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Antonico, Passárgada e Getúlio

Há pistas interessantes da alma brasileira em diferentes partes da sociedade, mas curiosamente idênticas na ideologia. Vindas de Antonico de Ismael Silva, de Passárgada de Manuel Bandeira e de uma frase de Getúlio Vargas.
No samba Antonico um amigo fala ao outro:

Ô Antonico vou lhe pedir um favor
(note a intimidade do diminutivo)
Que só depende da sua boa vontade
(não há competências, a boa vontade é o fator decisivo)
É necessário uma viração para o Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
(não se fala de trabalho, mas de uma "viração")
Ele é aquele que na escola de samba toca pandeiro, toca surdo e tamborim
(este é o curriculum do Nestor)
Faça por ele como se fosse por mim
(sono tutti buona gente, mafiosamente)

O amigo pede a Antonico, baseado apenas na sua boa vontade, que se utilize de sua influencia para resolver o problema financeiro do Nestor que tem apenas o mérito participar das mesmas diversões, de freqüentar o mesmo grupo.
E se pede para ele uma viração, uma benesse, não um trabalho para que ele possa resolver seus problemas.
Uma viração não um trabalho, talvez por que trabalhar ainda carregue pelo menos no imaginário popular, a vergonha da escravidão. Dinheiro se deve conseguir da forma mais fácil, através de uma benesse, de amigos no poder, de uma viração.

Em Passárgada, Bandeira sonha com o melhor dos mundos pois "lá sou amigo do rei, lá terei a mulher que quero na cama que escolherei", aqui a ideologia se revela por trás do sonho.
Além das benesses materiais trazidas pela proximidade do poder, a la Getúlio, lá ele terá a suprema felicidade. Além e acima do amor, em Passárgada ele terá o privilégio de escolher quem, quando e onde.

Mas a pérola definitiva vem de Getúlio:
- Para os amigos tudo, para os inimigos o pesado braço da lei.
A Lei aqui não esta a serviço da Justiça, mas para punir inimigos. Já os amigos merecem tudo e estão acima dela. Uma sociedade talhada para os amigos, sem Justiça e portanto sem crimes.

Um país feito de impunidades, benesses e privilégios onde tudo se arranja desde que haja boa vontade. Boa vontade reservada aos amigos do rei, seja lá qual for o rei em vigor.
Mais interessante é que esta ideologia está presente tanto no povo quanto na elite.
Por isso não é de estranhar que o sentido do Direito Natural tenha aflorado e sido tomado nas próprias mãos pelos deserdados da sociedade. Literalmente à margem do sistema, estes "marginais" utilizam o paradoxo da Justiça fora da Lei para fazer sua própria justiça.

Através de seus crimes estes marginais acabam devolvendo à sociedade sua própria desagregação.
Para desatar esse nó seria preciso esquecer dos antonicos, dos reis e dos sonhos de passárgadas, nesta nação que desde a Descoberta foi tragicamente colonizada, repartida e concedida aos amigos do rei de Portugal.
Estruturando esta relação entre Ismael, Bandeira, Vargas e D. Manuel se percebe uma marca atroz.
A marca da Terrae Brasilis.

Shakespeare: Igualdade Racial, Clemência e Piedade

O Bardo é definitivo na delicadeza dos versos, na sofisticação do raciocínio, na precisão da palavra. No discurso de Antônio ao lado do cadáver de César, no de Lady Macbeth antes do assassinato de Duncan, na descrição da sexualidade de Cleópatra. No poema em que canta o sorriso da mulher amada. No incendiário discurso de Henry V antes da batalha de Agincourt.
E em “O Mercador de Veneza” quando Shylock, se referindo a Antonio, fala de igualdade racial:

 Ele me humilhou. E tudo, por quê? Por eu ser judeu.
Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos?
Se nos espetardes, não sangramos?
Se nos fizerdes cócegas, não rimos?
Se nos derdes veneno, não morremos?
E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?
Se em tudo isso somos iguais a vós, então somos iguais em tudo o mais.

Esta fala foi usada por Lázaro Ramos, num contexto bem diferente de Veneza, no filme Ó Paí Ó, em pleno Pelourinho em Salvador, quando "Você é negro, negro, negro!" foi usado de forma ofensiva pelo personagem de Wagner Moura.
 Sim eu sou negro sim, mas por acaso negro não tem olhos? Negro não tem mão, não tem pau, não tem sentido? Não come da mesma comida, não sofre das mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente sua não sua o corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra igual? Quando você fazem graça a gente não ri? Quando vocês dão tiro na gente, a gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo também nisso vamos ser.

A vingança de Shylock está próxima de se realizar quando Antonio fica sem condições de lhe pagar uma dívida de três mil ducados. Antonio tinha dado uma libra da carne do próprio corpo como garantia contratual.
Shylock vai ao tribunal de Veneza exigir a execução do contrato que lhe dá direito a retirar, à sua escolha, uma libra da carne de qualquer parte do corpo de Antônio.
O fim de Antonio se aproxima já que não seria possível lhe retirar uma libra de carne, de onde Shylock escolhesse, e ele escolheu o coração, sem mata-lo. 

Frente a frente com Antonio no tribunal, Shylock com o contrato numa mão e uma faca na outra exige a execução da dívida.
Apesar dos amigos de Antônio se oferecerem para pagar em dobro ou mesmo triplicar o pagamento, Shylock continua irredutível. Exige a libra de carne do inimigo e brada:
 Eu exijo a Lei, eu exijo o cumprimento da Lei!
Todos lhe pedem clemência, os juízes, os advogados, os amigos, até o povo que assiste ao julgamento. Todos clamam por piedade. Mas Shylock insiste no cumprimento do contrato, ele exige a Lei.
Neste momento de alta tensão o Bardo coloca um jovem advogado no tribunal que começa a falar sobre Lei, Perdão e Compaixão. Ele termina o discurso com essas palavras definitivas:
– Quando oras ao teu Deus tu Lhe pedes Justiça ou Clemência?

A Lei organiza os homens em sociedade mas é a Compaixão quem os une e humaniza.

Buzú

Morei num bairro tranquilo e tradicional de Salvador. A Graça não é um bairro grande e é cortada por uma avenida estreita. Esta avenida de apenas três pistas é a espinha dorsal do bairro. Todas as outras ruas deságuam nela.

Uma manhã dessas tomei um ônibus. Um buzú. Estava vazio com apenas algumas pessoas sentadas. Eram umas oito horas da manhã. 
Inesperadamente o buzú que seguia pela avenida de repente para. Não havia trânsito, não havia engarrafamento, também não era um sinal fechado, vermelho. Mas o ônibus parou. E parou em uma esquina.

O cobrador estava lá na frente conversando com o motorista. Cobradores em Salvador não ficam sentados em seus lugares atendendo os passageiros. Eles ficam lá na frente, bem embaixo daquela placa “só fale ao motorista o indispensável”, conversando animadamente com o colega. Sempre.
Ali é o lugar natural dos dois passarem o tempo, aliviarem mutuamente a longa espera pela hora de voltar para casa, para o bar, o futebol, o bloco, a nêga.

O Buzú parou. 
O motorista abriu a porta e o cobrador desceu. E lá foi ele para a esquina. Na esquina havia uma baiana e um tabuleiro. As baianas à tarde vendem acarajés e abarás. Pela manhã vendem bolos, mingaus e sucos .
Em pé, ao lado da baiana, o cobrador gritava para o motorista as opções do tabuleiro,
- Tem mingau de tapioca.
- De milho verde não tem não?
Enquanto isso o ônibus parado começou a provocar um pequeno congestionamento na avenida. Os carros que se dirigiam pela manhã para trabalho e escolas já formavam uma fila à espera das escolhas da dupla. Como a avenida é central o engarrafamento provavelmente já se estendia pelas ruas transversais.
- E tem suco de manga?
- Não, só tem de maracujá e pitanga, vai?
- Que jeito, vai maracujá mesmo. E o bolo? É do quê?

E o engarrafamento aumentando. 
Mas como baiano é paciente e vive num ritmo temporal especial, o Tempus Bahianus, ninguém ainda estava buzinando. Apesar do buzú já estar criando uma situação crítica em todas as imediações.
Nisto uma senhora que estava sentada no ônibus, obviamente uma pessoa estressada e sem o menor axé, resolve interferir nesta cena de fazer Caymmi, sofrendo lá no paraíso coitado, sentir ainda mais saudades da santa Bahia.
- Senhor motorista!

Atenção para a formalidade desta expressão que demonstra a completa falta de sensibilidade e capacidade de contextualização ao meio ambiente desta senhora, que deveria ter se dirigido ao rapaz em termos mais respeitosos. Do tipo,
 – Ô môtô! Ou melhor ainda,
 – Ô meu bró.
Bem, mas infelizmente foi assim mesmo que ela disse,
- Senhor motorista!
- Diga minha tia, respondeu educadamente o rapaz, sem se ofender com a aspereza do tratamento que acabara de receber.
- O senhor não pode parar um ônibus, engarrafar completamente uma rua inteira e deixar seus passageiros à espera que o senhor escolha seu mingau.

O rapaz depois de ouvir palavras tão duras, de um raciocínio tão intolerante e preconceituoso, se levanta atônito. Abre os braços num gesto largo,
- Minha tia... eu tô cum fome, eu tô trabalhanu. Eu preciso mi alimentá.
Uma lógica cristalina, perfeita, irrespondível.
O trânsito que esperasse!

Wellies

Beaconsfield, no Buckinghamshire, é um dos suburbs mais charmosos de Londres, bem no meio das Chilterns, próximo das Burnham Beeches. Há casas belíssimas, jardins de sonho, estradas suaves na paisagem idílica do countryside inglês,  ondulações que se sucedem suavemente nas colinas Chilterns. 
A exatos 35 minutos do Hyde Park pela M4 e M40 a vila surgiu por ficar exatamente a meio caminho entre Londres e Windsor. Ali no meio da viagem se fazia a troca de cavalos por outros descansados.

Além das casas há muitas mansion houses, manor houses, palácios, castelos e grandes propriedades, muitas delas históricas. A quantidade circulante de Astons, Bentleys, Ferraris e Rolls é altíssima. Além dos simples Jags, Porsches, Beemees, Mercs e não raros Lambos.
Bosques e mais bosques, estradinhas deliciosas com pequenas placas de transito para não poluir visualmente a paisagem. Pubs, inns, pontes, riachos e igrejas à beira das estradas.
Numa delas há uma passagem de patos. Como uma passarela para pedestres, sem as riscas brancas no chão, e uma placa com o desenho de um patinho.
Como todos respeitam, e os patos se condicionaram a cruzar por ali, eventualmente o transito para dos dois lados da estrada para uma pata atravessar acompanhada dos patinhos.

Muitas crianças vão sozinhas para as escolas seguindo pelas calçadas e atravessando as ruas no lugar certo. Ou então, como quase todos preferem, cortando caminho pelos bosques cujas trilhas são mais frequentadas que as próprias calçadas.
- Morning!
- And such a beautiful morning, is not?
Em alguns pontos de Beaconsfield, em Penn e Tylers Green, só há calçadas em um dos lados da rua para dar mais espaço para a grama, e não há iluminação pública pra as noites ficarem mais bonitas.

Burnham Beeches são um paraíso à parte.
Na chegada do outono, e depois por um longo período, o bosque vai gradualmente mudando de cor, assumindo as mais infinitas variedades de verde, marrom, amarelo e vermelho. Há momentos em que todas estas variações de tons e cores estão presentes ao mesmo tempo e um tapete vermelho amarelado se espalha por todo o chão.
A luz atravessa as árvores aqui e ali, ilumina espaços, se mistura e assume cores, cria focos e sombras teatrais. O silêncio se compõe suavemente pela bruma, pelo vento, pelo canto dos pássaros e por seus passos nas folhas secas.
É absolutamente deslumbrante. Fotos, cartões postais e wallpapers estão espalhados pelo mundo. Entrar, passear dentro deste cenário é uma experiência quase mística de tão profunda a beleza que lhe envolve.

A paisagem social também tem detalhes interessantes.
Além das famílias tradicionais há muitos casais jovens com filhos pequenos. As mulheres ficam em casa, sem trabalhar. É um comportamento relativamente novo e socialmente interessante.
Os casais formados em geral por dois profissionais muito bem sucedidos do centro de Londres resolvem ter filhos. Decidem se mudar do centro para Beaconsfield, comprar uma casa com um belo jardim e educar os filhos desde pequenos nas excelentes escolas públicas do lugar que estão entre as melhores do país.

A mulher interrompe temporariamente a carreira profissional para cuidar da casa e da educação das crianças, à moda antiga.
O marido vira um commuter indo e voltando diariamente pra Londres de trem. Durante toda a semana a bucólica estação da vila, no começo e no fim do dia, fica repleta de jovens executivos levados e trazidos por jovens esposas em carros caríssimos. Nos finais de semana eles cuidam juntos das crianças e naturalmente do jardim.

As mulheres criam interessantes mecanismos de convivência. O Tea Party acontece todos os dias durante a semana. Forma-se um grupo de mães na escola onde elas têm filhos de idades semelhantes. Cada dia uma delas ao final das aulas, no meio da tarde, recolhe todos os filhos das outras e os leva para casa. Lá ela preparou um tea party para os filhos e coleguinhas.
Durante o resto da tarde ela os entretêm com brincadeiras, jogos, chá, bolos e lanches. No final da tarde as outras mães aparecem, tomam um chá e levam seus filhos para casa. Pais e filhos exercitam uma convivência social agradável. Neste revezamento as mães têm muitas tardes livres para se cuidar e cuidar de casa e gastam apenas uma tarde para fazer um tea-party. 
Uma criação simples e prática, como os ingleses.

Nos fins de semana as lojas locais de DIY (do it yourself) e de gardening ficam cheias do que o príncipe Charles a contragosto chamou de “um país de jardineiros”.
O hábito é tão arraigado que as professoras nas escolas pedem que cada criança tenha e cuide de sua própria planta no jardim de casa. Desenvolve a afetividade, a responsabilidade, o gosto e o respeito pela natureza. E perpetua os ingleses.

