestra no Hotel Abou Nawas e voltando para o Afrique Méridien na avenida Bourguiba, onde estava por uma semana. Noite muito clara, límpida, cheia do perfume de Túnis. Minha primeira noite no Magreb, minha primeira noite na África. Fiquei imaginando como o Dizzie devia te-la sentido ao fazer o jazz que gosto tanto.

Como os dois hotéis são próximos, resolvi aproveitar a noite morna e enluarada para caminhar de volta ao meu. Caminhando pela calçada alcancei um velhinho. Um fedayin. Ele não usava a kafia branca dos sauditas nem a branca e vermelha dos outros árabes. Usava a branca de riscas pretas dos palestinos. Quando o alcancei acertei meu passo ao dele. Nos olhamos, nos cumprimentamos,  puxei conversa. Ele não falava francês como quase todo tunisino, só árabe. Sendo assim decidi  falar em português.

E assim fomos conversando por muito tempo cada um falando sua própria língua. Ele na dele, eu na minha, ele em árabe eu em português. Olhávamos as estrelas, a lua, falávamos de muitas outras coisas. Fomos caminhando como dois conhecidos.
Subitamente surge do outro lado da avenida um rapaz fazendo gestos para nós, falando em francês. Impaciente ele atravessa a avenida se aproxima de nós, me pergunta se o palestino estava me incomodando, me pedindo alguma coisa.
- Non monsieur.

Expliquei que estávamos passeando e conversando. O rapaz se volta para o velhinho em francês, o velhinho responde em árabe, os dois conversam em árabe.
O rapaz se volta para mim,
- Mas ele não fala francês, você fala árabe?
- Não, infelizmente não.
- Se nem você fala árabe nem ele fala francês como é que vocês estavam conversando?
- Com o coração. Pergunte a ele se não estávamos falando sobre o perfume da noite de Túnis, destas estrelas, de nossos filhos, de onde eu sou, de onde ele é.
O rapaz faz algumas perguntas ao velhinho, se volta para mim espantado,
- Incrível ele confirmou tudo. Precisamos comemorar este milagre.

Paramos em algum lugar e o rapaz, que era estudante de Medicina, disse que só voltaria para casa naquela noite depois de me ensinar meia dúzia de palavras em árabe e de aprender outras tantas em português. Nos divertimos muito e depois de muitas comilanças e de beber muita água voltei para o hotel e dormi minha primeira A Night In Tunísia.

Os Deuses Malditos

O filme La Caduta Degli Dei - a Queda dos Deuses - realizado em 1969 é uma das obras-primas de Luchino Visconti. Os Deuses Malditos, aqui no Brasil, é a saga de uma família aristocrata alemã da industria do aço no período do nazismo, a família Krupp, uma dinastia de 400 anos de Essen.

O título é magistral, sintetiza perfeitamente o filme e a situação histórica. Mesmo assim há de se perguntar por que Visconti escolheu este título, A Queda dos Deuses. Afinal os Krupp não caíram, não perderam, muito pelo contrário se beneficiaram tremendamente com a guerra. O grupo econômico ThyssenKrupp continua fazendo parte de nossas vidas até hoje em diversos ramos multinacionais. Que deuses malditos caíram?

Albert Speer ( pronuncia-se ischpéar) foi o arquiteto preferido de Hitler.
Brilhante, culto e sofisticado Speer criou obras belíssimas, prédios monumentais e desenvolveu um novo plano urbanístico para Berlin. Como cenógrafo criou os espetáculos de luzes e movimentos humanos que fizeram dos comícios nazistas obras de arte de Leni Riefenstahl. Ironicamente um desses filmes, O Triunfo da Vontade, foi premiado em Paris. Antes da guerra é claro.
Speer foi um administrador brilhante. Como Ministro do Armamento foi responsável pela coordenação da industria alemã no esforço de guerra. No fim, já desiludido com a loucura do Führer, Speer estava na lista dos conspiradores da Operação Valquíria liderada por Von Stauffenberg para matar Hitler.
Speer foi um dos poucos acusados a ter a vida poupada no Julgamento de Nuremberg, assumiu toda a responsabilidade por seus atos, cumpriu pena de 20 anos em Spandau e depois publicou dois best-sellers. Churchill reservadamente o chamava de “o bom nazista”.

Quando Hitler no fim da guerra ordenou a Operação Nero, a política de terra arrasada para destruir o que ainda restava da Alemanha, Speer se opôs executar as ordens do Führer. Ele estava decidido a salvar o que fosse possível do país. Um dos maiores patrimônios da Alemanha era e é, a Filarmônica de Berlin. Apesar do bombardeio devastador sobre a cidade a orquestra continuava tocando regularmente de três a quatro vezes por semana.
Semanas antes da rendição incondicional e da ocupação da cidade pelo Exercito Vermelho, Speer já vinha providenciando a retirada dos melhores pianos, das harpas, das tubas wagnerianas, das partituras e até dos smokings dos músicos. Mas faltava retira-los. Esta era a parte mais complicada.
Speer não tinha a menor intenção de deixar o corpo dos músicos da Filarmônica cair nas mãos dos russos, mas também não arriscar se os Aliados chegariam a Berlin.

Por outro lado retirar muito cedo da cidade os 105 músicos da orquestra chamaria a atenção de Goebbels. O ponto crítico era decidir o momento de retirar as dezenas de músicos e como dar para eles o sinal para a partida.
Speer criou uma estratégia e combinou que daria uma senha para avisar à orquestra que era chegada a hora da fuga. A senha seria uma alteração de última hora na programação do espetáculo. Pelo plano de Speer todos deveriam sair de uma só vez à noite, imediatamente após a apresentação da orquestra e tomar os ônibus que ele providenciaria para a retirada. Os ônibus ficariam estacionados na escuridão do lado de fora do Beethoven Hall. A senha para a fuga seria uma música a ser escolhida pelo próprio Speer para encerrar o espetáculo que só seria informada pelo diretor da orquestra ao maestro durante a própria apresentação.

Na noite escolhida, 12 de Abril de 1945, Speer estava sentado na platéia em seu lugar habitual. No palco os músicos trajavam ternos escuros ao invés dos smokings habituais que já estavam escondidos. Na platéia só ele sabia o motivo. Momentos antes de terminar a apresentação Speer enviou seu assistente para informar ao diretor da orquestra Von Westermann e a ao regente Gehrard Taschner uma alteração no programa. A música escolhida para finalizar o espetáculo. Von Westermann ficou surpreso com a escolha:
– Você sabe perfeitamente que esta música representa a morte dos deuses, a destruição do Valhalla e o fim do mundo. Tem certeza que é isso que o ministro ordenou?
Não havia nenhuma dúvida. Para a última apresentação da Filarmônica de Berlin, Albert Speer havia escolhido Die Götterdämmerung.
O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner.