Mostrando postagens com marcador Cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cotidiano. Mostrar todas as postagens

Sam Ba . Encontro de culturas

Tive uma gripe fortíssima que me gerou uma infecção urinária com dores abdominais de crise renal. Um terror. Pedi a um amigo médico que me indicasse um profissional,
 – Nada disso vá agora para o Hospital das Clínicas da USP.

Fui atendido em 10 minutos. Da recepção à triagem, da médica - por sinal uma gata - à enfermagem fui atendido com muita gentileza e competência.
A médica, bonita, discretamente maquiada, sem perfumes, bem vestida e sorridente me passou uns exames e uma medicação de urgência que foi administrada lá mesmo. Prescreveu uma medicação de suporte e pediu que retornasse em uma semana para avaliação. A medicação poderia ser retirada no próprio hospital ou em qualquer estação do Metrô. Em menos de uma hora estava tudo resolvido.
Pode até ter sido um acaso estatístico, mas aconteceu. Um atendimento melhor que Portugal, Inglaterra ou Alemanha, onde já morei. Sampa faz muita diferença da balada ao hospital.

Já avisei a vários amigos que se eu precisar ser atropelado quero ser em São Paulo.
Estava na Av. Vergueiro em Vila Mariana quando vi um rapaz ser atropelado ao atravessar a avenida fora da faixa. Em menos de dois minutos já haviam chegado duas motocicletas da polícia.
A primeira estacionou ao lado do rapaz protegendo-o. A segunda parou bem antes dele, virou-se em posição de contramão voltada de frente para o tráfego com os faróis, piscas e sirenes ligados. Um policial protegia o rapaz, o outro desviava o fluxo do trânsito. Ambos de rádio na mão fazendo comunicações.

Cinco minutos depois chegou uma primeira ambulância de resgate. Logo depois chegou uma outra de algum serviço médico, provavelmente chamada por alguém que assistiu ao acidente. Em seguida chegaram os bombeiros. Mais uns dois minutos chegou um helicóptero da polícia que ficou sobrevoando parado bem em cima do local do acidente. Logo depois chegou um segundo helicóptero de alguma estação de televisão que ficou girando acima do local transmitindo ao vivo.
Um atropelo, duas motos, duas ambulâncias, dois helicópteros.

Voltando ao Hospital das Clínicas da USP para onde certamente o rapaz aí de cima foi levado, afinal na entrada do Pronto Socorro há uma placa de aviso: Prioridade para resgate, ambulância e helicópteros.
Uma semana depois daquela minha crise, como pediu a médica, eis-me lá de volta. Desta vez não fui atendido por ela, mas por um médico. O rapaz era igualmente paulista, tipicamente gentil, com aquela formalidade educada dos paulistanos.
– Bom dia senhor, sente-se por favor. O que se passa?
– Obrigado doutor, bom dia.
– Bom dia obrigado, fique à vontade.

Passei a contar-lhe rapidamente minha estória. Ouvindo-me com atenção ele disse,
– Por favor, continue, e não se importe se enquanto lhe ouço que eu procure seus dados no sistema. E voltou-se para a tela do PC em cima de sua mesa.
– Obrigado doutor.
Enquanto ele localizava meus dados e resultados dos exames no computador eu lhe disse que já havia passado por algo semelhante há muitos anos atrás quando morava em Salvador.
Ele se volta de repente para mim. O rosto do rapaz se iluminou. Sorriu, largou o teclado.

– Você é baiano?
– Não doutor. Sou carioca mas morei muito tempo em Salvador. O senhor é baiano?
– Também não. Sou paulista, mas morei estes últimos dez anos em Salvador.
Subitamente a postura do médico, seus modos e principalmente seu jeito de falar mudaram completamente.
– Sinto uma saudade da porra de Salvador! 'Cê morava onde?
– Na Graça e você?
– No Costa Azul. Mas conheço a Graça, é um bairro da porra, disse ele.
Já adotando um jeito meio cúmplice, meio relaxado ele perguntou,
– E aê? Essa porra tá doendo muito?
– Pra caralho.
– Deixa comigo porra. Vou mudar a porra da medicação, pedir mais umas porras duns exames e quero ver se a gente não acaba com essa sacana dessa bactéria.

Para quem não tem intimidade com o baianês, “porra” na Bahia é usada indiferentemente como sujeito, substantivo, adjetivo, predicado de várias ordens, interjeições de vários tipos. Expressões de raiva, alegria, espanto, prazer, admiração.
A palavrinha mágica é usada para substituir outras palavras, nomes, situações, conceitos e lugares que você não se lembra, ou não quer nomear, no momento em que fala.
É usada tanto para iniciar como para terminar as frases. Como indicativo de mudança de parágrafo, pausa, ponto final, dois pontos, ponto e vírgula, três pontinhos, ponto de interrogação e principalmente vírgula. Sem essas vírgulas verbais as frases ficam sem pontuação, ninguém vai entender.
Serve para tudo porra menos o sentido original. Até em Sampa.

Buzú

Morei num bairro tranquilo e tradicional de Salvador. A Graça não é um bairro grande e é cortada por uma avenida estreita. Esta avenida de apenas três pistas é a espinha dorsal do bairro. Todas as outras ruas deságuam nela.

Uma manhã dessas tomei um ônibus. Um buzú. Estava vazio com apenas algumas pessoas sentadas. Eram umas oito horas da manhã. 
Inesperadamente o buzú que seguia pela avenida de repente para. Não havia trânsito, não havia engarrafamento, também não era um sinal fechado, vermelho. Mas o ônibus parou. E parou em uma esquina.

O cobrador estava lá na frente conversando com o motorista. Cobradores em Salvador não ficam sentados em seus lugares atendendo os passageiros. Eles ficam lá na frente, bem embaixo daquela placa “só fale ao motorista o indispensável”, conversando animadamente com o colega. Sempre.
Ali é o lugar natural dos dois passarem o tempo, aliviarem mutuamente a longa espera pela hora de voltar para casa, para o bar, o futebol, o bloco, a nêga.

O Buzú parou. 
O motorista abriu a porta e o cobrador desceu. E lá foi ele para a esquina. Na esquina havia uma baiana e um tabuleiro. As baianas à tarde vendem acarajés e abarás. Pela manhã vendem bolos, mingaus e sucos .
Em pé, ao lado da baiana, o cobrador gritava para o motorista as opções do tabuleiro,
- Tem mingau de tapioca.
- De milho verde não tem não?
Enquanto isso o ônibus parado começou a provocar um pequeno congestionamento na avenida. Os carros que se dirigiam pela manhã para trabalho e escolas já formavam uma fila à espera das escolhas da dupla. Como a avenida é central o engarrafamento provavelmente já se estendia pelas ruas transversais.
- E tem suco de manga?
- Não, só tem de maracujá e pitanga, vai?
- Que jeito, vai maracujá mesmo. E o bolo? É do quê?

E o engarrafamento aumentando. 
Mas como baiano é paciente e vive num ritmo temporal especial, o Tempus Bahianus, ninguém ainda estava buzinando. Apesar do buzú já estar criando uma situação crítica em todas as imediações.
Nisto uma senhora que estava sentada no ônibus, obviamente uma pessoa estressada e sem o menor axé, resolve interferir nesta cena de fazer Caymmi, sofrendo lá no paraíso coitado, sentir ainda mais saudades da santa Bahia.
- Senhor motorista!

Atenção para a formalidade desta expressão que demonstra a completa falta de sensibilidade e capacidade de contextualização ao meio ambiente desta senhora, que deveria ter se dirigido ao rapaz em termos mais respeitosos. Do tipo,
 – Ô môtô! Ou melhor ainda,
 – Ô meu bró.
Bem, mas infelizmente foi assim mesmo que ela disse,
- Senhor motorista!
- Diga minha tia, respondeu educadamente o rapaz, sem se ofender com a aspereza do tratamento que acabara de receber.
- O senhor não pode parar um ônibus, engarrafar completamente uma rua inteira e deixar seus passageiros à espera que o senhor escolha seu mingau.

O rapaz depois de ouvir palavras tão duras, de um raciocínio tão intolerante e preconceituoso, se levanta atônito. Abre os braços num gesto largo,
- Minha tia... eu tô cum fome, eu tô trabalhanu. Eu preciso mi alimentá.
Uma lógica cristalina, perfeita, irrespondível.
O trânsito que esperasse!

Wellies

Beaconsfield, no Buckinghamshire, é um dos suburbs mais charmosos de Londres, bem no meio das Chilterns, próximo das Burnham Beeches. Há casas belíssimas, jardins de sonho, estradas suaves na paisagem idílica do countryside inglês,  ondulações que se sucedem suavemente nas colinas Chilterns. 
A exatos 35 minutos do Hyde Park pela M4 e M40 a vila surgiu por ficar exatamente a meio caminho entre Londres e Windsor. Ali no meio da viagem se fazia a troca de cavalos por outros descansados.

Além das casas há muitas mansion houses, manor houses, palácios, castelos e grandes propriedades, muitas delas históricas. A quantidade circulante de Astons, Bentleys, Ferraris e Rolls é altíssima. Além dos simples Jags, Porsches, Beemees, Mercs e não raros Lambos.
Bosques e mais bosques, estradinhas deliciosas com pequenas placas de transito para não poluir visualmente a paisagem. Pubs, inns, pontes, riachos e igrejas à beira das estradas.
Numa delas há uma passagem de patos. Como uma passarela para pedestres, sem as riscas brancas no chão, e uma placa com o desenho de um patinho.
Como todos respeitam, e os patos se condicionaram a cruzar por ali, eventualmente o transito para dos dois lados da estrada para uma pata atravessar acompanhada dos patinhos.

Muitas crianças vão sozinhas para as escolas seguindo pelas calçadas e atravessando as ruas no lugar certo. Ou então, como quase todos preferem, cortando caminho pelos bosques cujas trilhas são mais frequentadas que as próprias calçadas.
- Morning!
- And such a beautiful morning, is not?
Em alguns pontos de Beaconsfield, em Penn e Tylers Green, só há calçadas em um dos lados da rua para dar mais espaço para a grama, e não há iluminação pública pra as noites ficarem mais bonitas.

Burnham Beeches são um paraíso à parte.
Na chegada do outono, e depois por um longo período, o bosque vai gradualmente mudando de cor, assumindo as mais infinitas variedades de verde, marrom, amarelo e vermelho. Há momentos em que todas estas variações de tons e cores estão presentes ao mesmo tempo e um tapete vermelho amarelado se espalha por todo o chão.
A luz atravessa as árvores aqui e ali, ilumina espaços, se mistura e assume cores, cria focos e sombras teatrais. O silêncio se compõe suavemente pela bruma, pelo vento, pelo canto dos pássaros e por seus passos nas folhas secas.
É absolutamente deslumbrante. Fotos, cartões postais e wallpapers estão espalhados pelo mundo. Entrar, passear dentro deste cenário é uma experiência quase mística de tão profunda a beleza que lhe envolve.

A paisagem social também tem detalhes interessantes.
Além das famílias tradicionais há muitos casais jovens com filhos pequenos. As mulheres ficam em casa, sem trabalhar. É um comportamento relativamente novo e socialmente interessante.
Os casais formados em geral por dois profissionais muito bem sucedidos do centro de Londres resolvem ter filhos. Decidem se mudar do centro para Beaconsfield, comprar uma casa com um belo jardim e educar os filhos desde pequenos nas excelentes escolas públicas do lugar que estão entre as melhores do país.

A mulher interrompe temporariamente a carreira profissional para cuidar da casa e da educação das crianças, à moda antiga.
O marido vira um commuter indo e voltando diariamente pra Londres de trem. Durante toda a semana a bucólica estação da vila, no começo e no fim do dia, fica repleta de jovens executivos levados e trazidos por jovens esposas em carros caríssimos. Nos finais de semana eles cuidam juntos das crianças e naturalmente do jardim.

As mulheres criam interessantes mecanismos de convivência. O Tea Party acontece todos os dias durante a semana. Forma-se um grupo de mães na escola onde elas têm filhos de idades semelhantes. Cada dia uma delas ao final das aulas, no meio da tarde, recolhe todos os filhos das outras e os leva para casa. Lá ela preparou um tea party para os filhos e coleguinhas.
Durante o resto da tarde ela os entretêm com brincadeiras, jogos, chá, bolos e lanches. No final da tarde as outras mães aparecem, tomam um chá e levam seus filhos para casa. Pais e filhos exercitam uma convivência social agradável. Neste revezamento as mães têm muitas tardes livres para se cuidar e cuidar de casa e gastam apenas uma tarde para fazer um tea-party. 
Uma criação simples e prática, como os ingleses.

Nos fins de semana as lojas locais de DIY (do it yourself) e de gardening ficam cheias do que o príncipe Charles a contragosto chamou de “um país de jardineiros”.
O hábito é tão arraigado que as professoras nas escolas pedem que cada criança tenha e cuide de sua própria planta no jardim de casa. Desenvolve a afetividade, a responsabilidade, o gosto e o respeito pela natureza. E perpetua os ingleses.

Os jardins são naturalmente impecáveis e você descobre que já está integrado ao meio quando um dia alguém lhe pede seu cortador de grama, emprestado. É um código definitivo. Se um vizinho se ausenta por alguns dias, os outros cuidam de sua grama.
Há também outras obrigações não escritas. Mesmo que não se tenha um gato, o que é que raríssimo, é preciso ter comida para eles servida e disponível em casa para os gatos dos vizinhos que eventualmente apareçam na sua casa.
Neste ambiente há um lugar muito especial para as velhas senhoras. Velhinhas inglesas são um patrimônio da humanidade, deviam ser tombadas pela ONU. Simpáticas, educadas, gentis, fofíssimas. No Bucks sempre se acaba encontrando um mordomo no estacionamento do supermercado colocando as compras na mala do Bentley de uma delas.

Neste meio de regras e códigos muito claros há um símbolo delicioso. O mais surpreendente deles. As Wellies sujas de terra. Botas wellington verdes de borracha, discretamente sujas.
Prosaicas donas de casa circulam em Land Rovers dos modelos mais rústicos e despojados. Não dos luxuosos mas dos rudes. Aqueles modelos mais coloniais.
Desfilam elegantemente, displicentemente, usando green wellies discretamente sujas da terra da Rainha. Provavelmente ela não tem uma propriedade rural maior que um jardim. Mas num país onde a propriedade da terra, normalmente associada a títulos de nobreza, é um sinal definitivo de nobreza, essas botas sujas de terra são um discreto símbolo de status.
Por conta da simplicidade inglesa, e do stiff upper lip, ela ou uma baronesa são indistinguíveis no supermercado.

Árvores de Cristal

Inverno.
Algo deslumbrante acontece com as árvores em algumas condições: inverno muito frio, neve, céu azul e dias de sol.
As árvores estão completamente desfolhadas, à tarde ou à noite a neve cai se depositando em cada galho. Ao amanhecer, o calor do sol começa a derreter a neve lentamente, mas como o frio é intenso a neve não chega a se transformar em água, mas em gelo que adere a todos os galhos.
Totalmente envolvidas em gelo as árvores assumem uma visão de esculturas de cristal. O sol ilumina os galhos gerando reflexos brilhantes e coloridos.
As ruas ficam decoradas com imensas esculturas de cristal debaixo do céu azul brilhante, flutuando no chão branco e macio.
Você acorda, vai até a janela e se vê cercado de árvores de cristal, brilhantes, cheias de luz, distribuindo raios coloridos.

Preta, preta, pretinha.

Passei por uma experiencia assustadora que literalmente gelou minha espinha, que me deixou atordoado por dias.
Há sempre uma intolerância latente nas sociedades que ó tempora, ó mores, ó loco, pode se dirigir contra judeus, homossexuais, negros, imigrantes, etc. Agora por aqui ela está bem focada nos fumantes, os discriminados da vez. Por consenso social estes grupos sofrem desrespeito, perseguições. A população se sentido legitimada discrimina impiedosamente. Até aqui nenhuma novidade.

Eis que, morando em Salvador fui um dia ao supermercado. Filas imensas, blá, blá, blá, o usual. Quando estou para finalmente ser atendido, a pessoa que acabara de pagar resolve discutir com a menina do caixa o preço de um determinado produto. Atenção: depois de ter pago.
Claro que a discussão que se prolongava era inútil. A menina aconselhava o cliente a procurar pela gerência, mas o cara estendia e estendia a conversa. Um chato.

Nisso eu me dirijo a ela e no mais puro e castiço baianês lhe peço,
- Ô minha pretinha, adiante aê meu lado.
A menina pulou da cadeira. Ficou de pé, a face transtornada, o dedo em riste me acusando,
- Ele me chamou de pretinha!
Todos pararam para ver o monstro discriminador. Eu.
Algumas pessoas próximas confirmavam,
- Ele chamou a menina de pretinha. Chamou sim, chamou mesmo.
A confusão se estendeu para as filas vizinhas. Eu completamente paralisado me perguntando: onde estou? que cidade é esta?
Me vi sendo acusado de preconceito racial, logo eu que já namorei negras, logo eu que sou apaixonado por Salvador, esta cidade de mais de 96% de mulatos.
Me senti num cenário de Kafka. Era por demais absurdo. Principalmente por ser a expressão intrinsecamente carinhosa. Principalmente por ser na Bahia. Principalmente por ser em Salvador.

Esta terra terá mudado tanto assim, terá se tornado tão igual às outras? A Bahia acabou?
Lá estava eu completamente petrificado. Acabara de rasgar o terceiro e o quinto artigo da Constituição, ferira o Código Civil e o Código Penal. Cometera crime inafiançável.
Iria parar nos jornais. Iria parar por dois a cinco anos na cadeia, mais a multa. Uma tragédia.
Bem pelo menos se eu fosse parar num tribunal, lá também teriam de estar comigo o Moraes Moreira, todo o grupo dos Novos Bahianos, o Luiz Caldas, o Tom Zé, a Bethania e o Caetano Veloso, no mínimo. O promotor teria contra nós pelo menos umas vinte músicas como prova de acusação de crime hediondo.
Lá estaria principalmente o Gilberto Gil que certamente pegaria prisão perpétua por ter afrontado a própria filha lhe batizando de Preta.

A confusão ficou tão grande que saí tranquilamente do lugar. Alguns dias depois reencontrei a mesma menina no caixa. Não resisti e disse,
- Pôrra minha pretinha cê armou o maior fuzuê. Deus é mais!
A pretinha riu.
Ufa! Deve ter sido uma distorção tempo/espaço, nível 5 sigma.

Professor Viana

Professor Viana. Jacinto Viana. Bon vivant, alto, atlético, bonito. Suave, simpático, um empresário bem sucedido. Um filósofo, um homem inspirador.
Estudante de Medicina, casou com uma mulher bonita, largou a faculdade para trabalhar, criou uma empresa, ficou rico.

Professor? Sim, professor de matemática na Escola Técnica da cidade. Sedutor incurável, era louco por meninas bonitas.
Não precisava, não dependia do salário de professor. Mas era na escola, frequentada por meninas de classe média baixa, que ele exercia seu charme irresistível de empresário, de professor, de colecionador de Camaros e Mustangs.
Fui amigo da família, amigo de seu filho, namorei rapidamente uma de suas filhas, belíssima por sinal. Professor Viana foi um dos filósofos mais sinceros que conheci da difícil arte de ganhar dinheiro. Ele ganhou muito, facilmente. Lembro-me de duas pérolas de seu pensamento.

Numa manhã de domingo estávamos todos bebericando uns scotchs na beira da piscina da mansão. Todos alegres, despreocupados. Menos o filho dele.
Professor Viana notou, perguntou,
- O que você tem? Estás com uma cara horrível.
- Hoje é sábado pai, na segunda-feira temos um monte de pagamentos para fazer e estamos sem caixa.
- Sim. Qual o problema?
- Estou muito preocupado, não consigo dormir direito.
O Professor riu,
- Durma tranquilo. Quem tem de perder o sono é quem tem a receber.

Numa manhã de sábado, estávamos em sua casa, sentados à mesa, num tardio café da manhã, depois de uma fantástica noite de diversões. Um caríssimo tour que começara em um restaurante continuara em um bar e terminara numa boîte.
Comentávamos o quanto havíamos gasto. Ele riu,
- Meu filho, dinheiro é extremamente importante. Temos de ganha-lo, nem que seja honestamente.

Ipanema uma Explosão de Juventude

A década de 60 em Ipanema foi uma farra, uma explosão de juventude.
Havia a pílula, o rock’n’roll, a mini-saia, o bikini, os Beatles, o Credence, os Stones, o movimento estudantil, os festivais de música, o tropicalismo, a imprensa alternativa, os hippies, Hendrix, Joplin, o surf chegando.

Uma festa total e absoluta. Mas que foi sobretudo uma imensa farra sexual. As meninas acordaram, acordaram cedo e acordaram com muita, muita vontade.
Muitas meninas de 14 anos se envergonhavam de serem virgens. Era “careta” ser virgem. Muitas que estavam sem namorado pediam aos amigos para lhes livrarem do problema, para não ficarem para trás das amigas.

Os rapazes já não precisavam mais dos favores das domésticas, das empregadinhas, das graxeiras. Graxeira, usado ora como substantivo ora como adjetivo foi um neologismo de origem curiosa. Ao fim da tarde começo da noite as domésticas, terminado o serviço, se arrumavam e ficavam na porta das casas ou dos prédios, conversando, encostadas nos muros que em geral tinham plantados os hibiscos, a rosa-sinensis, as graxas-de-estudante. Deste hábito surgiu o genérico graxeira. As provedoras de favores aos filhos das patroas.

Mas as garotas de dentro das casas acordaram, se soltaram, invadiram a praia das graxeiras. Os rapazes adoraram. Alguns se assustaram com tamanha liberalidade das irmãs e primas. No final a farra se instaurou na Republica Independente de Ipanema que tinha justamente numa garota seu símbolo.
Havia algumas farmácias que vendiam a pílula mágica para menores. Os farmacêuticos se rendiam ao inevitável sabiamente dizendo que era melhor liberar que estragar a juventude das meninas.
Novulon vendia como pipoca. Quando as mães descobriam aquela caixinha redonda e azul era um escândalo. Rendia umas lágrimas e a farra continuava.

Morando na Nascimento Silva quase esquina da Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, minha praia era ali mesmo em frente. Pra quem não sabe todo carioca tem sua praia, é fixa, não muda, não pode nem deve mudar. É questão social, cultural. Mudar de praia é mais que um transtorno é uma traição aos amigos. Quem muda de praia é pouco menos que um pária.
Lá na praia havia uma lenda viva. El Aríete. Um cara bonito, aí de uns quarenta anos, pai de um grande amigo meu o Josetti.

O pai do Josetti era realmente bonito. Alto, forte, atlético, apesar de funcionário do Banco do Brasil também era modelo da Ducal, uma loja de roupas masculinas. O cara estava sempre nas páginas dos jornais em publicidades de ternos. Mas o que ele realmente gostava de usar era short de praia. Simpático e bronzeado o cara era fera no vôlei de praia. As meninas babavam assistindo as partidas.
Ele adorava. Louco por uma menininha, numa época em que virgindade tinha se transformado em problema ele contribuía para a solução. A praia retribuiu com um apelido. El Aríete.

O cara realmente tava traçando a praia toda, perigava chegar ao Leblon. Meu amigo Josetti, apesar do justo orgulho, era até meio traumatizado,
– Pô, meu pai já comeu metade da praia! Quando você se interessa em namorar uma menina descobre que seu pai já comeu. Assim não dá!

Porsches

Há sempre um Porsche na vida de quem gosta de carros.
Na Alemanha algumas das excelentes estradas não têm limites de velocidade. Um paraíso para quem gosta de acelerar e os alemães gostam e gostam muito. Assim como se vai a praia os alemães vão para uma Autobahn. Apenas para correr. Sozinhos ou em grupo.

Depois de algum tempo vicia, você começa a procurar motivos para ir para a estrada e acelerar. Então sempre haverá um Porsche por perto.
Fui ultrapassado por um preto. Passou e sumiu. Pouco depois comecei a me aproximar dele. Com tanta facilidade que ficou claro que ele diminuíra muito de velocidade. Ao ultrapassa-lo vi o motorista, uma senhora de uns setenta anos ao celular. Estava explicado, ela devia estar falando com algum netinho. Pouco depois vejo-a pelo retrovisor se aproximando rapidamente. Esticando a marcha, giro lá em cima, me ultrapassa e desaparece.

Alemães só piscam o pisca-pisca uma única vez. Piscou tá avisado e pronto, cuide-se. Também nunca se fica na faixa da esquerda. Nunca, ultrapassou voltou.
Um dia estava a uns 180 km/h, vi uma piscada amarela, era um Porsche, passou e rápido. Colado nele passou outro. Depois mais outro. Mais um quarto, um quinto e um sexto. Um no vácuo do outro. Seis Porsches nenhum a menos de 250 km/h. Seis amigos passeando tranqüilamente numa ensolarada manhã de sábado.
Quase sempre isso acontecia na A4 no trecho entre Kassel e Dortmund, o lugar que Deus reservou a seus escolhidos depois que Adão saiu de casa.

Postos de serviço nas Autobahnen têm pistas especiais de aproximação e saída tão perfeitas quanto as próprias, e muito longas. Entenda-se: a de saída é uma pista de aceleração para se unir à Autobahn e lhe deixar na mesma velocidade de quem passa zunindo. A de entrada é uma pista de desaceleração para se entrar com segurança na área de serviço.
Ao entrar em um desses postos, já na pista de desaceleração, fui ultrapassado por um Porsche Turbo a mais de 160 km/h. Levei um susto afinal tecnicamente já estávamos dentro do posto. Como os alemães são muito disciplinados fiquei curioso. Pouco depois o Porsche estava freando violentamente, parando numa das vagas de estacionamento. A porta se abre, o motorista deixa-a aberta, sai correndo segurando as calças em direção ao banheiro. Nessas situações um Porsche Turbo ajuda muito.

Dirigindo um Carrera 2S eu tirava tudo que podia e sabia do carro e de mim. Sem limites, sem nenhuma piedade, nem dele nem de mim. Há poucas, muito poucas interações mais perfeitas. Você veste o carro, ele sabe o que você quer, ele antecipa suas reações, ele coopera com seus erros, ele estimula sua emoção. 
Não há amante como um Porsche. Nenhuma permite tanto, nenhuma perdoa tanto, nenhuma se dá tanto. O que você pedir, o que você quiser, na hora que você quiser, do jeito que você quiser.

O Carrera 2S tem suspensão mais baixa, mais dura, pneus ainda maiores. A direção é direta, precisa, transmite tudo da estrada. Você sente até quando passa por cima de uma tampinha de refrigerante. Ele tem tanto grid, gruda tanto à estrada que é capaz de produzir acelerações laterais de um 1G. Ele produz uma força lateral igual à força da gravidade. Isto é: nas curvas ele joga seu corpo para o lado com o mesmo peso que a gravidade lhe puxa para baixo. Sua cabeça pesa nas curvas.
Porsches são incansáveis e fiéis, esqueça a inconstância italiana. Para amar um Porsche você precisa estar em forma. Como toda amante ardente não reclama se você abusa mas também vai abusar de você. Cuidado para não despertar todo o fogo, você pode não estar preparado.

Chamei minha mulher para dar uma volta numa estradinha de montanha, cheia de curvas. O melhor ambiente para soltar um Porsche.
Subi a estrada com vigor, usando tudo do motor, das marchas, da suspensão, dos freios. Desci usando mais ainda. Curva após curva ele descia a montanha alucinadamente, mal dava para ver a paisagem passar. Sem sair um milímetro da trajetória, grudado ao chão. Uma curva acabava exatamente na entrada da seguinte. Um toque no freio uma afundada no acelerador.
No meio da descida Sandra grita,
- Para, para, que eu vou vomitar. 
Não há mulher como Gilda, digo, não há nada como um Porsche.

Origem do Eita!

Minha prima Virgínia que ultimamente anda meio nostálgica de suas raízes nordestinas chama atenção para expressões regionais que estão se espalhando pelo resto do Brasil como o Vixe e o Eita, ambas expressões de espanto.

O Vixe, e o Ixe, são o fascinante fenômeno de sucessivas contrações ao longo do tempo da expressão Valei-me Minha Nossa Senhora Mãe Virgem Santíssima. A frase original se contraiu não apenas para as expressões Nossa Senhora! , Nossa Mãe! e Nossa! mas para a ainda menor Nosss...
Da contração de Virgem Santíssima! saíram o Virgem! , o Vixe e o Ixe.

Já a expressão Eita! é de origem mais complicada.
Entre a maior parte dos estudos etimológicos já conduzidos na garimpagem do Eita! há uma versão mais aceita tanto pelas academias de Portugal quanto do Brasil.
Torredeita é um pequeno povoado no norte de Portugal em uma das mais importantes freguesias do concelho de Viseu, de onde fica a cerca de 10 quilômetros. A região remonta ao século XIII apesar de alguns historiadores acreditarem que o povoado é ainda mais antigo.

Para o Professor Moreira de Figueiredo e para o Dr. José Coelho, um dos maiores arqueólogos viseenses a origem etimológica do topônimo Torredeita esta ligada a “existência do ribeiro que costumamos designar por “Rio Eita” e portanto de Torre d’Eita como aliás durante muito tempo se escreveu o nome da frequesia”.

A expressão Eita está ligada a uma grande seca ocorrida há alguns séculos na região que fez o ribeiro Eita secar. Dizia-se com espanto que a seca era tanta que “secou até o rio Eita”. Com o passar do tempo a frase se consolidou como expressão de grande espanto. Ao passar pelo natural processo de contração a expressão virou “secou o Eita!”.

Muitos anos depois junto com as sucessivas levas de imigrantes do norte de Portugal pra o Nordeste do Brasil a expressão chegou até aqui. Semelhantemente ela foi usada nas mesmas situações das secas que afligem a região. No processo de assimilação cultural a expressão de espanto “secou o Eita!” acabou se contraindo para “secou, Eita!” e finalmente “Eita!”

Well, well. A freguesia de Torredeita, o rio Eita, o Professor Moreira de Figueiredo e o Dr. José Coelho são reais. Já o que vem depois é pura sacanagem.
O tipo de besteirol que nossos impostos financiam em centenas de pesquisas inúteis que enchem as prateleiras de nossas universidades.

Dia das Vadias


dia 25 de Maio deve se consolidar no Brasil como o Dia das Vadias. Várias Marchas das Vadias estão acontecendo pelo país contra a violência sexual contra as mulheres.

A primeira SlutWalk aconteceu em Toronto em Abril de 2011 como protesto, em meio a uma onda de estupros, ao comentário de um policial canadense: Se a mulher não se vestir como uma vadia reduz-se o risco de sofrer um estupro.
Depois da primeira marcha no Canadá elas pipocaram pelo mundo contra a cultura do estupro, pela liberdade de comportamento e de se vestir. Por aqui a primeira marcha das vadias aconteceu em São Paulo dois meses depois de Toronto.

Por aqui as marchas já se espalharam por mais de vinte cidades, mais focadas na violência em geral contra as mulheres. O Nordeste é campeão brasileiro no assunto sendo que um de seus estados bate, desta vez indesejados, recordes mundiais. Apesar de um grande dramaturgo local achar que toda mulher gosta de apanhar foi lá que se criou uma técnica criativa e eficiente.
Uma Ong distribuiu apitos entres as mulheres de um bairro. Quando uma delas sofre violência toca o apito, as vizinhas ouvem e tocam os seus. Rapidamente a comunidade, e a policia, está ouvindo o barulho estridente dos apitos que acabam por constranger e apontar o agressor.
As marchas alertam para outro aspecto sério do problema, este ano o tema na Avenida Paulista foi Quebre o Silêncio.

Não seja boba desperte a vadia que existe em você. Não seja bobo estimule a sua.
Pena que as marchas das vadias estejam tornado tão pública uma palavra carinhosa que deve ser reservada para a intimidade, no diminutivo, acompanhada do pronome possessivo. Nos casos mais intensos adjetivada pela poetiza grega de Mitilene ou pelas qualidades de Brillat-Savarin.
Nestes momentos deve-se seguir o conselho da Danuza Leão sempre ótima em etiqueta,
- Apanhar? Só a pedidos.

Mulheres Lindas e suas Línguas Ferinas

Há mulheres que têm a língua mais mortal que suas belezas. 
Tive uma bela amiga a quem contei que “não há mulher que nunca tenha comido uma alface por vaidade, uma caixa de Bis por ansiedade ou um cafajeste por saudade”. Ela riu do alto de sua experiência, 
- É bom deitar com cafajestes, eles fazem tudo que você quer. 

Marylin Monroe, Mae West e Arletty além de belas tinham línguas ágeis e afiadas. Perguntaram a Marylin o que ela usava para dormir, 
- Duas gotinhas de Chanel no. 5. 
Sabiamente aconselhou, 
- Se você vai der duas-caras, pelo menos faça uma delas bonita. 
- Homens enxergam as mulheres como livros. Se a capa não seduzir eles não olham para o interior. 
- Uma mulher esperta conhece seus limites, uma mulher inteligente sabe que não tem nenhum. 
- Homens de verdade enlouquecem pelas mulheres que sabem dizer não. 
- Uma garota esperta beija mas não ama, ouve mas não acredita, e deixa antes de ser deixada. 

Mae West era ainda mais mortal. 
- Quando sou boa sou ótima mas quando sou má sou maravilhosa. 
- Entre dois pecados sempre escolho o que nunca experimentei antes. 
- Tenha de reserva um namorado para os dias chuvosos e outro para o caso de não chover. 
- Todos os homens que abandono merecem uma segunda chance. Mas com outra. 
- Eu evito as tentações, a menos que eu não consiga resistir. 
Ao deixar o casaco de peles na chapelaria de um teatro a funcionária ao ver seu colar se espantou, 
- Meu deus, que diamantes! 
- Meu bem, deus não tem nada a ver com isso. 

Arletty foi uma atriz francesa do começo do século, belíssima, a primeira a ter as pernas colocadas no seguro. 
Durante a invasão alemã da França na Segunda Guerra ela se apaixonou em Paris por Hans Jürgen Soering um jovem oficial alemão da Luftwaffe. Depois da guerra ela foi presa por traição e colaboracionismo com o inimigo. Presa em Drancy uma freira tentou aproxima-la de deus, 
- Já nos conhecemos, mas a relação não deu certo. 
Levada a julgamento lhe perguntaram por que tinha sido amante de um oficial alemão, 
- Ninguém usa uniforme na minha cama. 
E completou magnífica, 
- Meu coração é francês, mas minha bunda é internacional.
Os franceses entenderam, perdoaram e anos depois ela estava sentada, desta vez no júri, do Festival Internacional de Cinema de Cannes.

Boa Forma em Boa Viagem

Tenho um grande amigo Beto Faria, atual Secretário da Fazenda de Olinda. Beto é um dos homens mais calmos e conciliadores que conheço. Já o vi lidar com greves de funcionários públicos, negociar demandas trabalhistas delirantes e sanar finanças impossíveis. O cara tem um jogo de cintura de fazer inveja a dançarina de dança do ventre.

Beto tem a calma e o autocontrole típicos do mergulhador que é. Mas apesar do bom humor ele quase perdeu a paciência. Beto foi ao super-mercado prosaicamente fazer umas pequenas compras num desses walmarts da vida. Em Boa Viagem, Recife. Até aí nada de mais.
Como estava comprando poucos produtos ele naturalmente foi para fila das pequenas compras. Apenas para descobrir que na fila das pequenas compras havia carrinhos gigantescos com compras para meses. Com sua calma natural ele muda de fila e vai para uma das filas normais. Sem problema, sem stress.

Ele fica logo atrás de uma senhora com um carrinho nem tão volumoso assim. Em cima do carrinho, sentado sobre as compras estava perigosamente equilibrado um menino, provavelmente filho da tal senhora. O moleque fazia todos os malabarismos necessários para se despencar no chão, mas nem com toda sua esperteza ele conseguia se deixar atrair pela Gravidade. A Lei não se aplicava àquela criatura. A fila não andava, o moleque aprontando.
A essa altura Beto já estava intimamente torcendo que o diabinho se esborrachasse no chão. Para apressar a desgraça do moleque ele chegou até a dar umas pequenas ajudas, uns toques leves no carrinho. Mas nada, o moleque era protegido por alguma entidade maléfica.

A fila não andava direito, o menino barbarizava, a mulher nem se abalava. A mulher era gorda. Muito gorda, imensa. Dessas que o barateamento dos carbohidratos está produzindo aos milhares.
Gorda e tranqüila. Tão tranqüila que nem o barulho do supermercado, nem o atraso da fila nem muito menos as loucuras que o menino aprontava movimentavam sua enorme massa adiposa. Ela estava extremamente absorta em sua leitura. Com muita atenção ela lia, muito apropriadamente, o último exemplar da revista Boa Forma.

Quem já estava quase perdendo a boa forma era Beto. Mas eis que o menino apronta uma ótima, consegue realizar uma tremenda façanha. Lá do alto da montanha de compras, se equilibrando entre biscoitos e macarrões, pesquisando entre sabonetes e manteigas o pestinha descobre no fundo do carrinho um brinquedo. Ou pelo menos o que lhe parecia ser um brinquedo.
A demoníaca figura estava agora empunhando um destes detergentes que têm coronha, gatilho e bico disparador. O moleque agora estava armado! E toca a disparar.
Beto pacientemente se desviava dos disparos. E a lipo-criatura nada, não se abalava concentrada em sua boa forma. Finalmente acabou acontecendo. O moleque disparou um jato de detergente no próprio olho. O inferno agora estava completo.

Além da tortura das filas, das ansiedades da espera, do empurra-empurra, do sofrimento em meio ao caos, agora também havia os gritos horrendos do infame.
A mulher não teve outro jeito senão deixar de lado a Boa Forma, perder a própria e tentar domar o moleque estrebuchante. E Beto atrás, esperando, ouvindo, suportando. Mas como não há mal que sempre dure a macro-adiposidade acabou sendo atendida pelo caixa. Quando ela finalmente já se preparava para desaparecer, nota que na sua conta havia a substancial, a inaceitável diferença de um real e vinte e cinco centavos.
Para tudo. Chama o gerente, chama o fiscal, refaz a conta quilométrica.

Neste momento Beto reviu mentalmente toda sua vida. Corajosamente revisou cada detalhe desde a infância. Analisou a adolescência, honestamente lembrou de tudo e concluiu que com certeza não havia batido na própria mãe. Beto respirou fundo. Respirou com aquele fôlego enorme de mergulhador e encarou o desafio. Esperou pacientemente que finalmente a contenda se resolvesse. Tudo terminado, a dupla insana se foi, se perdendo nas ondas da multidão.
Finalmente chegara sua vez. Beto começa a tirar suas duas ou três compras do carrinho e a coloca-las no balcão. Sorri para a moça do caixa, aliviado. Ela olha para ele com um ar grave de veredito final.
- O caixa quebrou, está encerrado.

Neste momento Beto teve uma revelação.
Ele começou a ter uma verdadeira experiencia religiosa. Ele que já tivera algumas dúvidas na existência de deus agora tinha certeza da existência do diabo. Ou pelo menos, para ficar no regional, na do Curupira, na do Saci que se divertem fazendo confusão na vida dos outros.
Anos de luta política não podiam ter sido em vão. Neste momento, paciência e determinação lhe foram mais úteis que na época do regime militar. Beto esperou que tudo voltasse à normalidade. O caixa voltou a funcionar, as compras foram passando, a moça ia registrando.

Mas eis que quando ele olha aliviado para o empacotamento de suas compras descobre que o supermercado tem uma orientação politicamente correta.
O empacotador era deficiente físico. Só tinha um braço.

Hunsrückisch

Há coisas muito especiais nesta Terra Brasilis.
Ulrich, um alemão amigo de trabalho, tinha chegado da Alemanha, tínhamos trabalhado a semana inteira e já estava quase no dia dele voltar para Frankfurt. Como era fim de semana, o dia estava lindo, quente e ensolarado, resolvemos aproveitar para ir à praia em Piatã, Salvador.

Ficamos em uma daquelas barracas de praia onde se vai mais para beber e comer do que para tomar banho de mar.
Tanto quanto eu gosto da Alemanha o Ulrich gosta do Brasil, fator importante em nossa amizade. Ele vinha frequentemente aqui. Sempre que chegava, brincando fingia que se espantava,
- Cada vez que venho ao Brasil há mais louras. Já existem mais louras em São Paulo do que em Munique.
Ulrich era muito bem humorado, o tipo de alemão alegre e falastrão que associamos com as cervejarias da Baviera.

Estávamos em Piatã tomando esta coisa que aqui chamamos de cerveja e que Ulrich educadamente fingia acreditar que fosse. Geladíssima acompanhada por peixes, caranguejos, camarões, acarajés e abarás. Fazendo aquela farra gastronômica bahiana que o diabo criou e que Nosso Senhor do Bomfim abençoou.
Conversa vai conversa vem, noto que havia na areia um grupo de meninas bonitas perto de nós. Eram pelo menos umas dez e pela "branquelice" seguramente eram turistas. O que mais chamou minha atenção foi que elas estavam falando alemão. Alternavam alemão e português com sotaque gaúcho.

Como já tínhamos conversado muito sobre imigração e influência alemã no Brasil aquilo era perfeito para ilustrar nossas conversas. Chamei sua atenção,
- Ulrich, estás vendo aquelas meninas bonitas aqui à nossa esquerda? São brasileiras mas estão falando em alemão.
Ele olhou para elas prestando atenção no que conversavam,
- Isso não é Alemão.
- Claro que é preste atenção.
- Você não vai querer me ensinar o que é Alemão, vai?
Claro que não, mas se esforce e ouça melhor.
Subitamente seu rosto se iluminou,
- Ja, fantastisch, wunderbar! Parece um dialeto antigo.

Ulrich se levantou, foi direto para o grupo das meninas, puxou conversa em alemão. Fui atrás, eram turistas gaúchas de férias em Salvador. Agora estavam todos conversando alegremente, ele em alemão, elas num dialeto alemão. Na areia, entre acarajés, cocadas e bikinis, na Bahia.

Ulrich estava encantado de encontrar brasileiros, meninas bonitas brasileiras, falando um dialeto alemão raro. Elas contaram que o dialeto era o Hunsrückisch, que elas tinham aprendido em casa, mas que só falavam entre si. Contaram que se esforçavam para continuar a fala-lo para não deixar morrer uma herança dos avós que tinham vindo da Alemanha.
Ulrich voltou feliz para Frankfurt conhecendo melhor a língua Alemã. O Brasil, como diz meu amigo Paulo Cunha é um país especial.

As Ninfas do Campo Grande.

Muita gente conhece o Campo Grande em Salvador. Mesmo quem não mora na cidade, conhece esta praça. Ou por ter visitado a cidade, ou passado um carnaval, visto na TV ou por alguma música. Mas pouca gente presta atenção nas ninfas do Campo Grande. São muitas. Belíssimas.

Elas estão espalhadas pela praça, sensuais e displicentes. São estátuas brancas de cerca de 1,5 m de inspiração greco-romana. Umas fôfas. Todas delicadamente insinuantes, seminuas ou usando um leve véu, todas com lindos seios à mostra. Umas carregam flores, outras as oferecem, umas carregam cântaros, outras cachos de uva. Algumas mais atrevidas carregam pequenas piras de fogo.

Quem usa o Campo Grande para malhar pode apreciá-las e contá-las. Serão 32, 35 ou 37?
Ao longo dos 636 metros do anel interno, ou cerca dos 700 do anel externo, elas estão lá lindas, bacantes, provocantes, numa prévia inspiradora do que acontece lá ao vivo entre Fevereiro e Março.
Se você contá-las pode ser que chegue a números diversos provavelmente por que esqueceu cinco delas que estão juntas numa posição mais discreta da praça, meio que escondidas num arvoredo. Procure que você vai achá-las, não seja tímido.

Outra surpresa.
Não são todas figuras femininas, há dois rapazes. Serão sátiros?
Como a praça fica fechada à noite o que será que acontece depois que os portões se fecham? Uma festa de Baco? Serão dois felizardos desfrutando sozinhos de tão bela e numerosa companhia? Parece que não.
Pelo jeitinho deles, são delicados ninfos. Pobres ninfas.

Enochatos

Há algum tempo estava com uma amiga em uma adega procurando comprar um vinho. Precisávamos de um que fosse especial para presentear um amigo. Pedimos ao sommelier da casa que nos ajudasse a escolhe-lo, dissemos o que pretendíamos, o quanto queríamos gastar e o perfil do presenteado. A certa altura já com dois vinhos pré-escolhidos e prontos para decidir qual iríamos levar o sommelier foi taxativo.
- Levem este, ele tem mais elegância.

Nas últimas décadas o vinho vem fazendo cada vez mais parte da mesa do brasileiro médio. O hábito não apenas de toma-lo, mas também de degusta-lo tornou–se comum. O número de apreciadores e enólogos cresceu enormemente. Todos temos alguns amigos que assumem ares esotéricos, que meditam e transcendem frente a uma taça.
Qualidades, aromas, perfumes, paladares, características e nuances insuspeitadas são discutidas com rigor científico e dedicação religiosa. De cada taça surgem interações sublimes, experiências que beiram o divino.

Grupos se formam para esta adoração, novos altares são erguidos. Velhos amigos aparecem com novos e profundos conhecimentos, opiniões complexas, atitudes quase místicas. Há vinhos alegres, descontraídos, outros são  maduros, alguns sérios. Uns são meditativos, alguns são sonolentos. Outros ainda são decididos, alguns são desleais outros confiáveis. Há os atléticos, os frágeis, os elegantes, os sedutores, Alguns são irritantes outros simpáticos. Uns são amigos antigos, outros são novas companhias. Há alguns previsíveis outros caprichosos como jovens amantes.

Um desses amigos me levou à uma prova, a uma degustação em um desses lugares recentes.
O templo, digo a casa, muito bem decorada, luxuosa, de bom gosto e naturalmente cara. Com toda a infraestrutura ambiente, material e humana necessária ao culto. Além da área de exposição e vendas, o local tem diversas adegas com diferentes graus de umidade e temperatura.
Há uma sala para palestras e vários ambientes diferentemente climatizados para a mais perfeita apreciação. As diferentes climatizações com diferentes temperaturas, graus de umidade e iluminação reproduzem fielmente a terra natal dos vinhos. Um fator essencial para preservar o equilíbrio emocional do vinhos. 

O grupo de degustação era pequeno, no máximo sete pessoas, todas de nível sócio-cultural semelhante, simpáticas e amigáveis. As garrafas foram se sucedendo, o prazer da degustação visível em todos. Os comentários beiravam o sagrado, as descrições desciam a um nível de detalhes só acessíveis a iniciados. Comentários profundos e elegantes sobre características insuspeitadas ao comum dos mortais.

A casa além do pessoal técnico, administrativo e de serviço contava com um sommelier e enólogo argentino pago a peso de ouro. Uma autoridade, um sacerdote, um guru. Opiniões deslumbrantes, conhecimento elevado, uma intimidade ancestral com o vinho emanavam dele. Ele se movimentava etereamente pelo ambiente, emitindo conceitos e sentenças definitivas. Um gentleman, um connaisseur, um sábio.
A certa altura o grupo decidiu fazer uma aventura por terras desconhecidas. Provar um vinho nunca antes provado. Era uma decisão perigosa, um ato de ousadia que podia ter conseqüências inesperadas. Uma verdadeira temeridade.

Apesar de temerosos pelas conseqüências, todos estavam firmes no propósito, tão caracteristicamente humano, de se aventurar no desconhecido, de seguir ousadamente por rumos nunca antes trilhados. Um dos membros do grupo, certamente o mais prudente e mais responsável, resolveu se precaver para o que poderia ser uma atitude inconsequente com resultados imprevisíveis,  quem sabe até desastrosos. Ele sugeriu que se chamasse o Sommelier para nos socorrer. Para nos guiar e proteger nesta aventura. Todos louvaram a sugestão.

Era apropriado. Era sensato. Era o mínimo que o grupo poderia fazer para se proteger, para que pudesse com segurança minimizar um acidente inesperado, uma catástrofe, talvez até uma tragédia.
Escolheu-se alguém para chama-lo. Trazido por um dos membros do grupo, o Sommelier chegou com os passos cuidadosos de um pastor, a seriedade de um professor, a majestade de um sacerdote. Contaram-lhe a decisão. Ele aprovou a aventura e elogiou a coragem de todos.

O vinho foi pedido.
Quando a garrafa chegou foi severamente examinada com um misto de medo, apreensão e deleite. O desconhecido, o inusitado, o inesperado excitava a imaginação de todos. O medo e ansiedade enchiam a alma daquele grupo de exploradores indômitos. Sabíamos todos que o vinho era um desconhecido, sem muitas referencias, sem uma história familiar. Além de tudo ele, agravantemente, era de uma safra recente. A pouca idade do vinho tornava ainda mais temerária a decisão de prova-lo.

A garrafa foi aberta com todo o ritual e precauções necessárias. Afinal era um desconhecido, um estranho, quase um intruso. A primeira taça foi, naturalmente, servida ao Sommelier que se prestara a tamanho risco com a generosidade dos mestres. Ele levou lentamente a taça próxima ao rosto. Olhou-a demoradamente, girou-a muitas vezes. Observou com cuidado o comportamento do liquido nas paredes da taça. Finalmente, já mais confiante, se arriscou corajosamente em se aproximar um pouco mais da taça e bravamente levou-a até próximo de suas narinas privilegiadas. Respirou muitas e solenes vezes, em intervalos silenciosos. 
O grupo acompanhava tenso. Depois de sentir os vapores e aromas do vinho, ele encheu-se de máscula coragem e sem hesitar levou a taça decididamente até os lábios. Era o momento sublime da interação. Sorveu um gole.

De olhos fechados, infindáveis segundos se passaram antes que ele os abrisse novamente. O grupo ansioso, quase em estado de choque esperava pelo diagnóstico. Ele então, sublime, solene, definitivo nos atira este veredicto enorme:
- Este vinho tem na força de sua juventude a rebeldia natural da adolescência.

Recife. Cidade de muro baixo.

Recife é uma cidade interessante, de muitos segredos.
Não é nem de longe uma cidade bonita como o Rio ou Paris. Não tem as belezas naturais de uma nem as belezas urbanas da outra. O litoral do Estado, este sim é belíssimo com algumas das praias mais lindas do planeta.

O encanto da cidade está nas pessoas. Recife é uma cidade de amigos, de bons amigos. De grandes e fortes abraços.
Apesar dos quase dois milhões de habitantes é uma cidade pequena, todo mundo se conhece. Uma cidade claramente dividida em núcleos. Boa Viagem, Olinda e Casa Forte quase não se misturam, têm caráteres diferentes, são virtualmente autônomas.
Todo mundo se conhece mesmo. Amizade é o tempero fundamental da cidade.

Por ser uma cidade de núcleos voltados pra si mesmos, por ser uma cidade sempre em festa, por ser uma cidade de amigos, Recife acabou se auto denominando “cidade de muro baixo”. Regada a muito uísque, o maior consumo per capita do país, o maior consumo mundial de Johnnie Walker, servido no terceiro polo gastronômico do país.
É verdade todos se conhecem, se conhecem bem, se conhecem em detalhes. As pessoas ainda se conhecem por nome e sobrenome. Sendo uma cidade de amigos, cidade de muro baixo, os amigos são naturalmente o assunto principal.
Não há nenhuma maldade nisso, é pura diversão. Uma intimidade carinhosa.

Ariano Suassuna, apesar de paraibano, é um recifense convicto.
É dele a melhor definição desse “muro baixo”. Diz ele, cobertíssimo de razão, que não vale a pena falar de desconhecidos, não faz sentido falar de quem não se conhece, não tem a menor graça.
Deve-se falar mal dos amigos. E mais: deve-se sempre falar pelas costas, falar pela frente seria deselegante, é desagradável.
Um sábio.

Modern Jazz Quartet

Estava em Londres quando Maria Helena, minha namorada, me fez uma enorme surpresa. Deu-me de presente uma entrada para assistir ao show do MJO - o Modern Jazz Quartet - do Milt Jackson e do John Lewis.

Ela sabia que eu adorava os caras, fiquei über alegre. Espantado perguntei,
- Por que só um ticket? Você também gosta deles, não vamos juntos?
- Ao invés de comprar dois ingressos preferi comprar um só na primeira fila, para você. Mas te espero na saída do teatro para jantarmos juntos. 
Ela devia estar realmente apaixonada. Enchi-lhe de beijos, amei-a com doçura, fiz-lhe as vontades. No dia seguinte tentei comprar uma entrada para ela mas já estava tudo esgotado há semanas.

O Royal Festival Hall fica na margem do Thames oposta ao Parlamento, ao Big Ben.
Em pé na fila de entrada do teatro, o som solene do Big Ben marcava que uma hora importante estava chegando. Sentado na primeira fila o silencio solene marcava que chegara a hora de ouvir os ídolos.
Eles chegam, silencio absoluto, tomam seus lugares. O teatro escurece, o espetáculo começa. A música fluí como uma bênção. Absolutamente lotado o teatro assiste em silêncio religioso, os raros aplausos eram discretíssimosNão era um show de jazz era um culto, uma cerimônia.

Acho que eles começaram com Django.
Os solos do Milt Jackson no vibrafone me lembravam que tinha aprendido a gostar do instrumento por causa dele. Lembrava dos meus primeiros shows de jazz, ainda adolescente, nas tardes de Jazz&Bossa aos sábados no Copacabana Palace.
Sentado bem em frente ao John Lewis eu olhava fascinado as mãos negras flutuando no teclado branco, contrastando com as teclas do piano.
Acho que eles terminaram com Round Midnight.

Quando terminou eu ainda me sentia perto do paraíso, faltava pouco pra chegar lá. A vontade de chegar perto dos ídolos era grande mas em Londres essa aproximação era impossível. As pessoas hesitavam em sair. Difícil aceitar que terminara. Antes de sair olhei para trás certo que talvez não os veria novamente.
Um abraço amoroso me esperava na saída. Fomos para casa, ela havia feito um coq au vin, ela abriu um Valpolicella, ela colocou Bag's Groove, ela me fez as vontades.

Semanas depois fui a Salvador, aniversário de meu filho Eric. Quando cheguei tive uma surpresa enorme. Modern Jazz Quartet estava na cidade para uma única apresentação. Um milagre.
No dia do espetáculo lá estava eu de novo, na primeira fila é claro. Só que desta vez no Teatro Castro Alves, meio vazio. No fim do show não vacilei e junto com outras pessoas subi no palco para falar com os músicos, coisa que eles próprios estimularam.

Indescritível apertar a mão do Milt Jackson. Apertar a mão de um dos que primeiro me conduziram pelo jazz, quase a beijei. Conversei muito com todos. Falando com o John Lewis disse que os havia ouvido em Londres há algumas semanas. Ele se surpreendeu, riu e brincou:
- Você está nos seguindo pelo mundo?
- Não, infelizmente não. É só uma enorme coincidência.
- Mas o que você acha de continuar nos acompanhando?
Ri da gentileza, da brincadeira, dele. Hoje acho que deveria ter aceitado.