Os jardins são naturalmente impecáveis e você descobre que já está integrado ao meio quando um dia alguém lhe pede seu cortador de grama, emprestado. É um código definitivo. Se um vizinho se ausenta por alguns dias, os outros cuidam de sua grama.
Há também outras obrigações não escritas. Mesmo que não se tenha um gato, o que é que raríssimo, é preciso ter comida para eles servida e disponível em casa para os gatos dos vizinhos que eventualmente apareçam na sua casa.
Neste ambiente há um lugar muito especial para as velhas senhoras. Velhinhas inglesas são um patrimônio da humanidade, deviam ser tombadas pela ONU. Simpáticas, educadas, gentis, fofíssimas. No Bucks sempre se acaba encontrando um mordomo no estacionamento do supermercado colocando as compras na mala do Bentley de uma delas.

Neste meio de regras e códigos muito claros há um símbolo delicioso. O mais surpreendente deles. As Wellies sujas de terra. Botas wellington verdes de borracha, discretamente sujas.
Prosaicas donas de casa circulam em Land Rovers dos modelos mais rústicos e despojados. Não dos luxuosos mas dos rudes. Aqueles modelos mais coloniais.
Desfilam elegantemente, displicentemente, usando green wellies discretamente sujas da terra da Rainha. Provavelmente ela não tem uma propriedade rural maior que um jardim. Mas num país onde a propriedade da terra, normalmente associada a títulos de nobreza, é um sinal definitivo de nobreza, essas botas sujas de terra são um discreto símbolo de status.
Por conta da simplicidade inglesa, e do stiff upper lip, ela ou uma baronesa são indistinguíveis no supermercado.

Preta, preta, pretinha.

Passei por uma experiencia assustadora que literalmente gelou minha espinha, que me deixou atordoado por dias.
Há sempre uma intolerância latente nas sociedades que ó tempora, ó mores, ó loco, pode se dirigir contra judeus, homossexuais, negros, imigrantes, etc. Agora por aqui ela está bem focada nos fumantes, os discriminados da vez. Por consenso social estes grupos sofrem desrespeito, perseguições. A população se sentido legitimada discrimina impiedosamente. Até aqui nenhuma novidade.

Eis que, morando em Salvador fui um dia ao supermercado. Filas imensas, blá, blá, blá, o usual. Quando estou para finalmente ser atendido, a pessoa que acabara de pagar resolve discutir com a menina do caixa o preço de um determinado produto. Atenção: depois de ter pago.
Claro que a discussão que se prolongava era inútil. A menina aconselhava o cliente a procurar pela gerência, mas o cara estendia e estendia a conversa. Um chato.

Nisso eu me dirijo a ela e no mais puro e castiço baianês lhe peço,
- Ô minha pretinha, adiante aê meu lado.
A menina pulou da cadeira. Ficou de pé, a face transtornada, o dedo em riste me acusando,
- Ele me chamou de pretinha!
Todos pararam para ver o monstro discriminador. Eu.
Algumas pessoas próximas confirmavam,
- Ele chamou a menina de pretinha. Chamou sim, chamou mesmo.
A confusão se estendeu para as filas vizinhas. Eu completamente paralisado me perguntando: onde estou? que cidade é esta?
Me vi sendo acusado de preconceito racial, logo eu que já namorei negras, logo eu que sou apaixonado por Salvador, esta cidade de mais de 96% de mulatos.
Me senti num cenário de Kafka. Era por demais absurdo. Principalmente por ser a expressão intrinsecamente carinhosa. Principalmente por ser na Bahia. Principalmente por ser em Salvador.

Esta terra terá mudado tanto assim, terá se tornado tão igual às outras? A Bahia acabou?
Lá estava eu completamente petrificado. Acabara de rasgar o terceiro e o quinto artigo da Constituição, ferira o Código Civil e o Código Penal. Cometera crime inafiançável.
Iria parar nos jornais. Iria parar por dois a cinco anos na cadeia, mais a multa. Uma tragédia.
Bem pelo menos se eu fosse parar num tribunal, lá também teriam de estar comigo o Moraes Moreira, todo o grupo dos Novos Bahianos, o Luiz Caldas, o Tom Zé, a Bethania e o Caetano Veloso, no mínimo. O promotor teria contra nós pelo menos umas vinte músicas como prova de acusação de crime hediondo.
Lá estaria principalmente o Gilberto Gil que certamente pegaria prisão perpétua por ter afrontado a própria filha lhe batizando de Preta.

A confusão ficou tão grande que saí tranquilamente do lugar. Alguns dias depois reencontrei a mesma menina no caixa. Não resisti e disse,
- Pôrra minha pretinha cê armou o maior fuzuê. Deus é mais!
A pretinha riu.
Ufa! Deve ter sido uma distorção tempo/espaço, nível 5 sigma.

Professor Viana

Professor Viana. Jacinto Viana. Bon vivant, alto, atlético, bonito. Suave, simpático, um empresário bem sucedido. Um filósofo, um homem inspirador.
Estudante de Medicina, casou com uma mulher bonita, largou a faculdade para trabalhar, criou uma empresa, ficou rico.

Professor? Sim, professor de matemática na Escola Técnica da cidade. Sedutor incurável, era louco por meninas bonitas.
Não precisava, não dependia do salário de professor. Mas era na escola, frequentada por meninas de classe média baixa, que ele exercia seu charme irresistível de empresário, de professor, de colecionador de Camaros e Mustangs.
Fui amigo da família, amigo de seu filho, namorei rapidamente uma de suas filhas, belíssima por sinal. Professor Viana foi um dos filósofos mais sinceros que conheci da difícil arte de ganhar dinheiro. Ele ganhou muito, facilmente. Lembro-me de duas pérolas de seu pensamento.

Numa manhã de domingo estávamos todos bebericando uns scotchs na beira da piscina da mansão. Todos alegres, despreocupados. Menos o filho dele.
Professor Viana notou, perguntou,
- O que você tem? Estás com uma cara horrível.
- Hoje é sábado pai, na segunda-feira temos um monte de pagamentos para fazer e estamos sem caixa.
- Sim. Qual o problema?
- Estou muito preocupado, não consigo dormir direito.
O Professor riu,
- Durma tranquilo. Quem tem de perder o sono é quem tem a receber.

Numa manhã de sábado, estávamos em sua casa, sentados à mesa, num tardio café da manhã, depois de uma fantástica noite de diversões. Um caríssimo tour que começara em um restaurante continuara em um bar e terminara numa boîte.
Comentávamos o quanto havíamos gasto. Ele riu,
- Meu filho, dinheiro é extremamente importante. Temos de ganha-lo, nem que seja honestamente.

Meus Vestidos Preferidos

São cinco os meus vestidos preferidos, meus Top Five. Claro que absolutamente hors concours é o primeiro deles, aquele verdinho básico que Eva estreou no Mundo quando mudou de residência. Mas isso já é uma outra história.

Pessoalmente não ligo a mínima para o que visto. Com exceção da minha sagrada coleção de gravatas Hermès, me bastam um jeans e uma pólo. Mas adoro vestidos, estas armas letais de Eva.
Não acho em absoluto que a moda feminina seja uma frivolidade. Concordo inteiramente com a personagem de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada quando ela diz que o mundo da moda, a produção dos tecidos e etc. geram os empregos que colocam países do terceiro mundo na estrada do desenvolvimento. Nem tudo é vaidade mano Eclesiastes.
E afinal nem só o Diabo veste Prada. O papa Bento XVI, sua contrapartida terrena, só calça Pradas. Ironicamente vermelhos.
A Revolução Industrial que mudou a face econômica e social do planeta, consolidou o Capitalismo, criou o Proletariado e gestou o Feminismo ao colocar a mulher no mercado de trabalho, se iniciou na indústria têxtil. Fabrica vem de fabric, tecido em inglês.

Meu primeiro vestido na verdade nem é um vestido, é um tapete. Aquele tapete em que Elizabeth Taylor no papel de Cleópatra no filme do Mankiewicz, veio enrolada de presente para Marco Antônio.
A cena do tapete se desenrolando no chão e ao final surgindo dele a rainha do Egito nua é de incendiar a cabeça de qualquer adolescente. Como incendiou a minha. Mesmo sendo um tapete ele é a essência do vestido perfeito. Esconde, promete, oferece e entrega.
Apesar de louco por Cinema me recuso assistir Cleópatra novamente. Não vou me permitir destroçar com um choque de realidade um fantasia juvenil. Ponto.

O segundo vestido é a criação de Mainboucher para o casamento de Wallis Simpson com o Duque de Windsor. O casamento por si só foi um acontecimento que abalou a realeza britânica, provocou uma crise constitucional e é provavelmente o maior escândalo do século XX. Um homem que abdicou de ser Rei da Inglaterra para se casar com uma americana, plebeia e divorciada. E isso em 1937.
O vestido do casamento, um longo com casaquinho de mangas compridas era discreto, contido, quase austero. Uma peça azul de glamour, mas de um azul especial. O Azul Wallis criado para combinar com os olhos dela.

O terceiro é aquele Travilla frente única que Marilyn Monroe estava inocentemente usando n'O Pecado Mora Ao Lado do Billy Wilder na calçada que tinha uma grelha de ventilação do metrô. Quem não se lembra dessa cena ou acabou de chegar de Marte ou é melhor ir para lá.
Marte não. É de Vênus que se trata quando ela usou aquele vestido super colante, sem nada por baixo, na festa de aniversário dos 45 de John Kennedy. Ela sem piedade sussurrou,
- Happy Birthday to you Mister President.
Depois de ouvi-la cantar os parabéns JFK disse atordoado,
- Agora já posso me aposentar.
Na verdade o que todo mundo queria mesmo saber era o que MM usava na cama para dormir.
- Três gotinhas de Chanel no 5.

O quarto vestido é sem dúvida nenhuma o primeiro, o principal o eterno. Aquele pretinho básico que toda mulher tem, precisa, merece. Aquele que Givenchy fez para Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo do Blake Edwards. Uma obra prima que envolvia a beleza frágil de Audrey numa aura de sensualidade e poder.
Agora o quinto. Bem, não quero jamais esquecer o que Mary Quant fez pelo mundo ao criar a mini saia, nem ser injusto com o experimentalismo metálico de Paco Rabanne, nem desprezar os Mondrian de Yves Saint Laurent. Nem esquecer, mesmo por que é impossível, daquele tecido transparente que Versace prendeu com alfinetes, por cima de nada, em Liz Hurley.
Tudo isso faz parte da história da Arte tanto quanto a Mona Lisa, a Capela Sistina e a Santa Ceia.

Mas o quinto é muito, muito especial. Tem nome e sobrenome.
Qualquer ser humano normal jamais vai esquecer do vestido de noiva que David e Elizabeth Emanuel fizeram para o casamento de Diana Spencer. Dez mil pérolas, sete metros e meio de véu e aquela cauda imensa de vinte e cinco metros que deslizando pelo tapete vermelho santificou as escadarias da Catedral de Saint Paul.
Mas ainda não é esse. Foi um outro que Lady Di usou.
O casamento do século criou uma lenda e desmontou outra. Materializou a lenda do casamento da quase plebeia com um príncipe. Mas também inverteu uma outra onde o príncipe se transforma em sapo. Um conto de fadas bizarro onde o príncipe, no fim da história, fica com a bruxa.

29 de Junho de 1994.
A Inglaterra estava paralisada na frente da televisão. Num documentário de Jonathan Dimbleby, em uma espantosa entrevista o príncipe Charles diz que tem uma amante. O herdeiro do trono britânico admite publicamente que é adúltero.
Nesta mesma noite Lady Di tinha um jantar beneficente na Serpentine Gallery, no Hyde Park, em Londres. Cristina Stambolian, relativamente desconhecida, havia criado um vestido preto, decote tomara-que-caia, alças largas ao meio dos braços, silhueta justa, saia plissada ligeiramente curta e sexy. Very sexy.
Diana coloca o vestido e sobe majestosamente num Manolo Blahnik negro.
No dia seguinte só havia Lady Di nos jornais. As manchetes estamparam as fotos dela, linda, sexy, usando o Dress Revenge.
O Vestido Da Vingança.

Ipanema uma Explosão de Juventude

A década de 60 em Ipanema foi uma farra, uma explosão de juventude.
Havia a pílula, o rock’n’roll, a mini-saia, o bikini, os Beatles, o Credence, os Stones, o movimento estudantil, os festivais de música, o tropicalismo, a imprensa alternativa, os hippies, Hendrix, Joplin, o surf chegando.

Uma festa total e absoluta. Mas que foi sobretudo uma imensa farra sexual. As meninas acordaram, acordaram cedo e acordaram com muita, muita vontade.
Muitas meninas de 14 anos se envergonhavam de serem virgens. Era “careta” ser virgem. Muitas que estavam sem namorado pediam aos amigos para lhes livrarem do problema, para não ficarem para trás das amigas.

Os rapazes já não precisavam mais dos favores das domésticas, das empregadinhas, das graxeiras. Graxeira, usado ora como substantivo ora como adjetivo foi um neologismo de origem curiosa. Ao fim da tarde começo da noite as domésticas, terminado o serviço, se arrumavam e ficavam na porta das casas ou dos prédios, conversando, encostadas nos muros que em geral tinham plantados os hibiscos, a rosa-sinensis, as graxas-de-estudante. Deste hábito surgiu o genérico graxeira. As provedoras de favores aos filhos das patroas.

Mas as garotas de dentro das casas acordaram, se soltaram, invadiram a praia das graxeiras. Os rapazes adoraram. Alguns se assustaram com tamanha liberalidade das irmãs e primas. No final a farra se instaurou na Republica Independente de Ipanema que tinha justamente numa garota seu símbolo.
Havia algumas farmácias que vendiam a pílula mágica para menores. Os farmacêuticos se rendiam ao inevitável sabiamente dizendo que era melhor liberar que estragar a juventude das meninas.
Novulon vendia como pipoca. Quando as mães descobriam aquela caixinha redonda e azul era um escândalo. Rendia umas lágrimas e a farra continuava.

Morando na Nascimento Silva quase esquina da Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, minha praia era ali mesmo em frente. Pra quem não sabe todo carioca tem sua praia, é fixa, não muda, não pode nem deve mudar. É questão social, cultural. Mudar de praia é mais que um transtorno é uma traição aos amigos. Quem muda de praia é pouco menos que um pária.
Lá na praia havia uma lenda viva. El Aríete. Um cara bonito, aí de uns quarenta anos, pai de um grande amigo meu o Josetti.

O pai do Josetti era realmente bonito. Alto, forte, atlético, apesar de funcionário do Banco do Brasil também era modelo da Ducal, uma loja de roupas masculinas. O cara estava sempre nas páginas dos jornais em publicidades de ternos. Mas o que ele realmente gostava de usar era short de praia. Simpático e bronzeado o cara era fera no vôlei de praia. As meninas babavam assistindo as partidas.
Ele adorava. Louco por uma menininha, numa época em que virgindade tinha se transformado em problema ele contribuía para a solução. A praia retribuiu com um apelido. El Aríete.

O cara realmente tava traçando a praia toda, perigava chegar ao Leblon. Meu amigo Josetti, apesar do justo orgulho, era até meio traumatizado,
– Pô, meu pai já comeu metade da praia! Quando você se interessa em namorar uma menina descobre que seu pai já comeu. Assim não dá!

Porsches

Há sempre um Porsche na vida de quem gosta de carros.
Na Alemanha algumas das excelentes estradas não têm limites de velocidade. Um paraíso para quem gosta de acelerar e os alemães gostam e gostam muito. Assim como se vai a praia os alemães vão para uma Autobahn. Apenas para correr. Sozinhos ou em grupo.

Depois de algum tempo vicia, você começa a procurar motivos para ir para a estrada e acelerar. Então sempre haverá um Porsche por perto.
Fui ultrapassado por um preto. Passou e sumiu. Pouco depois comecei a me aproximar dele. Com tanta facilidade que ficou claro que ele diminuíra muito de velocidade. Ao ultrapassa-lo vi o motorista, uma senhora de uns setenta anos ao celular. Estava explicado, ela devia estar falando com algum netinho. Pouco depois vejo-a pelo retrovisor se aproximando rapidamente. Esticando a marcha, giro lá em cima, me ultrapassa e desaparece.

Alemães só piscam o pisca-pisca uma única vez. Piscou tá avisado e pronto, cuide-se. Também nunca se fica na faixa da esquerda. Nunca, ultrapassou voltou.
Um dia estava a uns 180 km/h, vi uma piscada amarela, era um Porsche, passou e rápido. Colado nele passou outro. Depois mais outro. Mais um quarto, um quinto e um sexto. Um no vácuo do outro. Seis Porsches nenhum a menos de 250 km/h. Seis amigos passeando tranqüilamente numa ensolarada manhã de sábado.
Quase sempre isso acontecia na A4 no trecho entre Kassel e Dortmund, o lugar que Deus reservou a seus escolhidos depois que Adão saiu de casa.

Postos de serviço nas Autobahnen têm pistas especiais de aproximação e saída tão perfeitas quanto as próprias, e muito longas. Entenda-se: a de saída é uma pista de aceleração para se unir à Autobahn e lhe deixar na mesma velocidade de quem passa zunindo. A de entrada é uma pista de desaceleração para se entrar com segurança na área de serviço.
Ao entrar em um desses postos, já na pista de desaceleração, fui ultrapassado por um Porsche Turbo a mais de 160 km/h. Levei um susto afinal tecnicamente já estávamos dentro do posto. Como os alemães são muito disciplinados fiquei curioso. Pouco depois o Porsche estava freando violentamente, parando numa das vagas de estacionamento. A porta se abre, o motorista deixa-a aberta, sai correndo segurando as calças em direção ao banheiro. Nessas situações um Porsche Turbo ajuda muito.

Dirigindo um Carrera 2S eu tirava tudo que podia e sabia do carro e de mim. Sem limites, sem nenhuma piedade, nem dele nem de mim. Há poucas, muito poucas interações mais perfeitas. Você veste o carro, ele sabe o que você quer, ele antecipa suas reações, ele coopera com seus erros, ele estimula sua emoção. 
Não há amante como um Porsche. Nenhuma permite tanto, nenhuma perdoa tanto, nenhuma se dá tanto. O que você pedir, o que você quiser, na hora que você quiser, do jeito que você quiser.

O Carrera 2S tem suspensão mais baixa, mais dura, pneus ainda maiores. A direção é direta, precisa, transmite tudo da estrada. Você sente até quando passa por cima de uma tampinha de refrigerante. Ele tem tanto grid, gruda tanto à estrada que é capaz de produzir acelerações laterais de um 1G. Ele produz uma força lateral igual à força da gravidade. Isto é: nas curvas ele joga seu corpo para o lado com o mesmo peso que a gravidade lhe puxa para baixo. Sua cabeça pesa nas curvas.
Porsches são incansáveis e fiéis, esqueça a inconstância italiana. Para amar um Porsche você precisa estar em forma. Como toda amante ardente não reclama se você abusa mas também vai abusar de você. Cuidado para não despertar todo o fogo, você pode não estar preparado.

Chamei minha mulher para dar uma volta numa estradinha de montanha, cheia de curvas. O melhor ambiente para soltar um Porsche.
Subi a estrada com vigor, usando tudo do motor, das marchas, da suspensão, dos freios. Desci usando mais ainda. Curva após curva ele descia a montanha alucinadamente, mal dava para ver a paisagem passar. Sem sair um milímetro da trajetória, grudado ao chão. Uma curva acabava exatamente na entrada da seguinte. Um toque no freio uma afundada no acelerador.
No meio da descida Sandra grita,
- Para, para, que eu vou vomitar. 
Não há mulher como Gilda, digo, não há nada como um Porsche.

O Desejo Feminino

Atenção amigos homens. O Ministério da Saúde adverte este post não fará bem pra sua saúde.
Mulheres têm desejo. E maior que o seu. Portanto se seu coração não aguenta vá pra a página de esportes ou faça o que os baianos recomendam: tire a cueca pela cabeça.

O desejo nelas é básico, animal e voraz. Segurou o enfarte? Pois é isso mesmo. Com exceção de sua mãe, sua irmã, sua mulher e sua filha, são todas umas vadias.
Vadia é uma mulher com moral de homem.
Se você não lê inglês sorte sua, mas está tudo lá em “What Do Women Want? : Adventures in the Science of Female Desire” do Daniel Bergner. Não é leitura nem pra machistas nem para corações fracos. Se você não pertence ao clube vá em frente. Mesmo assim bote mais uma dose.

Ou melhor, faça como o John Lee Hooker e peça One Bourbon, One Scotch, One Beer. Um bom blues talvez cure seu pobre coração antes que você precise dizer I want another drink and I want it now.
Desire? Elas têm, elas gostam e gostam muito. Elas não foram feitas para ser de um único homem, aliás de nenhum. É bom ir se acostumando.
Friedrich Engels baseado nas descobertas de Lewis Morgan estruturou perfeitamente a monogamia feminina como criação masculina para preservação da propriedade e da herança. Fidelidade é uma instrumentalização econômica. Ciúme é sentimento artificial relacionado a essa estruturação histórica da sociedade e do Estado.

Freud escreveu: a grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não fui capaz de responder, apesar de trinta anos de pesquisa sobre a alma feminina, é : o que querem as mulheres?
Elas querem tudo, mein freund Sig, alles.
Meredith Chivers da Universidade Queen no Canadá conduziu pesquisas e testes laboratoriais com grupos de homens e mulheres. Qualquer tipo ou variedade de cena sexual as excita. Mulheres são mais flexíveis em sua capacidade de se interessar. Seu universo sexual é mais rico, profundo e complexo. Seu desejo é maior do que elas próprias admitem.

A força natural do desejo feminino sempre atemorizou o homem. Em todas as civilizações, e de muitas maneiras, o desejo delas sempre foi constrangido na tentativa de domá-lo. Desde os códigos culturais até as mutilações, desde os mais sutis até as excisões e infibulações.
Felizmente desde a Revolução Industrial que a repressão e o constrangimento feminino imposto pelos homens vem se dissipando. A tendência natural é que o desequilíbrio desapareça. O que será ótimo já que elas por deterem a criação e serem as naturais preservadoras da vida comecem finalmente a limpar a Verwirrung milenar que os machos espalharam no planeta.

Ou Deus ou a Seleção Natural criaram nas mulheres um über desejo. Voraz, básico, animal. Você conhece maneira melhor de preservar a Criação?
Chocado bróder? Não adianta sair lamentando que são todas umas c.c.riders nem muito menos encomendar uns mojos workings. It don´t work. Console-se com estes dois blues.
E mais, o desejo feminino não é apenas funcional: depois da menopausa quando a funcionalidade chega ao fim muitas vezes o desejo aumenta, a farra continua.
Chamá-las de histéricas? Também não adianta, toda mulher normal é histérica. Todas estão em telhado de zinco quente.

Não esqueça que você já foi apenas um brilho no olhar de seu pai. Ainda bem que a mamma entendeu e deixou rolar. Mamma era uma vadia, só você é quem não sabe.
E lembre-se que a escolha final é delas, o que faz de você meu pobre amigo apenas um motoboy de ácido desoxirribonucleico.

Paul Bocuse na Bahia

Paul Bocuse é uma das maiores lendas da história da Gastronomia, criador da Nouvelle Cuisine, condecorado com a Legião de Honra por serviços prestados à França.

A Air France criou na década de 70 a cadeia de hotéis Le Méridien. No Brasil ela inaugurou dois, um no Rio outro em Salvador. Eles faziam parte da estratégia de criar uma infra-estrutura à altura de hospedar os passageiros do caríssimo supersônico Concorde. 
Para criar as boates dos dois hotéis foi escolhida Regine Choukron. A Bocuse foi dada a missão de criar os restaurantes.

Regine Choukron, dona da noite parisiense, que tinha boates em Paris, Nova York e Monte Carlo aqui criou duas Regine´s. Numa das inaugurações Charles Aznavour foi a atração. Ninguém menos que Danuza Leão comandava as boates, o que lhe valeu uma capa na Veja como A Grande Dama da Noite. Regine eventualmente dava os ares de sua graça.
As boites eram excelentes, caras e o público, sócios com carteirinha, rigorosamente selecionado. Perguntaram a Jorginho Guinle, ícone dos playboys brasileiros, se não achava um absurdo que uma simples coca-cola custasse dez vezes mais no Regine’s do que o preço normal.
- De jeito nenhum, acho ótimo. Assim os chatos ficam do lado de fora.
Os Le Méridien definitivamente não eram lugar para chatos.

Bocuse criou os restaurantes Saint Honoré dos hotéis. Ele havia criado a Nouvelle Cuisine que valoriza os sabores naturais, servidos em pequenas quantidades, em arranjos que davam aos pratos a aparência de jóias. Muitas vezes com preço de jóias.
No primeiro vôo do Concorde da Air France o menu foi assinado por Bocuse. Foi ele quem criou a Soupe Aux Truffes para um jantar presidencial no Champs Élysées, uma revelação divina de trufas negras que depois ficou conhecida como Soupe VGE, em homenagem ao presidente Valéry Giscard d’Éstaing. Bocuse na época já era uma estrela badaladíssima do jet set. 

Em 1975 ele foi condecorado como Commandeur de la Légion D’Honneur, honra que a França reserva a seus heróis. Considerado o cozinheiro do século XX a biografia de Bocuse muito apropriadamente se chama O Fogo Sagrado. Um fogo tão intenso que ao ser acusado de poligamia Bocuse se defendeu,
- Sou fiel a três mulheres. Filósofo extremo de la joie de vivre ele diz que,
- Trabalho para viver 100 anos e festejo como se a morte estivesse a minha espera amanhã.
Uma senhora deleitada com sua arte derramou-se em elogios, ao se despedir pediu-lhe o cartão de visita. Bocuse modestamente respondeu,
- Não tenho cartão. Meu nome está nos guias de culinária.

Bocuse completou mais de quarenta anos ininterruptos com três estrelas Michelin em seu restaurante L’Aubergue du Pont de Collonges, em Collonges-au-Mont-d'Or, uma façanha jamais conseguida por nenhum cozinheiro vivo. Ou morto. Nem mesmo pelo vaidoso Bernard Loiseau que se matou ao saber do boato que seu restaurante iria perdeu uma delas.
Este herói, este artista, esta força da natureza inaugurou os dois restaurantes Saint Honoré dos Le Méridien do Rio e de Salvador. Ele vinha ao Brasil periodicamente para fiscaliza-los, corrigi-los e trocar seus cardápios. Nestas visitas ele comandava jantares de degustação, com menus confidence, que inevitavelmente terminavam com os clientes emocionados aplaudindo de pé.

Numa dessas vindas a Salvador durante um jantar, em meio à degustação daquelas obras-primas um cliente baiamente pediu pimenta. Isso mesmo pimenta. Molho de pimenta daqueles de colocar em moqueca. Não havia claro.
O garçom se desculpa, diz que não há. O homem insiste. O garçom se desculpa. O maître aparece. O homem insiste. O maître delicadamente explica a natureza da degustação. O homem se enerva. Alvoroço. O homem insiste. Ele quer pi-men-ta. O maître tenta contornar  a situação. O homem está irredutível, ele quer pimenta, ele está pagando. Pa-gan-do.

Bocuse aparece, surge da cozinha, se espanta com a confusão. Providenciam um tradutor, ele conversa com o homem. Mas o homem está pa-gan-do, ele quer pi-men-ta.
Enfurecido o monstro sagrado retirou-se ofendido do salão decidido a jamais voltar a pisar nas terras do Senhor do Bonfim.

Dia das Vadias


dia 25 de Maio deve se consolidar no Brasil como o Dia das Vadias. Várias Marchas das Vadias estão acontecendo pelo país contra a violência sexual contra as mulheres.

A primeira SlutWalk aconteceu em Toronto em Abril de 2011 como protesto, em meio a uma onda de estupros, ao comentário de um policial canadense: Se a mulher não se vestir como uma vadia reduz-se o risco de sofrer um estupro.
Depois da primeira marcha no Canadá elas pipocaram pelo mundo contra a cultura do estupro, pela liberdade de comportamento e de se vestir. Por aqui a primeira marcha das vadias aconteceu em São Paulo dois meses depois de Toronto.

Por aqui as marchas já se espalharam por mais de vinte cidades, mais focadas na violência em geral contra as mulheres. O Nordeste é campeão brasileiro no assunto sendo que um de seus estados bate, desta vez indesejados, recordes mundiais. Apesar de um grande dramaturgo local achar que toda mulher gosta de apanhar foi lá que se criou uma técnica criativa e eficiente.
Uma Ong distribuiu apitos entres as mulheres de um bairro. Quando uma delas sofre violência toca o apito, as vizinhas ouvem e tocam os seus. Rapidamente a comunidade, e a policia, está ouvindo o barulho estridente dos apitos que acabam por constranger e apontar o agressor.
As marchas alertam para outro aspecto sério do problema, este ano o tema na Avenida Paulista foi Quebre o Silêncio.

Não seja boba desperte a vadia que existe em você. Não seja bobo estimule a sua.
Pena que as marchas das vadias estejam tornado tão pública uma palavra carinhosa que deve ser reservada para a intimidade, no diminutivo, acompanhada do pronome possessivo. Nos casos mais intensos adjetivada pela poetiza grega de Mitilene ou pelas qualidades de Brillat-Savarin.
Nestes momentos deve-se seguir o conselho da Danuza Leão sempre ótima em etiqueta,
- Apanhar? Só a pedidos.

Boa Forma em Boa Viagem

Tenho um grande amigo Beto Faria, atual Secretário da Fazenda de Olinda. Beto é um dos homens mais calmos e conciliadores que conheço. Já o vi lidar com greves de funcionários públicos, negociar demandas trabalhistas delirantes e sanar finanças impossíveis. O cara tem um jogo de cintura de fazer inveja a dançarina de dança do ventre.

Beto tem a calma e o autocontrole típicos do mergulhador que é. Mas apesar do bom humor ele quase perdeu a paciência. Beto foi ao super-mercado prosaicamente fazer umas pequenas compras num desses walmarts da vida. Em Boa Viagem, Recife. Até aí nada de mais.
Como estava comprando poucos produtos ele naturalmente foi para fila das pequenas compras. Apenas para descobrir que na fila das pequenas compras havia carrinhos gigantescos com compras para meses. Com sua calma natural ele muda de fila e vai para uma das filas normais. Sem problema, sem stress.

Ele fica logo atrás de uma senhora com um carrinho nem tão volumoso assim. Em cima do carrinho, sentado sobre as compras estava perigosamente equilibrado um menino, provavelmente filho da tal senhora. O moleque fazia todos os malabarismos necessários para se despencar no chão, mas nem com toda sua esperteza ele conseguia se deixar atrair pela Gravidade. A Lei não se aplicava àquela criatura. A fila não andava, o moleque aprontando.
A essa altura Beto já estava intimamente torcendo que o diabinho se esborrachasse no chão. Para apressar a desgraça do moleque ele chegou até a dar umas pequenas ajudas, uns toques leves no carrinho. Mas nada, o moleque era protegido por alguma entidade maléfica.

A fila não andava direito, o menino barbarizava, a mulher nem se abalava. A mulher era gorda. Muito gorda, imensa. Dessas que o barateamento dos carbohidratos está produzindo aos milhares.
Gorda e tranqüila. Tão tranqüila que nem o barulho do supermercado, nem o atraso da fila nem muito menos as loucuras que o menino aprontava movimentavam sua enorme massa adiposa. Ela estava extremamente absorta em sua leitura. Com muita atenção ela lia, muito apropriadamente, o último exemplar da revista Boa Forma.

Quem já estava quase perdendo a boa forma era Beto. Mas eis que o menino apronta uma ótima, consegue realizar uma tremenda façanha. Lá do alto da montanha de compras, se equilibrando entre biscoitos e macarrões, pesquisando entre sabonetes e manteigas o pestinha descobre no fundo do carrinho um brinquedo. Ou pelo menos o que lhe parecia ser um brinquedo.
A demoníaca figura estava agora empunhando um destes detergentes que têm coronha, gatilho e bico disparador. O moleque agora estava armado! E toca a disparar.
Beto pacientemente se desviava dos disparos. E a lipo-criatura nada, não se abalava concentrada em sua boa forma. Finalmente acabou acontecendo. O moleque disparou um jato de detergente no próprio olho. O inferno agora estava completo.

Além da tortura das filas, das ansiedades da espera, do empurra-empurra, do sofrimento em meio ao caos, agora também havia os gritos horrendos do infame.
A mulher não teve outro jeito senão deixar de lado a Boa Forma, perder a própria e tentar domar o moleque estrebuchante. E Beto atrás, esperando, ouvindo, suportando. Mas como não há mal que sempre dure a macro-adiposidade acabou sendo atendida pelo caixa. Quando ela finalmente já se preparava para desaparecer, nota que na sua conta havia a substancial, a inaceitável diferença de um real e vinte e cinco centavos.
Para tudo. Chama o gerente, chama o fiscal, refaz a conta quilométrica.

Neste momento Beto reviu mentalmente toda sua vida. Corajosamente revisou cada detalhe desde a infância. Analisou a adolescência, honestamente lembrou de tudo e concluiu que com certeza não havia batido na própria mãe. Beto respirou fundo. Respirou com aquele fôlego enorme de mergulhador e encarou o desafio. Esperou pacientemente que finalmente a contenda se resolvesse. Tudo terminado, a dupla insana se foi, se perdendo nas ondas da multidão.
Finalmente chegara sua vez. Beto começa a tirar suas duas ou três compras do carrinho e a coloca-las no balcão. Sorri para a moça do caixa, aliviado. Ela olha para ele com um ar grave de veredito final.
- O caixa quebrou, está encerrado.

Neste momento Beto teve uma revelação.
Ele começou a ter uma verdadeira experiencia religiosa. Ele que já tivera algumas dúvidas na existência de deus agora tinha certeza da existência do diabo. Ou pelo menos, para ficar no regional, na do Curupira, na do Saci que se divertem fazendo confusão na vida dos outros.
Anos de luta política não podiam ter sido em vão. Neste momento, paciência e determinação lhe foram mais úteis que na época do regime militar. Beto esperou que tudo voltasse à normalidade. O caixa voltou a funcionar, as compras foram passando, a moça ia registrando.

Mas eis que quando ele olha aliviado para o empacotamento de suas compras descobre que o supermercado tem uma orientação politicamente correta.
O empacotador era deficiente físico. Só tinha um braço.

Shopgrift

O delírio consumista e a vaidade criaram um costume e um neologismo. Shopgrift é uma prática que muitas mulheres estão usando. Compra-se a roupa, usa-se uma vez, brilha-se na festa e depois devolve-se à loja. Money back, please.
Algumas mulheres se dizem viciadas na manobra e dão algumas dicas importantes.

Compre sempre em lojas menores e mais baratas onde é mais fácil conseguir a devolução do dinheiro do que em grandes magazines ou lojas mais caras.
Não esqueça de guardar a nota de compra.
Cuidado com as etiquetas, se precisar retira-las guarde-as.
Depois de usar a roupa coloque-a para ventilar por uns dias.
Dependendo da peça usada, passe-a antes de devolve-la.
Faça shopgrift sempre com peças mais básicas.
Evite os modelos muito exclusivos que poderão lhe marcar.
Evite perfumes.
Evite ir a restaurantes ou tomar drinques elaborados; não corra o risco de manchar a roupa.
Devolva numa loja diferente da que comprou

Mesmo com tantos sacrifícios uma em cada três mulheres esta fazendo shopgrifit. Uma prática parecida com o "usar e devolver" que sempre esteve mais associado a atrizes, celebridades e colunistas sociais. E por ultimo o mais realista dos conselhos: Evite namorar com a roupa.
Ou então tire-a toda de uma vez.

As Ninfas do Campo Grande.

Muita gente conhece o Campo Grande em Salvador. Mesmo quem não mora na cidade, conhece esta praça. Ou por ter visitado a cidade, ou passado um carnaval, visto na TV ou por alguma música. Mas pouca gente presta atenção nas ninfas do Campo Grande. São muitas. Belíssimas.

Elas estão espalhadas pela praça, sensuais e displicentes. São estátuas brancas de cerca de 1,5 m de inspiração greco-romana. Umas fôfas. Todas delicadamente insinuantes, seminuas ou usando um leve véu, todas com lindos seios à mostra. Umas carregam flores, outras as oferecem, umas carregam cântaros, outras cachos de uva. Algumas mais atrevidas carregam pequenas piras de fogo.

Quem usa o Campo Grande para malhar pode apreciá-las e contá-las. Serão 32, 35 ou 37?
Ao longo dos 636 metros do anel interno, ou cerca dos 700 do anel externo, elas estão lá lindas, bacantes, provocantes, numa prévia inspiradora do que acontece lá ao vivo entre Fevereiro e Março.
Se você contá-las pode ser que chegue a números diversos provavelmente por que esqueceu cinco delas que estão juntas numa posição mais discreta da praça, meio que escondidas num arvoredo. Procure que você vai achá-las, não seja tímido.

Outra surpresa.
Não são todas figuras femininas, há dois rapazes. Serão sátiros?
Como a praça fica fechada à noite o que será que acontece depois que os portões se fecham? Uma festa de Baco? Serão dois felizardos desfrutando sozinhos de tão bela e numerosa companhia? Parece que não.
Pelo jeitinho deles, são delicados ninfos. Pobres ninfas.

Enochatos

Há algum tempo estava com uma amiga em uma adega procurando comprar um vinho. Precisávamos de um que fosse especial para presentear um amigo. Pedimos ao sommelier da casa que nos ajudasse a escolhe-lo, dissemos o que pretendíamos, o quanto queríamos gastar e o perfil do presenteado. A certa altura já com dois vinhos pré-escolhidos e prontos para decidir qual iríamos levar o sommelier foi taxativo.
- Levem este, ele tem mais elegância.

Nas últimas décadas o vinho vem fazendo cada vez mais parte da mesa do brasileiro médio. O hábito não apenas de toma-lo, mas também de degusta-lo tornou–se comum. O número de apreciadores e enólogos cresceu enormemente. Todos temos alguns amigos que assumem ares esotéricos, que meditam e transcendem frente a uma taça.
Qualidades, aromas, perfumes, paladares, características e nuances insuspeitadas são discutidas com rigor científico e dedicação religiosa. De cada taça surgem interações sublimes, experiências que beiram o divino.

Grupos se formam para esta adoração, novos altares são erguidos. Velhos amigos aparecem com novos e profundos conhecimentos, opiniões complexas, atitudes quase místicas. Há vinhos alegres, descontraídos, outros são  maduros, alguns sérios. Uns são meditativos, alguns são sonolentos. Outros ainda são decididos, alguns são desleais outros confiáveis. Há os atléticos, os frágeis, os elegantes, os sedutores, Alguns são irritantes outros simpáticos. Uns são amigos antigos, outros são novas companhias. Há alguns previsíveis outros caprichosos como jovens amantes.

Um desses amigos me levou à uma prova, a uma degustação em um desses lugares recentes.
O templo, digo a casa, muito bem decorada, luxuosa, de bom gosto e naturalmente cara. Com toda a infraestrutura ambiente, material e humana necessária ao culto. Além da área de exposição e vendas, o local tem diversas adegas com diferentes graus de umidade e temperatura.
Há uma sala para palestras e vários ambientes diferentemente climatizados para a mais perfeita apreciação. As diferentes climatizações com diferentes temperaturas, graus de umidade e iluminação reproduzem fielmente a terra natal dos vinhos. Um fator essencial para preservar o equilíbrio emocional do vinhos. 

O grupo de degustação era pequeno, no máximo sete pessoas, todas de nível sócio-cultural semelhante, simpáticas e amigáveis. As garrafas foram se sucedendo, o prazer da degustação visível em todos. Os comentários beiravam o sagrado, as descrições desciam a um nível de detalhes só acessíveis a iniciados. Comentários profundos e elegantes sobre características insuspeitadas ao comum dos mortais.

A casa além do pessoal técnico, administrativo e de serviço contava com um sommelier e enólogo argentino pago a peso de ouro. Uma autoridade, um sacerdote, um guru. Opiniões deslumbrantes, conhecimento elevado, uma intimidade ancestral com o vinho emanavam dele. Ele se movimentava etereamente pelo ambiente, emitindo conceitos e sentenças definitivas. Um gentleman, um connaisseur, um sábio.
A certa altura o grupo decidiu fazer uma aventura por terras desconhecidas. Provar um vinho nunca antes provado. Era uma decisão perigosa, um ato de ousadia que podia ter conseqüências inesperadas. Uma verdadeira temeridade.

Apesar de temerosos pelas conseqüências, todos estavam firmes no propósito, tão caracteristicamente humano, de se aventurar no desconhecido, de seguir ousadamente por rumos nunca antes trilhados. Um dos membros do grupo, certamente o mais prudente e mais responsável, resolveu se precaver para o que poderia ser uma atitude inconsequente com resultados imprevisíveis,  quem sabe até desastrosos. Ele sugeriu que se chamasse o Sommelier para nos socorrer. Para nos guiar e proteger nesta aventura. Todos louvaram a sugestão.

Era apropriado. Era sensato. Era o mínimo que o grupo poderia fazer para se proteger, para que pudesse com segurança minimizar um acidente inesperado, uma catástrofe, talvez até uma tragédia.
Escolheu-se alguém para chama-lo. Trazido por um dos membros do grupo, o Sommelier chegou com os passos cuidadosos de um pastor, a seriedade de um professor, a majestade de um sacerdote. Contaram-lhe a decisão. Ele aprovou a aventura e elogiou a coragem de todos.

O vinho foi pedido.
Quando a garrafa chegou foi severamente examinada com um misto de medo, apreensão e deleite. O desconhecido, o inusitado, o inesperado excitava a imaginação de todos. O medo e ansiedade enchiam a alma daquele grupo de exploradores indômitos. Sabíamos todos que o vinho era um desconhecido, sem muitas referencias, sem uma história familiar. Além de tudo ele, agravantemente, era de uma safra recente. A pouca idade do vinho tornava ainda mais temerária a decisão de prova-lo.

A garrafa foi aberta com todo o ritual e precauções necessárias. Afinal era um desconhecido, um estranho, quase um intruso. A primeira taça foi, naturalmente, servida ao Sommelier que se prestara a tamanho risco com a generosidade dos mestres. Ele levou lentamente a taça próxima ao rosto. Olhou-a demoradamente, girou-a muitas vezes. Observou com cuidado o comportamento do liquido nas paredes da taça. Finalmente, já mais confiante, se arriscou corajosamente em se aproximar um pouco mais da taça e bravamente levou-a até próximo de suas narinas privilegiadas. Respirou muitas e solenes vezes, em intervalos silenciosos. 
O grupo acompanhava tenso. Depois de sentir os vapores e aromas do vinho, ele encheu-se de máscula coragem e sem hesitar levou a taça decididamente até os lábios. Era o momento sublime da interação. Sorveu um gole.

De olhos fechados, infindáveis segundos se passaram antes que ele os abrisse novamente. O grupo ansioso, quase em estado de choque esperava pelo diagnóstico. Ele então, sublime, solene, definitivo nos atira este veredicto enorme:
- Este vinho tem na força de sua juventude a rebeldia natural da adolescência.